quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Vesgo

Logo no início do filme Xeque-Mate, Mr. Goodkat (um matador de aluguel interpretado por Bruce Willis), explica ao seu interlocutor, antes de eliminá-lo, o que é Manobra Kansas City:
“É quando todos olham para a direita e você vai para a esquerda”.
Esta cena me remeteu direto para o ano 1982, quando eu morava na pensão da dona Judy, em Goiânia, onde um grupo bastante heterogêneo de hóspedes dividia os vários quartos da enorme casa localizada bem no centro da capital de Goiás.
Um deles era um jovem vindo do Japão de nome Hiroshi. Uma bolsa de estudos em um intercâmbio qualquer jogou o garoto, de apenas 17 anos, entre jogadores, vendedores e familiares da amável pensionista.
Hiroshi não arranhava nada do português, e os moradores se esforçavam para fazê-lo compreender algumas palavras. Eu costumava levá-lo aos treinos do Goiânia. O garoto era apaixonado por futebol.
Assim, suas primeiras palavras compreensíveis eram os nomes dos jogadores da seleção brasileira. Ele não perdia um jogo pela televisão.
“Ziiiiiiiiicô!” Saía fácil. Difícil era falar Paulo Isidorrrô, “Caléééca!” (Careca).
Como bom japonês, seu senso de humor era praticamente nulo. E se já era difícil explicar algo com bom senso, imagina contar algo engraçado pro rapaz.
Fim de março. Os hóspedes se reuniram na sala da Judy, em volta da TV, para assistir Brasil e Alemanha Ocidental, um amistoso no Maracanã. Fiquei ao lado do Hiroshi comentando algumas jogadas do time do mestre Telê Santana, falando sobre a capacidade de público do maior estádio do mundo e, principalmente, sobre as características dos nossos craques.
Ele não desgrudava os olhos puxadinhos da TV e quando entendia alguma coisa balançava a cabeça e balbuciava algo que nos parecia uma aprovação.
Notei que a sua vibração aumentava quando a bola caía pelo setor esquerdo do ataque brasileiro nos pés do mágico Mário Sérgio. Mário partia pra cima do lateral, balançava o corpo para a linha de fundo e saía por dentro. Em seguida ameaçava pra dentro e ia pro fundo, endoidando o marcador “chucrute”.
“Hiroshi gostou do Mário Sérgio”? Perguntei.
Si...si! Muito bom, né!
Hiroshi, o apelido do Mário Sérgio é “Vesgo”.
Veeesgô?
Expliquei então que o apelido do Mário se devia às jogadas que ele fazia. Olhava para um lado e lançava a bola para o outro, iludindo o adversário.
Revirei os olhos tentando dar mais ênfase às minhas palavras.
Logo em seguida Mário Sérgio recebeu um passe do Adílio e partiu pra cima do lateral, bem ao seu feitio, com a bola colada no pé esquerdo. Gingou pra cá, gingou pra lá, olhou para a esquerda, e bateu com o lado de dentro do pé virando toda a jogada para o lado direito do ataque da seleção, colocando de forma milimétrica a bola nos pés do Careca.
Pra surpresa de todos na sala, Hiroshi bateu palmas, abriu um largo sorriso, e repetiu varias vezes, mostrando que tinha compreendido o apelido do gênio:
Veeesgô! Veeesgô! Veeesgô!

8 comentários:

Roberto Vieira disse...

Grande Valdir! Grande Vesgo! Sou fã do Vesgo desde os tempos no Vitória. Vitória de Osni. Vitória que enlouquecia a Bahia e o Bahia... Parece que o Vesgo dirigia um SP-2 em Salvador. SP-2 de histórias sem fim. Grande abraço, Roberto Vieira.

Adalberto Day disse...

Valdir
O Mario Sergio, além de grande jogador - também foi grande comentarista esportivo e treinador. Vesgo era bom mesmo entortava os adversários, grande jogador do Vitoria, Flamengo, Internacional onde foi campeão brasileiro e tantos ostros clubes.
Parabéns pela sua matéria;
Um abraço /Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em blumenau.
www.adalbertoday@hotmail.com

Anônimo disse...

Grande Valdir,
Com muita satisfacao conclui a leitura de seu livro. Parabens!!! Vc conseguiu combinar otimos elementos, como dados historicos, giria, bom humor, inteligencia, multa cultura e o, mais importante, humildade, para formatar uma leitura muito gostosa e surpreendente.... Confesso, que nao esperava tamanha diversao...
Parabens de verdade!
Indo a Brusque ficaria muito satisfeito em te reencontrar no 7 Ouro...
Abraco
Zeca
CRISTIANO ZEN | MUNICH GERMANY

Anônimo disse...

oi Valdir, tudo bem?
gostaria de ver no seu blog, fotos (posters) dos clubes em que você jogou e também de outros grandes clubes brasileiros. Sinto falta de fotos de times históricos em sites do futebol brasileiro. Eu tinha, quando criança, alguns posters do América de Natal, inclusive com você na foto, se não me engano em dois - o time que venceu o Vasco em 1975 e um com o plantel completo do América em 1977 (lembro que na foto tinha os goleiros Batista, Cícero, Petrarca, além de você, Marinho, Albery, Aloísio Guerreiro, Joel Santana, etc).
Você já contou ou pretende contar em seu blog aquela briga da final entre Abc e o meu América, em 1977?
abraços,
Adriano Freire
Natal/RN

Valdir Appel disse...

AMIGO VALDIR
MUITO BOA A HISTORINHA DO HIROSHI
VAI DAR MAIS UM LIVRO, "NÔ" ?
GRANDE ABRAÇO
IATA

Anônimo disse...

Valdir,
Muito interessante, como sempre, o "causo" narrado.
Não lembrava, aliás, não sabia dessa malandragem do Mário Sérgio, que salvo engano iniciou, ou destacou-se, no Vitória da Bahia, indo depois para aquele time do RJ.
Não estou certo, mas creio que quem lançou o Mário Sérgio naquele time do RJ foi um técnico paraguaio chamado FLEITAS SOLICH. Não é FREITAS, é FLEITAS SOLICH. Vou pesquisar pra ver se minha memóriaestá batendo direito.
Imaginei que esse negócio de olhar para um lado e lançar para o outro fosse coisa do Ronaldinho Gaúcho.
Mais uma vez é a prova de que o Chacrinha estava certo: "nada se cria, tudo se copia".rsrsrsrsr
Abração.
Saudações vascaínas.
Antonio Estevan

Anônimo disse...

Grande Valdir, depois que li seu livro, aprbito de ler livros, não só relacionado a futebol, mas de modo geral, obrigado por fazer tão bem aos seus fãs, vc é 10!ah, e o nosso time macho, o Potiguar tá na luta da terceirona! se brincar agente chega!
Genildo Oliveira/Mossoró RN

Anônimo disse...

Valdir,
como vai o amigo? muito boa a matéria, gosto muito da forma que voçe escreve,é muito interessante como o texto, a musica o olfato nos remete ao passado aflorando as nossas lembranças.
Gostei de ver o meu Rubro Negro, o Dragão da Campininha em sua matéria, tenho boas recordações de voçe.
Um grande abraço,
Walbis Suel