quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Presidente fleumático

(Foto: Kosilek, Buglê, Valdir, Batista, Ipojucan, Silva, Hélio Viggio em São Paulo,1970)

João da Silva
Joguei em vários clubes brasileiros e tive a oportunidade de conhecer alguns presidentes que fizeram história à frente deles. Alguns folclóricos, outros déspotas, alguns maquiavélicos, outros tirânicos, alguns autoritários.
Quando cheguei ao Vasco da Gama o presidente era o senhor João da Silva ou simplesmente seu João, como os jogadores o chamavam, e seu vice, o senhor Antonio Soares Calçada.
Seu João era um dos donos da Carrocerias Metropolitana instalada na Avenida Brasil. Chamava a atenção pelos hábitos elegantes e conduta de um lorde inglês, algo incomum para um homem que começou a vida como comerciante, dono de uma banca de jornais.
Gostava de circular com o seu chapéu de feltro, fumando cachimbo com um fumo aromático importado.
De fleumático tinha algo: era categórico, imperturbável e decidido. Cordial e de fala mansa, transpirava credibilidade e confiança.
Gostava e falava com orgulho das qualidades do seu carro, uma Mercedes Benz conversível:
‘Ninguém abre o motor de uma Mercedes antes de 15 anos de uso’.
Observando-o, tornei-me um fumante de cachimbo e usuário de um chapéu idêntico ao dele que eu comprei em Lisboa.
Meus papos com o presidente nas concentrações eram sempre sobre cachimbos. As melhores marcas, tamanhos, filtros e formas. Tabacos, tipos de tabacos. Como encher o cachimbo, como acender, como mantê-lo aceso. Por último falávamos sobre a limpeza do cachimbo com escovilhões cônicos e a necessidade, por vezes, de usar alguma bebida com alto teor alcoólico para fazer uma limpeza mais profunda.
Virei colecionador e cheguei a ter 27 cachimbos: inglês, italiano, americano e até japonês.. .
Em 1970, seu João era o vice-presidente do senhor Agarthino Gomes.
Seu João participava ativamente de todas as atividades do clube e, nas preleções do técnico Tim, sentava-se no meio dos jogadores, absorto, enquanto o mestre estrategista mexia os seus botões, posicionando a sua equipe e revelando os segredos do adversário.
Na terceira rodada do campeonato carioca, Tim fazia sua preleção e, ao definir a lateral esquerda com Batista - que vinha atuando bem –, João Silva o interrompeu. Tirou o cachimbo da boca e indagou:
“Tim!Batista?”
E Tim respondeu:
“Batista não, Eberval!”
Nos olhares trocados entre os jogadores, a pergunta: O seu João estaria escalando o time?
Com a ajuda do presidente ou não o Vasco foi campeão carioca naquele ano.

Vasco 1951

IPOJUCAN 
Lins de AraújoNascimento: Nasceu 3/6/1926, Maceió-AL Falecimento: 19/6/1978, São Paulo-SP. Período: 1944 a 1953 Posição: Atacante Apesar de ter sido um dos jogadores mais altos do seu tempo, com 1,90m, Ipojucan era um meia habilidoso e criativo, comparado por muitos a um malabarista com a bola, leia mais:
 http://www.netvasco.com.br/mauroprais/vasco/idolos4.html#ipojucan

sábado, 16 de maio de 2015

Uma dupla do barulho

Em 1950, o Brasil sediou uma Copa do Mundo e inaugurou o Maracanã.
No mesmo ano, surgiu em Brusque a sensação de futebol catarinense da década – o Carlos Renaux.
O tricolor brusquense sagrou-se campeão estadual daquele ano e bisou o feito, em 1953, de forma invicta. Alcançaria excelentes resultados até 1958, ano da conquista da nossa primeira Copa do Mundo em gramados suecos.
Neste período de oito anos, o Renaux ainda disputou as finais de 1952, 57 e 58, ficando com o vice-campeonato nestas oportunidades.
Craques como Teixeirinha, Ivo, Pilolo, Julinho, Petruscky, Agenor, Mossiman, Pereirinha, entre tantos, desfilaram um futebol mágico que encantou toda uma geração de brusquenses.
Um jogo amistoso contra o Botafogo do Rio, em 58, realizado pouco antes da Copa, que registrou um extravagante empate de 5x5, - considerado até hoje como o “Jogo do Século” em SC - determinou o fim de uma trajetória de conquistas de um time do interior do estado.
Neste elenco, dois merecem destaque - não só pela bola que jogavam - porque foram pródigos em presepadas.
Antigamente, o rango da rapaziada, que precedia os jogos de futebol, tinha muita sustança. Nada destas comidinhas metidas à besta - supervisionadas por nutricionistas – e servidas aos atletas de hoje, tipo rações balanceadas de Pet Shop. Tinha macarrão, muito bife, feijão, arroz e capilé. O verde da alface era só para enfeitar e colorir o prato. Goiabada com queijo era o supra-sumo de sobremesa.
Ninguém se preocupava, nem o médico do clube, com o jogo que iria acontecer dali a umas três horas. O pessoal estufava mesmo a pança com gosto.
Petrusky e Pereirinha do Carlos Renaux, para prevenir e garantir o prato cheio deles, usavam uma artimanha que funcionava muito bem: primeirões na fila do almoço, supervisionavam a mesa onde eram servidos os pratos, separavam os alcatras mais robustos, davam uma escarrada e simulavam uma cuspida. A maioria convencida de que os dois realmente haviam cuspido naqueles nacos de carne, se consolavam com os pedaços menores e menos apetitosos.
Para aumentar a potência do chute, o glutão Petruscky ainda empurrava dois terços da bandeja de macarrão no prato.
Concentração não era muito comum naquele tempo e pernoites em hotéis aconteciam de vez em quando. As distâncias entre as cidades, percorridas em péssimas estradas sem pavimentação, obrigavam os times a se deslocarem um dia antes do jogo. Somente nestas oportunidades os jogadores dormiam fora de casa.
O amadorismo da época não permitia hotéis de luxo. Assim, pousadas simples, escolas e também ginásios de esportes eram transformados em alojamentos para os jogadores. Camas lado a lado.
A dupla Pereirinha e Petruscky aproveitava o sono profundo de alguns colegas para trocar os copos de água, onde alguns colegas guardavam suas pererecas postiças antes de dormir, pra modo de deixá-las mais macias ao amanhecer de um novo dia.
Ao acordarem, levavam horas tentando descobrir porque as bichinhas ficavam meio desordeiras na boca.
As dentaduras dançavam descompassadas e a fala de alguns adquiria um chiado diferente. Outros tinham que segurá-las para emitir algo inteligível.
-Ô Julio! Vê se exxxta é a tua.
-Nénão, exxxperimenta a minha...

Foto 1 - Carlos Renaux - Campeão Catarinense Alípio Rodrigues, Bianchini, Tesoura, Orival, Pilolo, Afonsinho, Arno , Ivo; Aderbal; Otavio, Helio Olinger, Petruscky e JoineAlípio Rodrigues, Bianchini, Tesoura, Orival, Pilolo, Afonsinho, Arno , Ivo; Aderbal; Otavio, Helio Olinger, Petruscky e Joine
Foto 2 - As faixas com a família
Foto 3 - 1958 - O time que enfrentou o Botafogo: Esnel, Tesoura, Ivo, Baião, Mosimann e Gordinho; Petruscky, Julinho, Teixeirinha, Júlio Camargo e Agenor
Foto 4 - O Botafogo: Beto, Adalberto, Servílho, Domício, Nilton Santos e Pampolini; Garrincha, Paulo Valentim, Edson, Didi e Quarentinha.