sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Futebol não tem segredo
Itamar Montrezor foi treinador do Carlos Renaux de Brusque nos anos 1960. Como jogador teve passagem pelo Bangu do Rio de Janeiro, na época treinado pelo lendário Gentil Cardoso.
Esta convivência com Gentil, deve ter influenciado Itamar que adotou uma postura de comandante bem humorado, fazedor de troça, garantindo assim entrada rápida para o grupo dos folclóricos da bola.
Tinha conhecimento do métier, mas levava os jogadores na “flauta” bem como os dirigentes de clubes.
Sua chegada ao Augusto Bauer, estádio do Renaux, encheu de expectativas a nação tricolor. No dia da apresentação, a tribuna da arquibancada ficou lotada pelos diretores, conselheiros e curiosos torcedores para observar o primeiro dia de trabalho do novo técnico.
A boleirada foi reunida no grande círculo, em volta do treinador, que se postou voltado de costas para a arquibancada, sentado sobre uma bola.
Identificou-se e pediu o mesmo aos jogadores. Feito isso, desfilou um amplo repertório de piadas, fazendo o grupo se desmanchar de tanto rir.
Na tribuna, a platéia se agitou animada.
"Parece que o homem tá agradando".
Lá no gramado, Itamar deu uma pausa nas piadas, filosofou e comentou:
-No mínimo os homens tão pensando que eu estou aqui dando instruções pra vocês. Pra que se vocês já sabem tudo? A função do treinador é observar e escalar os melhores.
Futebol não tem segredo: é bola pra frente que o gol é cagado!

Altos papos
Nos últimos jogos do campeonato catarinense de 67, Itamar estava substituindo seguidamente o ponta-esquerda Zé Carlos, dando mostras evidentes da sua preferência pelo jovem Joel.
Era muito comum, na época, os jogadores seguirem viagem, distribuídos em carros de alguns dirigentes e simpatizantes, para cumprir um jogo da tabela.
Sábado, o carro que levou Zé Carlos para Tubarão, no sul do estado, foi o último a chegar ao Hotel Central, onde o time se hospedou para o jogo de domingo frente ao Hercílho Luz.
Os retardatários, jantaram sozinhos e depois consultaram a listagem dos apartamentos.
Coube ao Zé Carlos, o mesmo apartamento do treinador e do massagista Mário Vinotti.
Entre um cigarrinho e outro do técnico impregnando o ambiente, o que obrigou Zé a abrir as cortinas e janelas do quarto, piadas e mais piadas empurraram a hora.
Zé, sonolento, às duas da madrugada, sugeriu:
-Chefe, gostaria de dormir, afinal amanhã eu tenho jogo!
-Não te preocupa não Zé, amanhã quem joga é o Joel.

Bolas coloridas
O gramado tricolor amanheceu colorido com bolas de couro nas cores preto e branco.
Eram as primeiras coloridas a quicarem no “Gigantinho da Avenida”, como o narrador da Rádio Araguaia, Jota Duarte, gostava de chamar o estádio Augusto Bauer.
Itamar comandava o treino coletivo empunhando o seu inseparável apito. Portava-se como um juiz rigoroso.
Falta a favor do time principal.
Todé, o negro forte da patada atômica, título que o príncipe do Parque São Jorge herdou, ajeitou a pelota para bater.
Itamar ainda contava os passos regulamentares para a formação da barreira, quando Todé disparou um petardo que atingiu a nuca do treinador.
Itamar caiu feito uma árvore, cortada no cepo, desabando durinho pra frente.
O apito voou longe.
Refez-se rapidamente e, sem perder a pose, explicou ao precipitado Todé:
-Meu filho! Presta atenção, bate firme na parte branca da bola pra pegar efeito. Batendo na parte preta o chute sai reto.
Nas horas vagas, Itamar criava passarinhos.

2 comentários:

Adalberto Day disse...

VAldir
Grande Itamar até caçava passárinhos. Muito bom o causo. Belas histórias só você mesmo para nos brindar semanalmente.
Parabéns e avante futebol Catarinense

Catia disse...

Nossa, por acaso encontrei esse blog e fiquei mto feliz ao ver que vc fala sobre o meu pai...
Mto legal, obrigada pela boa lembrança...
Catia