segunda-feira, 27 de abril de 2009

Hotel São Domingos, parte 2
As minhas diárias de hospedagem no Hotel São Domingos eram pagas religiosamente em dia pelo dirigente Jarbas Guimarães, do Sport.
Havia um zelo justificável por parte da diretoria: para impedir que os jogadores soubessem que o hotel era pago pelo clube. Afinal, a maioria morava numa pensão.
Eu não abria mão dos meus direitos e morava no hotel conforme contrato estabelecido, ainda no Rio, com o representante leonino Celso Rodrigues.
Eu falava pro diretor Leopoldo Casado:
“Diga para os outros que o clube paga o equivalente a pensão, a diferença é por minha conta”.
Assim, não tive problemas de relacionamento e de ciumeiras comuns entre os jogadores - todo mundo quer privilégios, mas não admite que alguém tenha algo a mais.
Eu não tinha carro e me deslocava do hotel para a Ilha do Retiro de táxi. Naquele tempo era um transporte barato que eu podia me dar ao luxo de utilizar.
Na Praça Maciel Pinheiro, conheci um taxista torcedor rubro-negro doente, que fazia questão de me levar diariamente.
Seu Tonho escalava o time, dava pitaco tático e afirmava:
“Vamos ser campeões! Este ano não tem pra ninguém”.
Teve!
Ele também ficava de olho no escaninho de correspondências do Hotel. Uma carta era motivo para ele me buscar na Ilha. Sabia que eu era ávido por noticias de casa. Telefone era um luxo na época.
Tive que me adaptar ao sol pernambucano. O Rio já era sufocante para um catarinense, imagina o Recife. Eu tinha o hábito de treinar de agasalho. Naquele tempo supunha-se, erradamente, que para perder peso o negócio era usar muita roupa, inclusive ceroulas plásticas por baixo do calção e da camisa.
Até a água os treinadores impediam o massagista de levar para a beira do gramado. Água e suco de laranja, somente após o treino.
Eu não tenho certeza, mas é bem provável que a sede de camelo com que os jogadores procuravam um bar após os jogos e noites livres em busca de uma loira gelada tem tudo a ver com aqueles métodos.
Hoje, o atleta dá duas voltas no gramado e os mordomos já acenam com garrafinhas de isotônicos à beira do campo.
De qualquer forma, camisas e agasalhos encharcados de suor davam um prazer mórbido aos preparadores físicos que costumavam desfilar um sorriso sádico após os trabalhos, conferindo o peso dos atletas na balança do vestiário.
Nem mesmo os médicos da época entendiam que aquela perda era apenas desidratação, reposta com alguns copos de água.
A calça de moletom e a camisa de mangas compridas por cima de outra de mangas curtas me serviam também como proteção. Cair no chão careca das áreas das goleiras da Ilha do Retiro era um atentado ao físico.
A frase: onde o goleiro joga não nasce grama, já não faz mais sentido atualmente. As barras são gramadas e o goleiro pode se dar ao luxo de jogar até com camisa de mangas curtas.
Talvez por falta de informação, um jornal publicou que eu estava perdendo gordura, usando aqueles trajes. Na verdade eu estava em plena forma física e técnica.
Treinava muito. O goleiro titular Miltão era considerado pela imprensa pernambucana como o melhor do nordeste. Para barrá-lo teria que aproveitar a primeira oportunidade que aparecesse.
Eli do Amparo cuidava da parte tática e técnica auxiliado por Astrogildo Néri, enquanto o professor Lourinaldo Silva cuidava da parte física. Nosso médico, Gilberto Falbo, também era inflexível quando se tratava da saúde dos seus atletas, marcava em cima.
A própria Federação Pernambucana exigia dos clubes um atestado que comprovasse a aptidão física dos jogadores, inclusive a dentária. Era uma forma de pressionar os filiados a cuidarem pelo menos do piano da boleirada.
O gaúcho Tonel e eu, mal desembarcamos no Recife e já fomos encaminhados ao dentista do clube, Múcio Gomes, que morava – ainda mora - em Olinda.
Após a revisão dentária, Múcio nos convidou para um almoço de fim de semana. Com o tempo fui ficando pro almoço, pra janta e pro café da manhã.
Fui adotado pelo doutor e pela Cora. Assim, as pequenas Nena, Lucinha e Silvia ganharam um irmão mais velho.
Os intervalos entre treinos, jogos e concentrações eram preenchidos pelo meu curso de inglês no Ibeu, próximo ao Hotel São Domingos, e pela procura de sebos nos arredores. Adoro manusear e sentir o cheiro de mofo dos livros que já vem com histórias extras - nas dedicatórias e nas orelhas, nos bem cuidados e também nos maltratados.
Um cineminha e os pontos turísticos centrais completavam a rotina.
Olinda era a minha praia por dois motivos. A família do doutor Múcio Gomes e as ladeiras do varadouro, onde eu me embrenhava entre os casarios, igrejas, para escutar os garotos contarem, de um só fôlego, a sua história.
Olinda! A primeira Capital Brasileira da Cultura.
Era divertido interrompê-los, para ouvi-los reiniciar tudo.
Olinda é a cidade dos ateliês. Na Espanha, o povo afirma que basta a um poeta passar um dia em Sevilha para escrever um livro. Acredito que o mesmo deva acontecer ao jovem com veia artística que mora ou se estabelece em Olinda.
Incorpora o espírito da criação, que os torna maravilhosos serígrafos, xilógrafos, pintores e esculpidores em talhas.
No mínimo.

15 comentários:

Adalberto Day disse...

Muito bom Valdir
O Goleiro sofria com essas besteiras. Perder peso com muito agasalho e não tomar água.
Parab´nes por mais este belo conto.
Um abraço Adalberto Day de Blumenau cientista social.

Mauro disse...

Ola' Valdir,

Sem duvida a medicina esportiva e a preparacao fisica atuais fazem os procedimentos de 40 anos atras parecerem medievais.

Voce saberia me dizer se esse goleiro Miltao que fazia sucesso no Nordeste era o mesmo que jogava no Vasco nos idos de 1964 a 1966? Voce chegou a encontra-lo quando chegou ao Vasco?

Abracos,

Mauro

Valdir Appel disse...

Mauro,
O Miltão é o mesmo do Vasco. Na época era o melhor de Pernambuco.
Quando cheguei em Sãojanu, 1966, ele já não estava. Os goleiros eram Levis, Pedro Paulo, Amauri e Celso nos aspirantes. No mesmo ano chegou o Edson Borracha.
Abraço

Roberto Vieira disse...

...Tinha 5 anos e morava na rua do Hospício. Comia tapioca na Praça Maciel Pinheiro. A mesma praça do hotel. Na esquina morou... Clarice Lispector. Este era chamado o 'bairro dos russos', pelo grande número de judeus do leste europeu que ali residiam. Ficaste perto da história, Valdir. Da história do Recife e deste seu amigo.

Ivo Stern disse...

Bom Dia, Valdir.

Meu nome e Ivo Stern, vivo em Israel e li na colouna Bola de Meia sobre a partida contra o Bangu que aconteceu aquele gol incrivel.
Estava no Maraca, torcida jovem, vendo o nosso querido Vascao, quando aconteceu e posso te assegurar, que nao foram poucos os que aplaudiram na saida para o vestiario.
Voce era reconhecidamente um goleirao e todos gostavamos de voce.
Te escrevo este e-mail pois li algo como "poucos aplausos vindo da arquibancada" e quis dizer o que vi.
Vi no teu blog uma foto tua com o Andrada e deu saudades. Este era um goleiro fora de serie. Ele foi um de meus idolos.

Um abraco,
Saudacoes Vascainas,
Ivo.

Obrigado Ivo pela mensagem. Forte abraço, Valdir

Valdir Appel disse...

Roberto,
Era você aquele menino com a camisa do Náutico que me chamava de frangueiro, ali na Maciel Pinheiro?
Abraço.

Augusto Freire disse...

Prezado Valdir.
Parabéns pelo blog e pelos interessantíssimos relatos e fotos, são importantes contribuições para o resgate e preservação da história do futebol brasileiro.
Moro em Brasília desde 1961 e na minha adolescência, no início da década de 70, não perdia um jogo do CEUB no Pelezão. Assim, gostaria de saber se você pode nos contar alguma história e publicar fotos daquele tempo, quando você e Rogério eram os goleiros do time, no campeonato brasileiro.
Um abraço.
Augusto Freire - Brasília (DF)

Wilson disse...

Excelentes textos. Embora pela minha idade tenha acompanhado mais o final dos anos 70 e início dos 80, dá saudade de um época "menos empresarial".
Ótima dica do Bola de Meia". Já botei o blog nos meus favoritos !
Um abraço.

BLOCOSDALIGA disse...

Parabéns, Valdir.
Sua passagem pelo Vasco e Rio foram marcantes. Parabéns também pelo blog - muito bom.
Atento para a foto com Eli do Amparo, motivo: sou morador de Paracambi(RJ)terra daquele grande craque e onde vive sua família.
Vou passar este blog aos vascaínos da minha cidade.
Um emocionado abraço.

Valdir Appel disse...

Respondendo aos amigos:
Augusto,
Tenho muitas histórias do nosso glorioso CEUB e muita saudade daquele barro vermelho do campinho da Faculdade, onde eu alava todo dia.
Fique em contato.

Valeu a força Wilson,

Blocos da Liga (?)
Se voce tem contato com os familiares do grande Eli, transmita a todos um abraço. Este homem foi um exemplo pra mim. Honrado, profissional sério e competente e acima de tudo um grande amigo.
Abraço.

Gostaria que os amigos enviassem o endereço eletronico. Valdir

Osvaldo disse...

Caro Valdir;

Hoje, por curiosidade, lendo na net um dos blogs do Globo li a história do autogol no Maracanã no jogo contra o Bangú...

Isto fez-me recuar no tempo porque eu estava lá, como grande vascaíno que sou. Estava na arquibancada na torcida da Dona Dulce Rosalina e por várias vezes contei essa história aqui na Europa (vivo à 31 anos na Suíça) e as pessoas nunca acreditaram muito...

Mas, o importante é que este fato de hoje ter visto o titulo do seu blog, levou-me a fazer esta visita e dizer que vai ter que me suportar porque vou visitar este cantinho sempre que tenha tempo...

Valdir, lembra-se quando vocês foram campeões juvenis pelo Vasco numa final em São Januário contra o Fla e que vocês ganharam 2X1 ?!... No final também "invadi" o gramado e pedi a camisa ao Valdir que me respondeu que a guardava para a sua mãe... E já se passaram 40 anos mas não esqueço...

Um abraço, caro amigo Valdir e felicidades.

Osvaldo

Valdir Appel disse...

Osvaldo.
Obrigado pela visita, espero que seja constante. A final que voce fala foi a conquista do Bi-de aspirantes em cima do Mengo. Ganhamos de 3x1. Quanto a camisa acredito que devo ter entregue a minha mãe mesmo. Um ano antes quando ganhei o título - na ultima partida joguei no time principal - mas fiz questão de ir receber a minha faixa de campeão com os colegas.
A turma de veteranos me gozou: pô valdir! se fosse uma grana tudo bem!
Outros tempos, outros valores.
Abraçoamigo.

Anônimo disse...

VALEU VALDIR!!!!!!!!!!!!!!!!!!Genildo Oliveira Mossoró RN

Dilton disse...

Caro amigo
Coincidência, quando você estava morando no hotel São Domingos eu também lá estava onde fiquei 4 meses. Fui transferido de São Paulo para comandar uma filial de uma multinacional. Quando minha familia chegou, fui morar em Boa Viagem. A história das flores você colocou no seu blog dois anos atrás.
Abraços
Dilton

Antonio Estevan disse...

Valdir,

Acho que em 1971, lí numa revista placar que o Dario, que era chamado de PEITO DE AÇO, e depois mudaram pra DADÁ MARAVILHA, num jogo em ecife chegou a perder 5kg. Será verdade?

Ah, naquele tempo, eu lia até as súmulas dos jogos que a placar publicava. É verdade, lia até as súmulas.rsrsrsrsr

Outra coisa, alérgico ao extremo como sou, só de imaginar vc se deleitando com cheiro de môfo de livro velho, fiquei com o nariz obstruído.rsrsrsrs

Aliás, meus olhos já estão lacrimejando e vou já começar a espirrar.rsrsrsrs

Pbns.

Abração.

Hoje o Vasco vence o grande CLÁSSICO BRASILEIRO contra o Icasa/Ce.(TOMARA)

aNTº eSTEVAM