quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Neném Prancha

"Pênalti é tão importante que quem devia cobrar era o presidente do clube"

Um enfarte do miocárdio silenciou para sempre o homem Antonio Franco de Oliveira, na madrugada de ontem, na Casa de Saúde Dr. Eiras. Mas "Neném Prancha", o mito, ficará na história do futebol brasileiro. Torcedor incondicional do Botafogo desde o dia em que chegou a Copacabana, procedente de Resende, há mais de 40 anos. "Neném Prancha" ganhou fama no extinto Posto Quatro Futebol Clube, como goleador, e zagueiro, no Carioca Esporte clube.
Profundo conhecedor de futebol, "Neném Prancha" atuou até pouco tempo como "olheiro" no futebol de praia. Roupeiro do departamento de atletismo no Botafogo desde 1943 - começou trabalhando para a divisão juvenil de futebol, Antonio Franco de Oliveira passou a ter problema no coração a partir de março do ano passado:
"O "Neném" ficou muito agitado com o lançamento do livro "Assim falou Neném Prancha", de autoria do esportista Pedro Zamara", era o comentário mais ouvido durante o seu enterro no cemitério São João Batista.
Homem de poucas palavras, mas perfeito observador e muito inteligente, só falava nos momentos oportunos. Lançava com grande humor as suas frases irônicas para definir os fatos. Adepto do futebol simples e objetivo, ele contestava a forma de jogar de Domingos da Guia. Neném repudiava o drible, o firula dentro da área:
"Jogar a bola pra cima, enquanto ela estiver no alto não há perigo de gol."
Para muitos torcedores "Neném" era uma figura humana estranha. Apesar de muito conhecido na praia, ele jamais foi visto tomando banho de mar. Antonio Franco de Oliveira jamais gostou de falar sobre o seu passado. Filho de Zeferino, um biscateiro e D. Julia, empregada doméstica, "Neném Prancha" passou os seus 69 anos - nasceu a 16 de junho de 1906 - criando suas frases.
Quando encontrava um menino habilidoso, com jeito de seguir a carreira, "Neném Prancha" o aconselhava.
"Jogador de futebol, tem que ir na bola com a mesma disposição com que vai num prato de comida. Com fome, para estraçalhar."
Talvez por passar praticamente toda a sua vida entre a praia e o seu pequeno quarto na própria sede do Botafogo, assim definia as concentrações:
"Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida".
Foi também inimigo das superstições que dominam a maioria dos jogadores e dirigentes do futebol brasileiro. Ele sempre dizia que sem talento não adiantavam as promessas:
"Se macumba resolvesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado".
Um conselho paternal para os goleiros:
"O goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas".
Admirador do futebol clássico, "Neném Prancha" encarava Didi como um dos maiores armadores de futebol do mundo. Sua resposta era a mesma quando solicitado para comentar o talento de Didi:
"O Didi joga bola como quem chupa laranja, com muito carinho".
Mito do futebol brasileiro, Antonio Franco de Oliveira passou a "Neném Prancha" por causa das mãos - cada uma mede 23 centímetros de comprimento - e dos pés, que poucas vezes calçaram sapatos número 44 - ele preferia os chinelos. A exemplo dos demais funcionários do Botafogo, passou por privações com os frequentes atrasos dos salários. Mas nunca pensou em largar o clube de seu coração. Foi há muito custo que ele concordou em se internar numa casa de saúde.
"Neném Prancha" jamais pensou em casamento, porque o pouco dinheiro que ganhava servia apenas para "Manter o estômago em dia" além disso, "Neném Prancha" não confiava muito na história da Amélia, a mulher de verdade, porque lia diariamente nos jornais as notícias sobre briga de casais:
"Casamento é coisa muito séria para terminar nas manchetes de jornais".
Quando jogador no futebol de praia, "Neném Prancha evitava a cobrança de pênaltis e depois passou à condição de treinador de juvenis e torcedor do Botafogo, ele lançou uma de suas mais famosas frases:
"Penalti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube".

NENÉM PRANCHA, O FILÓSOFO DO FUTEBOL, MORREU
Rio (Sucursal) - Publicado na Folha de S.Paulo, sábado, 17 de janeiro de 1976

3 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Mais uma que eu desconhecia esaa do "Neném Prancha", as frases até são bem conhecidas.
Você sempre nos surprendendo e nos brindadndo com momentos raros de nosso cotidiano do esporte bretão.
Valeu por mais essa um abraço
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

Roberto Vieira disse...

Mestre Valdir, quem sabe Prancha ficou apenas 'encantado'? Como pode morrer quem vive no coração e na memória das pessoas? Prancha é Tibicuera...Podes crer! As capas de revista estão supimpas!

Anônimo disse...

Nenem Prancha realmente era uma figura, 10 mesmo! valeu Valdir, Genildo Oliveira