quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Raul, um goleiro acima da média.

Toca da Raposa.
Valdir de Moraes comandou as tradicionais voltas de aquecimento para os goleiros da seleção brasileira, alguns exercícios calistênicos – exercícios leves que visam manter o vigor do atleta – culminando com os sempre necessários alongamentos. Depois tentou convencer Raul a participar dos treinos com bola, sem resultado.
“Quequéisso chefe! O senhor já me matou só no aquecimento”
Manhã do dia seguinte, toca o telefone do quarto do Raul às 7 horas. O goleiro atende, resmunga alguma coisa e desliga. Vira-se para o outro lado e continua dormindo.
Quase 8 horas. Valdir entra no quarto e chama Raul:
“Vamos lá meu goleiro, levanta, só falta você no café!”.
Raul senta-se na cama sonolento e pede ao professor uma caneta e um papel. Intrigado, Valdir o atende. Raul então escreve "vale um treino”, entrega ao incrédulo Valdir e volta a dormir. Valdir sai batendo a porta.
No terceiro dia, refeito do cansaço, Raul demonstrou vontade e um pouco mais de gás. Participou ativamente dos treinos. O que não previu foi a saída prematura dos colegas Carlos e Valdir Peres, deixando-o sozinho no gol para uma bateria de chutes dos atacantes canarinhos.
Sem o revezamento constante que esta prática impõe, coube a Raul a missão de ficar defendendo os disparos dos atacantes, de todas as distâncias possíveis, ao seu gol.
Desta forma, para agüentar o ritmo, Raul esticava-se para defender algumas bolas e apenas olhava as mais difíceis com o rabo de olho, poupando-se.
Sentado atrás do gol, cercado por um enxame de repórteres, Telê acompanhava as finalizações e as defesas do seu goleiro. Quando Raul começou a demonstrar cansaço, deixando de ir em algumas bolas, Telê começou a provocá-lo:
“Raul, tu é preguiçoso heim cara? Vai na bola, Raul!”.
Raul mantinha-se calado, fazendo “ouvido de mercador”, alheio aos comentários irritantes do técnico, até que uma bola pegou de mau jeito em um dedo da sua mão, provocando dores.
“Viu Raul? Preguiçoso sempre se machuca”. Ironizou Telê.
Aí Raul não se conteve. Voltou-se para Telê e disparou:
“Você me convocou para treinar ou para jogar?”
Até aquele dia Telê considerava Raul o seu goleiro preferido e titular da seleção.
Logo após a divulgação da lista dos convocados para a Copa de 1982, com a surpreendente exclusão do goleiro, um jornalista perguntou ao Raul:
“Você está magoado por não ter sido convocado?”.
“Quem joga no Flamengo não precisa de seleção!”
(O fato de não gostar de treinar tirou Raul da seleção, que, até hoje, não se conforma com o critério. Foi convocado porque jogava bem e cortado porque não treinava. Afinal queriam um goleiro para treinar ou para jogar?
Só que Raul nunca tornou público este desabafo. Elegante, preferiu guardar a desavença com Telê, que, segundo muitos que com ele viveram, era de guardar rancor. Provavelmente, a reação naquele treino tenha selado a chance do goleiro na seleção).
O desabafo do goleiro sensibilizou os dirigentes rubro-negros que o homenagearam com uma placa pelo amor demonstrado ao clube.


O "velho" gozador


Flamengo e Atlético Mineiro decidiram a fase inicial da Taça Libertadores de 1981 em Goiânia, campo neutro. Os dois times chegaram juntos a capital goianiense.

Raul Plassmann cruzou com o ponta esquerda Éder no aeroporto Santa Genoveva.
Éder, que detinha na perna canhota um dos chutes mais potentes do Brasil, provocou o seu adversário:
“Te prepara cara! Amanhã vou meter de trivela na tua gaveta. Bota oito na barreira”.
“Éder, se eu já sei que tu vais meter lá onde a coruja dorme, vou mandar abrir a barreira.
Se você fizer o gol é normal, se eu pegar me consagro”. Rebateu sorridente, o goleirão da camisa amarela.

Bolas cruzadas
No dia da partida, Raul Quadros, repórter da TV Globo, me levou até o hotel Umuarama onde o Flamengo estava hospedado. O objetivo era a gravação, para o Globo Esporte, de uma dica que eu passei para o goleiro rubro-negro.
Aconselhei Raul a não jogar de frente para a linha de fundo nos escanteios. A iluminação do Estádio Serra Dourada incide diretamente para a pequena área das balizas - goleiro que fica de frente para o fundo do campo perde a bola de vista quando esta é alçada para o gol - o macete é jogar de lado.
Á noite, Raul nem precisou praticar o detalhe. A bola pouco rondou a sua baliza e o jogo terminou com pouco mais de 30 minutos de bola rolando, graças à arbitragem desastrosa de Jose Roberto Wrigh.



O comentaristaTrês anos depois, reencontrei Raul Plassmann em Goiânia, já comentarista da Rádio Tupi do Rio de Janeiro.
Batemos um papo no seu apartamento no Hotel Augustus, logo após gravar o seu comentário para o programa esportivo da emissora. Rimos bastante com o comentário:
“Valdir, é dureza falar durante 15 minutos seguidos! Pegar bola era bem mais fácil”.

(Hoje, Raul Plassmann é um craque da comunicação, acima da média).


Raul Guilherme Plassmann
Data de nascimento: 27/09/1945
Local: Antonina (PR)

Clubes em que atuou: Atlético/PR, São Paulo, Cruzeiro e Flamengo.
Títulos: Mundial Interclubes (81), Taça Libertadores da América (76 e 81), Campeonato Brasileiro (80, 82 e 83), Taça Brasil (66), Campeonato Carioca (78, 79, 79 especial e 81) e Campeonato Mineiro (66, 67, 68, 69, 72, 73, 74, 75 e 77).
Outros Prêmios: Taça Minas Gerais (73) pelo Cruzeiro.
*Velho – apelido de Raul no Flamengo – pelo jeitão de falar com os outros
-Fotos postadas:
1-Cruzeiro Campeão de 1966 - Revista Ídolos do Esporte
2-Flamengo - Placar
3-Raul - Acervo Valdir

5 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Estive no lançamento de seu livro na Boca do Gol em Brusque, e então tive a oportunidade de conhecer este grande goleiro que foi o Raul Plasmann, além de grande goleiro, grande simpatia e educadíssimo. Mas te confesso que apesar de achar isso tudo, não concordo com o não treinamento, bem como de indisciplinas táticas. Mas concordo que Raul foi um dos maiores goleiros deste nosso Brasil.
Parabéns pela bela reportagem.
Adalberto Day – cientista social em Blumenau.
www.adalbertoday.blogspot.com

Anônimo disse...

É Muito bom poder saber mais do Raul, não tive a oportunidade de ve lo jogar, mas bastar ler um popuco de textos como esse aqui no Blog para saber a grandeza desse Goleiro, ninguém melhor do que um outro grande Goleiro para falar do Raul, valeu Valdir!
Genildo/Mossoró RN

Anônimo disse...

Amigo Valdir

Esqueça os comentários, suas histórias são fantásticas. Esse Raul eu conheço bem, cobri o Flamengo todo o tempo que ele passou lá. Uma figuraça, gosto muito dele, cara amigo, sério,
valeu a pena conhecer tanta gente boa nessa profissão. Estou tentando passar alguma coisa no meu livro, para o torcedor saber o que acontece nos bastidores. Tenho lido e me divertido muito com seus artigos. Grande abraço. Iata.

Macedo disse...

Mestre Valdir, um artigo que saiu na Folha de SP, anteontem, e que é oportuno para o Blog. PS Em tempo: e aquela foto que V. ficou de verificar em seus guardados, da Revista do Esporte, na contracapa em preto-e-branco, com os então 5 goleiros do Flamengo - Marcial, Mauro, Fernando, Valdomiro e Joélcio (irmão mais moço do Joubert), Cinco para uma vaga ?
Abrs,
Marcus
"A mística do goleiro
Naquela manhã, o Fábio, funcionário do hotel em que fico em Veneza, e com o qual sempre converso de futebol, nem me deu bom-dia. “Você viu o Buffon?”, foi logo dizendo. Sim, eu tinha visto o Gianluigi Buffon na véspera, que com três grandes defesas havia segurado o 1 a 0 da Azzurra diante da Bulgária e praticamente garantido a presença dos italianos na Copa do Brasil. Uma dessas defesas foi verdadeiro milagre. O búlgaro Popov arrematou dentro da pequena área, a metro meio ou dois do gol. Buffon tirou de dentro, no reflexo. Fez o impossível. É uma daqueles cenas do futebol que temos de ver e rever várias vezes, sem acreditar muito em nossos olhos.
Não foi só o Fábio a se entusiasmar. Toda a Itália, depois do jogo, só queria falar em Buffon e em goleiros, esses seres míticos – e às vezes amaldiçoados. Não por acaso, um escritor e filósofo como Albert Camus jogou na posição e disse que tudo o que se precisa saber sobre ética e valores pode ser aprendido num campo de futebol. Em especial se o camarada joga entre os três paus da trave.
Por exemplo, o goleiro sabe que tudo é relativo. Pode ser vilão ou herói por uma fração de segundo ou de milímetros. “Se” Barbosa tivesse chegado naquela bola chutada por Gigghia, talvez o Maracanazzo não tivesse existido e o goleiro sairia como um dos heróis do primeiro título mundial brasileiro. Talvez como “o”herói, aquele que, com uma defesa milagrosa, havia garantido o empate que dava o título. Como o “se”não joga, Barbosa virou vilão. E, já no fim da vida se queixava de que se a pena máxima no Brasil era de 30 anos, ele fora condenado pelo resto dos seus dias.
Na semana de Buffon, o articulista de futebol Gianni Mura, do La Reppublica, escreveu uma coluna muito bonita. Parte da façanha do goleiro da Azzurra e conduz o texto a uma página de glória da Itália. Como de fato tudo é relativo, essa é também uma página inglória para o lado oposto, ou seja nós. Você já adivinhou que falo do que batizamos como tragédia de Sarriá, a desclassificação da maravilhosa seleção brasileira de 1982 para a Itália que, indo adiante na competição, tornou-se campeã mundial pela terceira vez. Costumamos lembrar de Paolo Rossi, que fez os três gols, como nosso carrasco. Para os italianos, seria o herói. Pois Mura lembra outra coisa. De nada teria adiantado a incrível felicidade de Rossi naquele jogo se Dino Zoff não houvesse defendido, de maneira quase impossível, a cabeçada de Oscar no último minuto de jogo. Zoff recorda esse lance e lembra que foi uma defesa de fato muito difícil. Não bastava rebater a bola, pois provavelmente algum brasileiro a mandaria em seguida para gol. Era preciso matar o lance. Foi o que tentou fazer. E fez.
Esse depoimento de Zoff está num livro citado por Mura, Il Portiere (O Goleiro), de Jonathan Wilson, inteiramente dedicado a essa nobre posição. Fala dos grandes de todos os tempos, Lev Yachin, o aranha negra russo, considerado por alguns o maior de todos, mas também de Banks, Shilton, e tantos outros. Faz referência ao nosso Gylmar dos Santos Neves, há pouco falecido. O livro é escrito por um inglês, e o italiano Mura dele extrai a parte que lhe interessa. Fala muito de Zoff. De como, antes da Copa de 1982, andava desacreditado e críticos diziam que deveria comprar um cão-guia. Mas a virtude do goleiro é a paciência. Fala do seu senso ético e de como passou três noites sem dormir quando sua equipe venceu um jogo graças ao pênalti simulado por um companheiro.
Leio e me encanto com essas histórias de goleiros".

Valdir Appel disse...

Olá Macedo, não encontrei a revista. Obrigado pelo comentário, post, abraço