domingo, 5 de maio de 2013

Adeus, Nado.


Valdir e Nado
Um ponta arretado
As manhãs ensolaradas de sábado atraíam dezenas de curiosos aos campos de areia, próximos dos arrecifes das praias de Olinda, para ver um menino franzino e habilidoso partir para cima dos laterais adversários levando, com toques curtos e velocidade, a bola grudada aos pés descalços (característica que levaria para os gramados), gingando e driblando, saindo ora pela direita ora pela esquerda, e desnorteando os marcadores.
Nado chutava bem com ambas as pernas, o que lhe permitia alçar precisos cruzamentos que deixavam o centroavante do seu time na cara do gol.
No Náutico, jogou durante alguns anos ao lado de craques como Salomão, Bita, Nino, Lala, Rinaldo, Lula e Ivan, e se eternizou na memória timbu, conquistando títulos em todas as categorias.
Uma partida contra o Vasco da Gama no Maracanã, em 1965, despertou o interesse do clube carioca pelo seu futebol, que o contratou pagando uma soma milionária pelo seu passe, no inicio de 1966.
Integrou-se à equipe vascaína que excursionava pela Europa, estreando em Nápoles, depois de servir à Seleção Brasileira, convocado para definir o grupo que disputaria a Copa do Mundo.
O mineiro Tostão, o gaúcho Alcindo e o pernambucano Nado eram chamados os estranhos porque não jogavam no eixo Rio-São Paulo.
Os estranhos se destacaram nos treinos, e Nado foi injustamente cortado daquela seleção política e saudosista que fez um enorme fiasco na Inglaterra.
Na fala mansa, Nado revelava um humor afiado e inteligente. De hábitos simples, era tolerante e de uma aparente timidez que, às vezes, era confundida com uma passividade que não possuía.
Foi durante três anos meu melhor amigo. Concentrávamos juntos e tínhamos as mesmas amizades no clube: Acilino, Joel, Buglê, Celso, Alcir, Moacir, Valinhos, Beneti e os seus conterrâneos Pedro Paulo e Adilson. Este grupo acostumou-se a tratar um ao outro como conterra (abreviação de conterrâneo), que Adilson, independentemente das origens de cada um, chamava os amigos.
Nado teve dias difíceis até superar uma marcação serrada por parte da imprensa, que lhe dava notas baixas mesmo naqueles jogos em que atuava bem. Nós tínhamos consciência de que o problema a ser superado era a má fase vascaína.
O Vasco tinha um elenco forte, que não ganhava um título a mais de 10 anos, desunido e cheio de vaidades injustificadas, onde muitos se apegavam a umbanda para tentar derrubar o colega de posição, enquanto a torcida sofria e se desesperava nas arquibancadas com a falta de conquistas.
Uma historinha interessante aconteceu em 1967, e ilustra bem os momentos difíceis do pernambucano em São Januário. Nado contundiu-se às vésperas do embarque do time para uma excursão. Fez tratamento no joelho e conseguiu uma recuperação mais rápida do que a prevista. Já estava com fome de bola e pediu ao doutor Nicolau que o liberasse para treinar entre os aspirantes, e assim recuperar a forma mais rapidamente.
Célio de Souza, treinador dos aspirantes, colocou Nado no coletivo contra os juniores. Como sempre, a arquibancada do Vasco atraía vários sócios torcedores e alguns portugueses conselheiros, que gostavam de cornetear.
Nado simplesmente fez grandes jogadas, driblou, passou, cruzou e fez um gol. Ao término da prática, o baixinho saiu sorridente com aquela cara de menino que Deus lhe deu.
Um bigodudo senhor português virou-se para outro que estava ao seu lado na tribuna, e comentou:
“Veja lá, ó Pá! O nosso Vasco não toma jeito, gasta lá uns 100 milhões com um tal de Nado, e nós temos este gajo aí nos juvenis, que é bem melhor!”.
“Senhor, este gajo aí é o tal de Nado!”.
O ano de 1967 terminou de forma sombria para Nado, Oldair, Fontana e Brito, todos jogadores de seleção, barrados pelo Ademir Menezes. Nado era o mais decepcionado porque o técnico era seu conterrâneo.
Felizmente para todos, o ano de 1968 trouxe Paulinho de Almeida para comandar o Vasco. Fora o fato de ter sido um dos maiores ídolos da história do clube, agora tinha a oportunidade de fazer carreira como técnico.
Paulinho soube (como poucos!) unir o grupo e fazê-lo vencedor. Conquistou naquele ano o título de vice-campeão carioca numa campanha excelente e fez um ótimo campeonato brasileiro, chegando em terceiro lugar.
E Nado foi peça fundamental neste ano de muitas vitórias. Mostrou todo o seu futebol sob o comando de Paulinho e foi convocado três vezes para amistosos da Seleção Brasileira e uma vez pela Seleção Carioca que enfrentou a Paulista, perdendo por 3 a 2 em jogo de gala do Rei Pelé. Este jogo homenageou a Rainha Elisabeth, em visita ao Brasil.
E foi em um jogo pela Seleção Brasileira, formada por um time integrado praticamente por jogadores botafoguenses, que Nado recebeu sua consagração no maior estádio do mundo.
A partida foi contra a Argentina, o Brasil venceu por 4 a 1. Nado deu tantos dribles nos defensores argentinos, que o Maracanã lotado se rendeu ao que parecia um Mané Garrincha ressuscitado. Foi convocado também para jogos da seleção oficial contra Alemanha e Iugoslávia.Em 1969 sucumbiu sob o poder de Evaristo e padeceu até ser liberado pelo presidente João Silva, que lhe deu o passe pelos bons serviços prestados ao clube.
Transferiu-se para o Olaria, onde teve a oportunidade de pregar uma peça na Seleção Brasileira que se preparava para a Copa do México, fazendo o gol que deu a vitória ao Olaria por 1 a 0 sobre os canarinhos B em pleno Maracanã, enfileirando Everaldo e Joel e tocando por baixo de Leão.
Conquistaria novos títulos no Fortaleza e no Ceará nos anos 1970 e 1974. Nado ou José Rinaldo Lasálvia nasceu em 15 de novembro de 1938 e encerrou sua carreira em 1974, após uma cirurgia dos ligamentos do joelho direito. Vive hoje em sua terra natal, Olinda, ao lado da família que tanto ama.

*Nado, faleceu dia 03 de maio em Olinda/PE, tinha 74 anos de idade.

15 comentários:

Anônimo disse...

Valdir,
No meu time de botão em BSB, aliás, em um dos meus time de botão, o goleiro era o Pedro Paulo e o ponta o Nado, com fotografia e tudo.
Quando vim morar em Fortaleza, em 1973, ainda cheguei a vê-lo jogar em várias oportunidades.
Não sei se o Nado tem alguma influência em algo que penso às vezes, que é o seguinte:
" se um dia o Vasco acabasse iria torcer pelo Náutico".
Tomara que isso NUNCA aconteça.
Pbns.
Abração.
A história de hoje foi das melhores.

Anônimo disse...

Dá-lhe Valdir !!!
Agradecemos a homenagem !
Abraços
Haroldo

Roberto Vieira disse...

Tive a ousadia de colocar o texto lá no Blog. Suas palavras são simplesmente antológicas!Ave Valdir! Amanhã nos Aflitos lembraremos de você...

Victor Kingma disse...

Caro Valdir,
Parabéns pelo texto sobre o grande Nado,um ponteiro que sabia como poucos exercitar a magia do drible, hoje tão raro no futebol.
Grande abraço

Adalberto Day disse...

Valdir
Como vascaíno pude me deliciar hoje com sua bela e sempre matéria.
Realmente nada mais que justo falar deste jogador chamado Nado que para mim foi um dos melhores pontas direita de nosso futebol. Nado era bom mesmo, dava gosto de ouvir os jogos do Vasco, pois como você coloca, tinha um grande time apesar de não ganhar títulos. Junto com o Nado no Vasco também jogou o Salomão que também foiu um bom meio campista.
Um abraço e parabéns pela matéria.
Adalberto Day cientista social em Blumenau.
www.adalbertoday.blogspot.com

Mauro disse...

Valdir,
Essa bela cronica sobre o Nado e' uma das melhores do seu blog, pelo menos ate' agora, e como isso quero dizer que e' uma joia preciosa, pois cronicas excelentes nao faltam nesse blog. E o Nado merece. Tinha futebol para ter chegado ainda mais alto no Vasco e na carreira. Concordo que a convocacao de 1966 foi cheia de injusticas. E de fato, Nado, ainda no Nautico na epoca, era um dos dois melhores pontas-direitas do Brasil, juntamente com Paulo Borges.

Meu abraco agradecido a ele, por quem torci tanto na minha infancia.

Mauro

Mauro disse...

Valdir,
Eu de novo. Mais uma coisa: A revista da biografia do Nado e' otima e guardo com maior carinho o exemplar autografado por ele que voce conseguiu para mim. Minha gratidao a ambos.

Mauro

Anônimo disse...

Como é falado esse hexa do Nautico!!! parabéns pela homenagem Valdir, tenho um carinho pelo Nautico, pena que não estão dando oportunidade para a nossa revelação Mossoroense o nosso Berg, um abraço, o Timbu é fantastico mesmo!

Anônimo disse...

Genildo Oliveira/Mossoró

Anônimo disse...

Irmão!

Voce é show e mais uma vez parabéns pela materia e pelas fotos que fazem agente voltar no tempo matando a saudades daqueles que convivemos e por que não dizer fizeram parte de nossa historia.
um forte abraço Barbirotto

Anônimo disse...

Valdir,

Sou torcedor do Vasco e comecei acompanhar futebol com o time que tinha Você, Pedro Paulo(também goleiro), Ferreira, Ananias, Fontana, Brito, Heberval, Alcir, Valfrido, Buglet entre outros. Não posso deixar de dizer que estava no Maracanã no jogo contra o Bangu, na baliza onde estava a torcida do Vasco a direita da tribuna de honra aconteceu aquele lance do auto-gol, hoje isso faz parte de boas recordações que o futebol atual não consegue transmitir, que é o amor do jogador ao clube.

Sergio Martins

Assistir Futebol ao VIVO disse...

muito legal!

Mauro disse...

Valdir,
Fiquei muito entristecido com a noticia do falecimento do Nado. Ele nao esta' mais conosco, mas o comentario que escrevi quando da postagem original da cronica, em 22/7/2008 continua valendo.

Minhas sentidas condolencias `a familia e aos amigos.

Mauro

Valdir Appel disse...

Obrigado, Mauro, vão enviar a mensagem para a família do Nado.

Regina Carvalho disse...

Gostei da homenagem, e aproveito pra mandar um abraço!