sábado, 30 de março de 2013

Aflição no Arruda

(Campeonato brasileiro de 1975, fase 1)
A classificação antecipada contra o Vasco, em São Januário, permitiu ao América RN jogar a última partida contra o Náutico apenas para cumprir tabela.
Na semana do jogo: o presidente do Bahia, Paulo Maracajá, anunciou um prêmio extra caso eu evitasse a vitória do time pernambucano por uma diferença de dois gols. Na época, esta diferença dava três pontos ao vencedor.
Não sei por que o jogo não foi disputado nos Aflitos, alçapão do Náutico. O Estádio do Santa Cruz estava lotado pela torcida Timbú que incentivou o time durante os 90 minutos. Na verdade, o Náutico alugou o meio campo e, lá na cozinha, eu e a minha defesa suportamos a pressão durante o primeiro tempo e sucumbimos aos pés do artilheiro Jorge Mendonça aos 14 minutos da segunda etapa.
Daí em diante foi um desespero.
No final da partida, Lima cobrou escanteio na pequena área, subi num bolo de jogadores e fui atingido nas costas pelo joelho do atacante Paraguaio. Caí me contorcendo todo. O socorro foi imediato, só que do banco do Náutico, que estava próximo do meu gol. Com tanta gente em volta tentando me reanimar entendi que havia muita pressa dos adversários para reiniciar o jogo e acabei xingando o médico que me socorria.
Aí chegou o doutor Maeterlinck, médico do América, que pediu desculpas ao colega do Náutico pela minha grosseria. Fiquei com vontade de xingar o Maeterlinck também. Pô! Havia uma desconfiança geral de que eu estava tentando ganhar tempo. Só que estava doendo em mim.
Recuperado, arrumei a bola pra cobrar a falta. Olímpio se apresentou pela esquerda. Quando ameacei passar pra ele, Gilvã marcou o meu lateral.
Refuguei o passe. O juiz Emídio Marques de Mesquita me amarelou com o cartão. Tentei convencê-lo de que era um absurdo eu estar fazendo cera, perdendo por 1 a 0.
Até o juiz tinha lido nos jornais que eu estava levando bicho extra para impedir o triunfo do Náutico por mais de um gol.
Fim de papo e vitória do Náutico por 1 x0. Resultado que interessava ao Bahia, que esqueceu de fazer o dever de casa, perdendo em Salvador para o Figueirense. Conclusão: ficaram de fora os dois, Bahia e Náutico.
Até hoje, estou esperando o prêmio do Maracajá, que eu pretendia dividir com a rapaziada.
Ah! Só pra encerrar: a joelhada me custou três semanas no departamento médico do clube e o doutor Maeterlink foi jantar com o doutor Romeu Krause - irmão do ex-ministro Gustavo Krause -, seu amigo desde então.

Campeonato Brasileiro – 1ª fase. Recife/PE. 04 de nov. 1975. Estádio: Arruda. Público 14.347 – Renda R$ 165.071,00. Juiz: Emídio Marques de Mesquita/SP. Náutico 1x 0 América de RN. Gol: Jorge Mendonça, 14 do segundo tempo.
Náutico: Neneca, Miguel, Drailton, Sidclei e França; Pedro Omar, Juca Show e Betinho (Gilvã); Paraguaio, Jorge Mendonça e Lima. Técnico: Orlando Fantoni. América RN: Valdir, Olímpio, Mario Braga, Queiroz e Carlindo; Zeca, Humberto Ramos e Washington (Edinho); Pedrada (Reinaldo), Élcio e Ivanildo. Técnico: Sebastião Leônidas.

Nota Autor: Alguns trechos originais do texto A Zebra, publicado no livro Na Boca do Gol foram mantidos para dar destaque ao jogo.


Uma das formações do Náutico de 1975.

América RN de 1975, São Januário. América 1 x 0 Vasco

8 comentários:

Valdir Appel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lenivaldo disse...

Meu caro Valdir:
Acabei de colocar no ar seu belo artigo. Trabalhei naquele jogo. Realmente foi uma aflição. Lembro-me até que na saída, a delegação do América no ônibus, alguns torcedores mexendo com vocês porque perderam o jogo, dizendo que o América era um time fraco, que só fez cera, essas coisas do pós-jogo, e você, numa das janelas do coletivo, respondeu: "É, mas nós estamos classificados e vocês não". Outra coisa: fiz uma retificação no finzinho do texto. É que o médico que lhe atendeu é Romeu Krause, irmão do ex-ministro Gustavo Krause. O engano é natural, já que Gustavo é que é conhecido.
Lenivaldo Aragão

Lenivaldo,
Já corrigi o nome do doutor Krause.

Roberto Vieira disse...

Simplesmente espetacular, Valdir. Espetacular.

Anônimo disse...

Poxa esses eu considero uma das melhores histórias tuas Valdir, por sinal o medo do America na epoca ainda continua no time atualmente e é um dos mais respeitados no ramo, se eu fosse voce ainda cobraria o bicho!
um abraço!!!! só voce mesmo para lembrar do Mequinha rsrsss
Genildo Oliveira (Mossoró RN)

Anônimo disse...

Poxa essa eu considero uma das melhores histórias tuas Valdir, por sinal o medico do America na epoca ainda continua no time atualmente e é um dos mais respeitados no ramo, se eu fosse voce ainda cobraria o bicho!
um abraço!!!! só voce mesmo para lembrar do Mequinha rsrsss
Genildo Oliveira (Mossoró RN)

Adalberto Day disse...

Muito Bom Valdir
Você é fera....e quando jogava contra o meu Vascão aprontava.
Bela história...mas que essa joelda deve ter doido a isso deve.
Um abraço e continue assim
www.adalbertoday.blogspot.com
Blumenau

Anônimo disse...

cara que prazer te ver no globo Esporte, quando vi, dei um pulo, vc é o cara me orgulho dagente ter essa singela amizade, voce não escreve, voce faz conto, é uma viagem, valeu Valdir! Genildo/Mossoró Rn

Anônimo disse...

epa valdir, esse Genildo Oliveira ai do comentario que fala do Mequinha, não sou eu, aquele que vc enviou o livro viu cara! qualquer problema ai to fora! so venho aqui de vez emquando pra matar saudades..valeu Valdir Genildo/Mossoró Rn