sábado, 20 de julho de 2013

Ah, se meu Fiat falasse! 
1979.
Barbirotto
A rua estreita e sem saída, transversal da Avenida Araguaia - no centro de Goiânia - alarga-se no final, engordando e formando uma pequena praça sem monumento.
Na época era endereço de poucos e antigos moradores, uma escola básica particular e uma pensão.
A casa branca, pensão da dona Judy, de muitos quartos, varanda e garagem para dois carros, escondia nos fundos um pequeno quintal e uma indispensável churrasqueira.
Na pensão da dona Judy, o futebol sempre falou mais alto, excetuando um pensionista japonês “fora da casinha” aqui, um vendedor de pasta acolá; os demais hóspedes eram todos jogadores dos principais clubes da capital.
Os quartos limpos e bem cuidados pela proprietária e sua filha Regina eram ocupados pelo Paulinho e Danival (do Vila Nova); Barbirotto (goleiro do Goiás) e eu (goleiro do Goiânia); Tulica (do Atlético) e Lourenço (também do Goiânia).
As disputas acirradas entre nós, só acontecia nos gramados. Na pensão a rivalidade ficava para escanteio. Amigos para sempre, até o apito inicial de um novo jogo. Aí o couro comia!
Ás sextas-feiras, após o treino apronto das equipes, era muito comum a rapaziada dividir a cerveja e a picanha da grelha, antes de seguir para a concentração.
Barbirotto era o mais comportado. Não bebia, não fumava e criticava o excesso dos companheiros. Cuidava ele mesmo do seu uniforme de jogo, e importava luvas de qualidade, já que as luvas da marca “drible” funcionavam apenas como quebra galho nos dias de chuva.
O mesmo cuidado transferia para o seu Fiat 147 amarelo, todo empombado, tala larga, som estéreo, buzina Som das Discotecas e placa de São Paulo - escolhida a dedo pelo velho pai Barbirotto.
Aos sábados, o Fiat deixava o Box e era praticamente depenado pelo goleiro. Barbirotto levantava o seu possante com o macaco e tirava as quatro rodas para engraxar. Depois lavava, encerava, polia e secava. Só não torcia.
Para passar incógnito pelos paparazzis de plantão, uma noite trocou o seu carro com o meu Chevette, conhecido e desprovido de acessórios.
Quando descobriu que eu tinha a mania de reduzir as marchas dos carros da quarta para a terceira sem embreagem, arrependeu-se da troca e jurou nunca mais fazê-lo.
Conhecido pelo apelido de Tom Cruise, Barbirotto contribuiu muito com o aumento da freqüência feminina no Serra Dourada nos dias de jogos do periquito goiano.
Apesar dos 1,80 m de altura, usava chuteira de travas altas em todos os jogos – mesmo nas tardes de sol – e ficava na ponta dos pés, para aumentar a sua envergadura e sair melhor nas fotos do time.
O campeonato goiano estava chegando à reta final. O meu time fazia uma boa campanha, mas tudo indicava que a decisão seria entre Goiás e Vila Nova.
Eu enfrentaria o Vila naquele fim de semana e resolvi aprontar com a torcida alvirrubra.
As cores do Goiânia são preto e branco. Pedi ao Barbirotto que me emprestasse um calção e meias verdes do seu time.
Domingo, além da indumentária emprestada pelo colega, vesti uma camisa verde escura com o G do Goiânia, não por acaso igual ao do Goiás, e adentrei o gramado do Serra Dourada trajando literalmente o uniforme do rival, arquiinimigo do Vila.
Fui ovacionado, é lógico, com os tradicionais coros que a torcida faz em homenagem ao juiz. Com ênfase para a mãe do mesmo.
Um pênalti inexistente, ainda no primeiro tempo, desestruturou o meu time e me custou o segundo amarelinho da carreira.
Perdemos de 2 a 0. Roubados, é claro!
 

3 comentários:

Roberto Vieira disse...

Lembrei da minha velha fiorino branca, apelidada na faculdade de ... carro do pão! E o Belfort Duarte?

Anônimo disse...

O Belfort está no forno, Roberto.
A produção do autor é lenta, muito lenta.

Antonio Estevan disse...

Valdir,

O Babá ex-atacante do Flamengo, mora em Caucaia, cidade colada a Fortaleza, e um sobrinho dele é meu conhecido e bom de bola.

Pbns.

Antº Estevam