sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Modelo vascaíno
As brincadeiras de rua, caçar passarinho, pescar, jogar bola e clica, supriam a cota diária de divertimento. O cinema era um prêmio por bom comportamento nas tardes de domingo, e a escola era apenas a busca de um canudo, que seria emoldurado, sem relação com o emprego que eu conseguiria aos 14 anos em uma fábrica de tecidos da cidade.Duas livrarias brusquenses expunham os últimos lançamentos, e os livros eram namorados e desejados; as pequenas mesadas eram guardadas até somar o suficiente para comprar algum titulo.
Meu vizinho Renê tinha uma maravilhosa biblioteca, ele me permitia o manuseio e a viagem através dos clássicos de Maupassant, Tolstoi e Dumas, e também bisbilhotar atrevidamente as páginas proibidas de Lady Chaterley, confortavelmente sentado na poltrona de sua sala. Fiz duas coleções: Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, e Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, compradas com o suado dinheiro ganho pela entrega dos tomates da plantação da minha vó, Joanna.
Entre mistérios e suspense inesgotáveis, estive em muitos lugares na Europa, ajudando a desvendar complicados crimes que a simpática Miss Marple e do bigodudo Poirot, de Agatha Christie, e Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro, doutor Watson, de Conan Doyle, eram chamados a resolver.
As inesgotáveis pistas me levavam de um suspeito ao outro, mas era somente no último capítulo que o criminoso era conhecido e capturado. O mordomo era sempre o principal suspeito, mas nem sempre o culpado.
O fog, o pocotó-pocotó dos cavalos nos paralelepípedo das ruas londrinas, com seus postes iluminados a gás, os castelos, as ravinas, os pubs, os cachimbos, os chapéus e os longos vestidos que cobriam do olhar qualquer desejo masculino, contribuíam em muito para povoar o livro de infindáveis desafios.
Era duro competir com as deduções do mister Holmes. Ele lia as mãos das donzelas em apuros, o sapato sujo por alguma lama tibetana, e tudo se tornava bastante elementar pra ele.
Mas, foi o Assassinato no Expresso Oriente que me fascinou muito mais do que aquele O Cão dos Baskerville ou O Segredo dos Quatro do que os outros romances. Porque tudo acontecia num trem.
E o trem sempre foi (para mim) o desejo não realizado.
Não aquele trem da Central do Brasil, onde tem mais surfista do que passageiro. Não aquele trem do metrô, que tem vista para paredes e cartazes, nas estações. Um trem que rasgasse o Brasil de ponta a ponta, apitando quando chegasse e saísse da estação, com foguista, maquinista, manobrista e todos os istas aos quais teríamos direito.
Nunca vou poder dormir no andar de cima do meu vagão; brechar os corredores na expectativa de flagrar um casal misterioso; bater apressado na porta do banheiro do trem em movimento; olhar para fora e ver algo misterioso acontecer no trem que cruza com o meu na estação.
Meu único e autêntico trem era o que passava praticamente dentro do Hotel Paineiras, onde eu me concentrava com o Vasco da Gama. Era uma das estações que o conduziam ao Corcovado.
E tinha cheiro de desodorante que as lindas modelos que eram transportadas pelo trem exalavam ao puxarem mais um passageiro para dentro do vagão porque “sempre cabe mais um quando se usa Rexona”.As meninas convenceram o diretor Tony Trapattoni, da agência encarregada da produção do clipe do desodorante, de que eu seria um ótimo modelo, e fui convidado para fazer testes em sua agência, em São Paulo. Aproveitei um jogo na capital paulista para manter contato.
Coloquei o goleiro Pedro Paulo como meu empresário, para saber do cineasta os requisitos básicos da profissão. Foi informado que eu teria que fazer testes de fotogenia, provavelmente um book; enfim, ser avaliado.
Depois do papo com o cineasta, o preconceituoso de carteirinha, Pedro Paulo, decidiu pelo fim da minha carreira, sem que ela sequer tivesse começado, sentenciando:
“Valdir, isto é coisa de viado!”.
Então tá, então...
(Publicado no livro Na Boca do Gol)

3 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
É Chiquinho...você tem muita história para contar. Excelente este texto que já havia lido alguma coisa em seu livro. Realmente essas histórias em seu blog nos faz reviver coisas lindas do passado, e ninguém constroi um futuro melhor sem conhecer o passado.
Parabéns
Adalberto Day de Blumenau

Roberto Vieira disse...

Esse negócio de 'book' ia ser difícil de explicar no campo... tipo, a cabeleira de Raul. Valeu tua volta! Pare de escrever, não!

Ricardo disse...

Valdir, se era pra ter uma atividade além do futebol, que fosse a de escritor (afinal você já curtia o mundo dos livros, né?!). Esse negócio de modelo... sei não. :-) Em tempo, feliz 2009!