quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Cádiz
Por Valdir Appel 

O avião que transportava a delegação vascaína desceu em Madri. Na lanchonete do aeroporto os jogadores são surpreendidos pelo ponta-esquerda Moraes que pede a garçonete em “perfeito portunhol”: -Por favorzito, dê-me una “cueca-cueja!”
Imediatamente virou intérprete da rapaziada.
De Sevilha os cruzmaltinos seguiram para Cádiz em ônibus especial para disputar o torneio Ramon Carranza que reúne costumeiramente duas equipes espanholas e duas sul-americanas.
Sexta-feira, para entrar no “fuso” o time foi treinar à noite e fazer o reconhecimento do gramado do estádio. Foi mais um recreativo descontraído do que propriamente um ensaio técnico.
Às 22 horas com o sol ainda se pondo em Cádiz, o pessoal zanzava pelo hotel, sem sono, afinal, ainda eram 18 horas na cabeça da rapaziada. O técnico Gentil Cardoso, velha raposa, confiando nos seus comandados, verificou às 22:30 horas que todos já haviam levado suas chaves da portaria do hotel e concluiu que os jogadores haviam se recolhido aos seus apartamentos. Na verdade, todos saíram com suas chaves no bolso a pé pelas ruas da histórica cidade em busca dos seus tradicionais bares. E de bar em bar, grupos revezavam em volta das máquinas eletrônicas de jogos, novidade para a maioria na época, disputando rodadas de cerveja com azeitonas sem caroço. Quem perdia pagava.
A conseqüência veio no dia seguinte. Jogo contra o Real Madrid de Gento, maior estrela do time espanhol e lendário ponta-esquerda, já com seus 40 anos, em fim de carreira.
No vestiário, Ari que marcaria Gento, fazia seu aquecimento bastante otimista.
-Hoje é mole, vou dar um nó no “velhão”!
Ari foi substituído ainda no primeiro tempo, depois de levar um baile e três gols pelo seu setor. Gento também cedeu lugar ao jovem Amâncio que deu show na segunda etapa, enquanto um gol solitário e de bela feitura do ponteiro Nado foi a única nota digna de registro da derrota histórica vascaína por 6x1.
No domingo em disputa do terceiro lugar, nova derrota, agora para o Penharol de Figueiroa, Abadi e Spencer por 3x1 com três gols de Pedro Rocha.
O Valência foi o campeão derrotando o Real. A taça recebida pelo 4º lugar, foi apelidada pelos jogadores de Troféu Chacrinha. À noite no hotel alguém escondeu o troféu e provocou sérios transtornos. Até a polícia foi chamada e a busca terminou dentro do saco de chuteiras dos jogadores irritando profundamente o massagista Marinho, responsável pela bagagem, que nada tinha a ver com o caso. Alheios a confusão, Gentil, o goleiro Franz e o Dr. Marcozzi conversavam na porta do hotel e foram atingidos por um balde de água fria jogado em suas cabeças. Franz ainda argumentou que a água provavelmente era proveniente de algum toldo recolhido de uma sacada. Não convenceu muito, porque não chovia há meses em Cádiz. Na verdade todos sabiam que as sacanagens eram obras do Ananias e do Brito, mas ninguém entregava por cumplicidade.
Publicado no livro Na Boca do Gol.

3 comentários:

Antonio disse...

Valdir,

Pelo que vc fala nos seus textos, e pelo o que meu irmão mais velho fala tbm, o Nado não teve o merecido reconhecimento como GRANDE ponta direita que foi.

Será que por ser originário de um time nordestino, embora hexacampeão, e com outros craques que fizeram nome, influenciou nessa falta do merecido reconhecimento?

Num dos meus primeiros times de botão o ponta era o Nado.

Abração.

Antº Estevam

Continuo afirmando: Nado foi um dos melhores pontas de todos os tempos,
Valdir

Adalberto Day disse...

Valdir
Então o Gentil Cardozo alheio a tudo e ao mesmo tempo atento em observações. Essa história já havia lido em seu livro na Boca do Gol, que tenho utilizado em minhas pesquisas.Então o Ari queria marcar o Gento – nojento ele, querer marcar uma lenda d futebol e ainda tirar sarro. Lá pelos idos anos de 1967 eu ouvi este jogo pela Globo e Tupi, foi um vexame os 6x1, mas é bom lembrar que o Vasco depois foi convidado mais vezes a disputar o Ramon Carranza e foi tri-campeão em 1987/88/89 O Brito e o Ananias deveriam ser uns grandes gozadores......bons tempos.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história. Em Blumenau
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Anônimo disse...

Trofeu Chacrinha, muito bom, tú deve sentir muitas sauaddes né Valdir, um abraço, Genildo Oliveira /Mossoró Rn