sexta-feira, 20 de junho de 2014

Futebol, estádios e ditadura

Estádio Municipal de Brasília, O Pelezão
Por Valdir Appel

Minha baixa na Polícia do Exército coincidiu com o término do período de testes que eu realizei no Vasco da Gama. Além de aprovar a minha contratação o técnico Zezé Moreira também me integrou ao elenco que viajou para Brasília e Belo Horizonte, onde o Vasco realizou dois amistosos. Respectivamente contra Flamengo do Rio e o Atlético mineiro.
Desta forma, saí da caserna num dia e embarquei no outro rumo a capital federal como reserva do goleiro Amauri.
Cabeça praticamente raspada, apenas um tufo louro no cocuruto, uma mala, paletó e gravata emprestadas, eu destoava do restante dos jogadores impecáveis nos seus ternos pretos. Os Mibs de então.
Vascaínos e rubro-negros viajaram no mesmo avião para inaugurar o Estádio Municipal de Brasília, popularmente conhecido como Pelezão.
O clássico carioca jogado em outras cidades desepertava um enorme interesse dos torcedores. A exemplo do que acontecia costumeiramente no Maracanã, o espaço nas arquibancadas era literalmente dividido ao meio
Foi um jogo emocionante onde o nosso centroavante Célio fez a diferença, marcando dois gols, garantindo a vitória de 2 a 1 sobre o arquirrival. Almir descontou para o Flamengo.
Zezé Moreira entusiamado com a apresentação do time mandou o tesoureiro pagar o meu bicho integral. Mesmo porque eu fui o único dos reservas a não ser utilizado.
O prêmio representava muito mais do que o salário que eu ganhava até então.

(Imagem do site: http://mavalem.sites.uol.com.br/df/Brasilia1.htm)

Vasco da Gama 2 x 1 Flamengo
Data: 31/03/1966. Amistoso Estadual. Local: Estádio Municipal de Brasília. Árbitro: Idélcio Gomes de Almeida. Gols: Célio 35/1ºT, Almir 1/2ºT, Célio 9/2ºT. Vasco da Gama: Amauri, Joel (Gama), Brito (Caxias), Ananias, Hipolíto, Maranhão, Danilo Menezes, William, Célio, Picolé (Zezinho) e Tião (Ronildo) / Técnico: Zezé Moreira
Flamengo:Valdomiro (Marco Aurélio), Murilo, Paulo Lumumba, Itamar, Paulo Henrique, Jarbas (Evaristo), Juarez, Paulo Alves, Almir (Fio), César e Rodrigues / Técnico: Armando Renganeschi


Estádio Municipal Lomanto Junior de Vitória da Conquista

A inauguração de estádios de futebol, tornou-se rotina em todo o país. Não tenho idéia de quantos foram inaugurados somente em 1966. Eu ainda participei de mais dois eventos naquele ano.
O incentivo dado pelo governo para a construção de novos e modernos estádios de norte a sul do Brasil, alguns, sem exagero, com capacidade maior do que a população da cidade, desviava o foco das atrocidades da ditadura. O futebol era o veículo ideal para isso.
Nós jogadores éramos totalmente alienados. Não havia ninguém politizado.
Eu pessoalmente só percebi que havia algo errado no reino quando uma música do Chico Buarque, Apesar de você, foi censurada.
Ouvi-la baixinho e contar para os amigos que eu tinha um disco não apreendido, era o máximo da minha rebeldia. Silenciosa.
Em Vitória da Conquista, na inauguração do Estádio Municipal, o duelo carioca se repetiria com inversão do placar, marcando Silva e Juarez para o Fla e Célio para o Vasco. Aqui a inversão também aconteceu no gol, eu joguei o primeiro tempo e Amauri o segundo. O jogo foi realizado com os portões abertos ao público.

C.R. Flamengo 2 x 1 Vasco da Gama (RJ). 06/11/1966 - Estádio Lomanto Júnior - Vitória da Conquista - BA. Flamengo: Franz(Valdomiro), Leon, Luís Carlos, Itamar, Paulo Henrique, Valter, Juarez, Gildo(Mendoza), Almir(Cesar Lemos), Silva(Fio) e Dirceu.
Vasco da Gama: Valdir (Amauri), Ari, Sérgio, Ananias e Oldair (Silas); Salomão e Danilo Menezes (Alcir), William, Célio, Luiz César (Paulo Mata) e Zezinho (Moraes).


Estádio Municipal Alberto Oliveira de Feira de Santana BA

Jóia da Princesa, o maior estádio de futebol do interior baiano, reinaugurado sete dias após o jogo em Vitória da Conquista, no dia 13 de novembro de 1966. O Vasco derrotou o Fluminense de Feira BA por 1 a 0, gol contra do zagueiro Val no finalzinho da partida. Entrei no segundo tempo, como mostra a foto do jornal local. Detalhes que chamam a atenção: o técnico do Fluminense era o folclórico Gentil Cardoso que seria meu técnico no Vasco em 1967; os jogadores Onça e Paulo Choco jogariam posteriormente no Flamengo do Rio.

Fluminense BA 0 x 1 Vasco
13 nov 1966. Vasco: Édson Borracha (Valdir), Ari, Hélio, Fontana e Silas; Salomão (Maranhão) e Danilo Menezes; Nado, Paulo Mata, Célio e Zezinho. Tec: Eli do Amparo. Fluminense: Mundinho, Djalma, Onça, Tadeu (Val), e Chinês, Jarbas e Paulo Choco; Neves, Renato (Nena), Almeida e Geraldo. Tec: Gentil Cardoso. Gol: Val (contra) aos 44' do 2º t (colaborou Mauro Prais: www.netvasco.com.br/mauroprais)

 
Estádio Governador Prates da Silveira

Em 10 de março de 1974 joguei pelo Ceub contra o Corinthias na inauguração do Estádio Municipal de Brasília, atualmente Estádio Mané Garrincha. O jogo foi realizado de portões abertos ao público por iniciativa do Governo do Distrito Federal.
Vitória mosqueteira por 2 a 1.
Uma cabeçada certeira do ponta-direita Vaguinho nos minutos finais decretou a nossa derrota, quando o empate seria o resultado mais justo.

Ceub: Valdir; Odair, Pedro Pradera, Cláudio Oliveira e Rildo; Alencar, Péricles (René) e Xisté; Dílson (Cardosinho), Juracy e Dario.
Corinthias: Armando; Zé Roberto, Pescuma, Wagner e Wladimir; Tião, Adãozinho e Washington; Vaguinho, Roberto e Marco Antonio.
Juiz: Luiz Carlos Félix. Bandeiras: Cassirio Marinho e Carlos Vieira do Amaral.
Gols de Vaguinho (2) para o Corinthias e Juracy para o Ceub.


Estádio Raulino de Oliveira

No dia 14 de março de 1976, eu era o goleiro do Voltaço na vitória de 3x2 contra o Botafogo. Jogo de estréia no campeonato carioca.O estádio Raulino de Oliveira era reinaugurado com melhorias e ampliação de sua capacidade de público.

Volta Redonda 3 x 2 Botafogo - 14 de março de 1976 – Estádio Municipal General Silvino Raulino de Oliveira – Público 19.041
Volta Redonda: Valdir;Aloísio, Fernando, Fred e Zé Maria; Paulão, Mauro e Ademir; Jorge Cuíca, Acilino (Adelmo) e Paulo César (Serginho). Técnico Paulinho de Almeida.
Botafogo: Wendel; Chiquinho, Geraldo, China e Marinho Chagas; Arthur, Ademir e Manfrini (Ricardo); Cremilson (Rogério); Antonio Carlos e Tiquinho. Técnico Telê Santana.
Gols: Mauro 3 para o Voltaço; Antonio Carlos e Ricardo para o Botafogo
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Estádio da Cidadania do Voltaço

Curiosamente eu seria o primeiro goleiro a pisar o Estádio da Cidadania, novo e lindíssimo estádio do Volta Redonda inaugurado no dia 17 de abril de 2004, com a partida Amigos do Voltaço 1 x 2 Botafogo.
Estava à frente dos veteranos que fizeram a preliminar deste jogo contra o máster do Flamengo de Junior e Cia.Vitória dos veteranos do Voltaço por 3 a 1.
Segundo Junior, o Flamengo foi roubado. Detalhe: não demos a mínima importância ao protesto do maestro rubro-negro.

6 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Um ano do Blog na boca do Gol – já estamos nos acostumando aos seus belos relatos e inesquecíveis, parabéns Valdir.
Então faturasse o bicho integral sem jogar? E em cima do Flamengo com Gols do extraordinário e inesquecível do Célio.
Parabéns pela bela postagem e as fotos dos estádios.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da História em Blumenau

Victor Kingma disse...

Amigo Valdir,
Parabéns pela matéria e por nos contar tantas histórias de tempos saudosos do nosso velho, e bom, esporte bretão, como dizia os antigos locutores, Aliás, como estudioso do futebol, me lembro de grandes partidas suas, atuando pelo Vasco ou Voltaço, contra o meu Mengo.

Abração.

Victor Kingma é escritor e estudioso do futebol

Mauro disse...

valdir, parabens pelo aniversario do seu excelente Blog. Um ano brindando a nos, seus fieis leitores, com grandes historias e personagens interessantissimos. Que continue sempre assim.

Um abraco,

Mauro

Lenivaldo disse...

Amigo,

Meus parabéns. Seu blog tornou-se para mim, e acredito para muitos, uma leitura obrigatória. Quem gosta de futebol aprende com você, que conta os fatos com a autoridade de quem os viveu ou testemunhou. Bola pra frente, meu caro Valdir.
Um abraço
Lenivaldo

Mauricio disse...

Valdir, sensacional o post. Grandes histórias e grandes fotos...

Abraços!
Mauricio/Lages

Roberto Vieira disse...

Um relato estupendo... de um tempo em que o concreto justificava o silêncio. Parabéns, Valdir. Digno de qualquer antologia sobre o futebol!