domingo, 23 de março de 2014

Vai dar zebra

Nenhum personagem do futebol brasileiro é tão rico quanto o lendário Gentil Cardoso. Fez de tudo antes de ser técnico de futebol. Foi engraxate, padeiro, marinheiro e capitão reformado da Aeronáutica. Trabalhou em todos os grandes clubes cariocas, no Corinthians e na Ponte Preta em São Paulo e em alguns times do exterior. Suas frases engraçadas e inteligentes marcaram mais a sua carreira do que as conquistas como campeão carioca pelo Vasco da Gama e Fluminense.
É dele a expressão “vai dar zebra” (vitória de time pequeno contra o grande); “Cobra” para definir um grande jogador; a frase: “só me chamam para enterro, ninguém me convida pra comer bolo de noiva” (sempre chamado para dirigir time pequeno e esquecido pelos grandes).
Sua maior frustração foi não ter dirigido a seleção brasileira. Dizia que não era chamado por ser negro.
Em sua última passagem pelo Vasco da Gama protagonizou alguns episódios bem humorados.
Os treinos coletivos jamais eram vencidos pelos reservas. O próprio Gentil apitava para garantir a vitória dos titulares. Certa vez, Adilson questionou a marcação de um pênalti contra o seu time de aspirantes e recebeu como resposta:
-Bola na bunda de time pequeno é pênalti, meu filho!
Chamava atenção por utilizar sempre um megafone para dar as ordens, mesmo que o interlocutor estivesse a poucos metros de distância. Nos treinamentos físicos quando os atletas faziam a curva da pista de atletismo oposta à do treinador, relaxavam e praticamente andavam ao invés de correr. Gentil empunhava o megafone e falava alto e bom som:
-Brito! Eu to te olhando, levanta o joelho! Provocando risos da rapaziada que sabia que o velho lobo do mar já não enxergava muito bem.
O elenco vascaíno fazia bem o estilo jovem-guarda com suas calças boca-sino, cintos largos, botinhas, camisas de seda e adereços, e motivava Gentil a comandar seus treinos fazendo o grupo cantar músicas de Roberto e Erasmo Carlos. A canção preferida era “E que tudo mais vá para o inferno”.
O “coro” estava tão afinado que o Gentil várias vezes insistiu para que a turma fosse se apresentar no programa do Chacrinha, vascaíno fanático.
O bom senso prevaleceu. Ninguém estava disposto a ser acertado por pedaços de bacalhau, atirados pelo “Velho Guerreiro”, numa noite de domingo.
Em outra ocasião, Gentil reuniu o elenco no centro do gramado, relacionou os convocados para a concentração, fez alguns comunicados e escalou os times para o coletivo.
Em seguida determinou:
-Os meus craques, venham comigo!
Ao chegar a lateral do campo, Gentil voltou-se para o Paula Mata e disse:
-Paulo Mata, eu falei, os meus craques!

(Time do Vasco que enfrentou o Olaria em 1967, na Rua Bariri: Valdir, Sérgio, Brito, Lourival, Oldair e Paulo Dias; Zezinho, Erandy, Nei, Danilo Menezes e Acilino)

Pouco antes de morrer, Gentil escreveu sua última página de humor. Virou-se para o médico do Hospital Central da Aeronáutica e disse:
-Doutor, entrei na vertical e espero não sair na horizontal, técnico de futebol não trabalha nesta posição.
(Aos 73 anos de idade no dia 8 de Setembro de 1970).

Este vídeo mostra uma virada histórica do Vasco sobre o Flamengo, e dois depoimentos: um do centroavante vascaíno Nei e outro do folclórico treinador Gentil Cardoso ao famoso reporter José Dias, no vestiário do Maracanã.



14 comentários:

Roberto Vieira disse...

A zebra nasceu justo em cima do... Vasco, Valdir! Gentil era grande e canceriano. Mês que vem faria aniversário.

Anônimo disse...

Caraca, que legal ver videos assim Valdir, nem vivi esse tempo mas dá uma saudade...Genildo Oliveira/Mossoró RN

Adalberto Day disse...

Valdir
Gentil Cardoso....sensacional. Olha esse teu blog está arrebentando. Esse conto do Gentil, cantando a música do Roberto Carlos, “mandando tudo pro inferno”, legal.
E esse elenco do Vasco, sensacional. A sinceridade do Nei, esse que foi um dos grandes jogadores do Vasco, Corinthians e Flamengo. Lembro que quando Nei jogava do Corinthians, apareceu uma reportagem na revista placar dizendo assim : Nei e Silva caíram do céu para o parque São Jorge.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

Airton Leitão disse...

Uma história triste de Gentil para os vascaínos:
Consta que um dia, em 1952, apareceu um jogador de pernas totalmente tortas para um teste em São Januário e que Gentil Cardoso simplesmente não ou deixou entrar em campo, afirmando: "Futebol é coisa séria".
No ano seguinte, com Gentil no Botafogo, o jogador Arati trouxe o tal jogador de pernas tortas e pediu para o mesmo treinar. Depois de um drible desconcertante em Nilton Santos, surgiu simplesmente Garrincha.
Como vascaíno, só posso lamentar...

Mauro disse...

Valdir, essa sua cronica consegue captar a essencia da personalidade rica e complexa do Gentil Cardoso. E' uma das melhores dentre tantas otimas cronicas que voce ja' produziu.

No video do bau' do esporte da Globo, a grande virada foi reduzida para 2x2... A Globo sempre de ma' vontade com o Vasco. Me lembro que nessa Taca GB o Vasco tambem virou para cima do Botafogo (3x2) e do Fluminense (2x1), mas foi perder tambem de virada para o Bangu (2x1).

Para nao perder a oportunidade de ser chato mais uma vez, vou anotar uma pequena correcao na legenda da foto do time. O local e' a Rua Bariri. Rua Javari e' do Juventus de SP, na Mooca.

Valeu, um abraco,

Mauro

Mauro disse...

E para ser chato em dose dupla, tenho mais uma pequena correcao na identificacao dos jogadores na foto. Lourival, em vez de Norival.

Mauro

Valdir Appel disse...

Airton
Essa do Garrincha no Vasco eu conheço de forma um pouco diferente. Qualquer dia eu conto.Abraço

Valdir Appel disse...

Mauro,
O jogo da foto foi na Bariri e deu ....zebra. Penultimo jogo nosso sob comando do Gentil. Em seguida veio o Campusca e aí você já sabe o que aconteceu.
Sem duvida é o Lourival.
E as outras viradas vou postar semana que vem.
Continue sendo chato. Assim eu erro menos.
Grande abraço

Osvaldo disse...

Caro amigo Valdir;

Gentil Cardoso fará para sempre parte integrante do folclore do futebol brasileiro.

Conheci-o pessoalmente porque morava na Rua Tangará em Bonsucesso e encontrava-o várias vezes assim como à sua esposa.

A virada que mais me emocionou, foi sem dúvida contra o Botafogo qundo o Vasco perdia por 2 e venceu por 3 X 2 com o terceiro gol marcado por Fontana se não estou em erro e eu estava lá no Maracanã.

Um abraço, amigo Valdir.
Osvaldo

mauro.prais disse...

Eu tambem estava la', Osvaldo, de fato o terceiro gol foi do Fontana de cabeca, foi uma das maiores emocoes que marcaram a minha infancia.

Valdir, dificilmente um tecnico de clube grande resiste no cargo apos duas derrotas seguidas para clubes pequenos. Como uma curiosidade adicional, na derrota por 2x1 para o Campusca em pleno Maracana, que resultou na demissao do Gentil, nao sei se voce se lembra, apesar de estar em campo, mas o gol fatal, quando estava 1x1, foi do Dario. Foi um dos primeiros gols do Dada' como profissional, ninguem o conhecia ainda. O Brito baixava a porrada nele sem do', mas nao adiantou.

Valdir Appel disse...

Valeu Osvaldo. Sempre com seu precioso comentario.

VAldir Appel disse...

Mauro,
Só tem um detalhe fundamental na derrota para o Campusca que causou a queda do Gentil e posse do Ademir Queixada no comando.
Dadá fez o gol com a mão e tenho a foto/prova do crime comigo.
E não foi só o Gentil que caiu, eu e mais alguns. Lembra?

Ricardo Antônio disse...

Caro Valdir, ultimamente tenho navegado menos por conta de um curso que resolvi fazer, mas não deixo de passar aqui! Já te falei que sei pouco sobre o Vasco do anos 60 (nasci em 1968) e tenho pouco material sobre esse período (difícil) da história cruzmaltina. Ainda bem que seu blog nos abastece! Grande abraço, Ricardo Antônio.

Silveira disse...

Amigo Valdir, ouvi uma vez certa estória de um técnico que foi surpreendido, na madrugada na concentração, pelos dirigentes. Ocorre que, houve uma época que não era permitido o jogo de cartas a valer dinheiro, entre os jogadores, nas concentrações. Ao perceber que os dirigentes entravam no recinto, de surpresa, madrugada a dentro, o técnico que estava sentado à mesa jogando cartas com os três participantes, atletas, levantou-se repentinamente já empunhando as cartas das mesas,e, ato contínuo, rasgou-as, bradando em alto e bom som: "Eu não disse que não quero jogo de cartas à valer dinheiro aqui na concentração !!". Este episódio, caro Valdir, se refere ao técnico Gentil Cardoso, pergunto.