quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Zico
O marcador implacável
As três partidas que o Volta Redonda realizou contra o Flamengo pelo campeonato carioca tiveram um duelo aparte, envolvendo nosso cabeça de área Paulão e o Galinho de Quintino, no auge de sua forma física e técnica. Paulão não media esforços para cumprir as determinações táticas do técnico Paulinho de Almeida. Marcador implacável, usava a força se fosse preciso.
O jogo do dia 1º de maio foi uma festa para a Cidade do Aço, e o empate (1 a 1) fez justiça no marcador. Paulão, além da exigência do Paulinho de não permitir que Zico andasse em campo, levava um pedido dos companheiros:
“Paulão, cola nele! Não deixa ele passar!”.
Na primeira que Zico deixou o nosso marcador pra trás, ele gritou:
“Segura, homem! Aqui ele já passou!”.
Depois de ir ao chão por várias vezes, Zico quase apelou com o carrapato que não desgrudava:
“Pô, cara! Vê se larga do meu pé!”.
“Zico, se você ficar deitado aí e sair de campo, eu não vou mais precisar bater”.

No Maracanã

No Maracanã, o jogo do segundo turno contra o Flamengo foi bastante disputado. Foi uma partida muito truncada, com o Voltaço retrancado e exercendo boa marcação sobre Zico.
Paulão se desdobrava para segurar o Galinho. Na única falha de marcação do primeiro tempo, num lance iniciado pela nossa lateral direita, o cruzamento encontrou a cabeça de Zico que deu um peixinho, antecipando-se à zaga e enfiando a pelota no canto superior direito da minha baliza. Voei! Em vão.
Este foi o único gol que sofri do Galinho, e sempre que o encontro brinco com ele, dizendo;
“Eu sou o único goleiro em que você fez um gol de cabeça. Também, com este tamanho...”.

A falta
No terceiro turno foi fácil para o Mengão.
O nervosismo tomava conta do estreante Paulo Florêncio. Encarar o Maracanã pela primeira vez fazia qualquer jovem tremer, e logo contra o Flamengo. Os primeiros 10 minutos do garoto foram de deslumbramento e de apagão. Depois, o equilíbrio se estabeleceu e o atleta entrou literalmente na partida e jogou bem.
Mas, aquela era uma noite rubro-negra e os comandados do Júnior não deram moleza ao desfalcado Volta Redonda. Uma falta na entrada da área colocou lado a lado na barreira Paulão e Florêncio. Enquanto o goleiro Miguel ajeitava os homens que protegeriam o seu canto esquerdo, Paulão perguntou ao colega:
“Conhece o batedor aí?”.
“De nome, Paulão! De nome!”.
O chute saiu preciso e colocado, por cima da barreira.
Paulão acompanhou a trajetória da bola com o rabo de olho:
“Florêncio, é caixa!”.
Nem preciso dizer que o batedor foi o Galinho.
(Jogos do Volta Redonda contra o Flamengo, em 1976)

Bonsucesso
Nas faltas, eu aprendera que a barreira era a referência para Zico acertar todas no alvo. Sem a barreira, Zico deixava a cobrança para quem batia forte.
Jogando pelo Bonsucesso, fui estimulado pelo treinador Velha:
“Você está autorizado a tirar a barreira, inverter o posicionamento, abrí-la no meio. Invente porque, posicionando a barreira de forma tradicional, ele guarda todas. Se levar o gol, eu assumo a responsabilidade”.
No meu primeiro confronto contra o Galinho, eu até que inovei. Logo no início da partida, inverti o posicionamento da barreira, tentando atrapalhar a cobrança. Sorte que a bola se chocou contra o travessão, lá pertinho da coruja do angulo superior direito. Eu preferia os chutes fortes e frontais, a me expor às cobranças perfeitas por cima da barreira efetuadas pelo camisa 10.
O jogo terminou 1 a 0. No dia seguinte, assisti ao vídeo tape da partida com a família. Nos minutos finais, o comentarista havia decidido que eu levaria o moto-rádio, prêmio para o melhor jogador em campo, quando aconteceu uma falta bem próxima da área, e novamente mandei abrir a barreira.
O lateral Toninho tomou distância para bater e o comentarista avisou ao repórter de campo:
“Se o Valdir levar o gol, dá o prêmio pro Zico. Este goleiro tá maluco? Onde já se viu abrir a barreira desta distância?”.
A bomba saiu e eu espalmei a bola por cima do travessão. Zico estendeu a mão e me cumprimentou, e o comentarista decretou:
“Pode entregar o prêmio pro Valdir...”.
(Bonsucesso, 1975)

Foto 1 - Zico, Paulão e Fred (JS)
Foto 2- Gol de Zico de cabeça (JS)

10 comentários:

Osvaldo disse...

Valdir;

Zico foi provávelmente o único atleta do Flamengo que os torcedores vascaínos repeitavam, pela sua honestidade e grande humanidade e porque sempre respeitou o Vasco...

Mas dos três irmãos, Antunes, Edu e Zico, sempre achei que o melhor técnicamente foi o Edu, que garantiu só muitas vitórias do América.

Um abraço, amigo Valdir.
Osvaldo

Valdir Appel disse...

Obrigado Osvaldo,
Eu costumava dizer ao pai dos garotos que a diferença do Edu para o Zico era o time. Dois cracaços.
Segunda o livro estará decolando para Geneve.
Abração

Adalberto Day disse...

Valdir
Você realmente foi um cara de sorte. Jpgar ao lado de grandes craques, e ser comprimentado pelo Zico pela bela defesa. Falar de Zico, eu como Vascaíno, é respeito puro, além de grande atleta, foi um jogador como poucos do Flamengo que souberam sempre valorizar e respeitar o Vasco. Parabéns Valdir pela bela postagem ,
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau.

Marcus disse...

Caro, Valdir, você não teria boas fotos do time do CEUB?

Sou botonista de Brasília e estou pesquisando boas imagens da equipe para a montagem de times.

Agradeço muito a sua atenção.

Em tempo, gostei do site. Vou me tornar leitor habitual.

Valdir Appel disse...

Marcus,
Envie e-mail para appelval@terra.com.br e vou ver o que posso fazer para ajudar. Tenho um grande amigo botonista em MG, Luiz Otavio, que irá te surpreender com o CEUB.
Abraço

Roberto Vieira disse...

Mas o América de Edu era um timaço... Vi os dois e fico com o Zico. Com todo respeito...

Jairo Tinoco disse...

Valdir, parabens, adorei, abraços, Jairo Tinoco

Mauro disse...

Tive o privilegio de assistir inumeras vezes o Edu e o Zico e concordo com quem acha que o Edu era melhor. E contra o Edu, o Valdir tambem fez bonito: Defendeu um penalti dele em 1969. Grande Valdir! Um abracao,

Mauro

Alexandre Porto disse...

Edu e Zico eram craques, mas de estilos diferentes.

Edu jogava num espaço menor, Zico tinha mais mobilidade. Edu era um bom maestro, Zico era maestro e finalizador. Ainda há a diferença física. OI que sempre me chamou a atenção era sua objetividade. Não tinha toque desnecessário.

Se eu fosse o dono da bola, escolhia o Galinho e torcia para ninguém escolher o mano.

Aliás, como vascaíno não sou suspeito, mas Zico foi o melhor que vi jogar no Brasil até hoje.

Não cito Pelé por ser 'hours concours' e por eu ter visto poucas vezes ao vivo ou mesmo pela TV.Zico eu vi jogando desde as preliminares no Maracanã.

Talvez só perca para Maradona.

Mas jogar naquele elenco do Flamengo facilitava as coisas realmente. Geraldo, Adílio, Junior, Doval, Carpegiani, etc.

Como diz um amigo tricolor, naquele time até Nunes e Lico jogavam.

Alexandre Porto disse...

Convido os amigos vascaínos do blog a visitar e comentar uma crônica minha dos 35 anos do Brasileiro de 1974. Eu tinha apenas 11 anos.

O primeiro carioca campeão brasileiro

http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=2&post=2023