sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um jogo inesquecível
Por Herbert Appel* Quando circulou a notícia, foi um alvoroço. Os teares da tecelagem deram meia trava e os operários se recostaram para prosear. O tema da conversa era a vinda do time do Canto Rio à Brusque para jogar contra o Paysandú.
Eu já tinha ouvido falar no Canto do Rio, era de Niterói. Disputava o Campeonato do Rio de Janeiro e tinha em suas fileiras jogadores pretendidos pelos grandes clubes do Rio e São Paulo.
Eu costumava ler uma revista chamada Esporte Ilustrado, que o Érico Zendron colecionava, e ficava sabendo tudo o que acontecia no futebol da Cidade Maravilhosa. Sem contar os jogos que ouvíamos pelo rádio à válvula do vovô, sempre sintonizado na Rádio Nacional.
Havia muito equilíbrio naquela época entre os times chamados pequenos e os grandes do futebol carioca. São Cristóvão, Madureira, Bangu, Bonsucesso e Canto do Rio eram ossos duros de roer para Vasco, Botafogo, Fluminense, América e Flamengo.
O Canto do Rio iniciou a excursão por gramados catarinenses no fim do ano de 1942. Na estréia, enfiou seis no Avaí da capital e enfrentou uma seleção de Blumenau na véspera do jogo em Brusque. Nossos vizinhos tomaram de sete.
Sete!
Tratei de levar minhas chuteiras para o Pedro Cervi. Lembra do seu Pedro? Grande sapateiro! Para dar um trato e colocar novas travas de couro para o chão duro do campo do Paysandú. E com um lembrete para economizar no tamanho dos pregos.
Cervi, às vezes, por descuido ou de propósito, deixava uns preguinhos ultrapassando o soalho da chanca. As pontas afiadas teimavam em picar os dedos e a sola do pé depois de meia hora de jogo. À noite não havia pano quente que chegasse para tantos furos. O pé ficava igual peneira de ralar coco.
Aquele jogo interestadual jogado num dia de semana à tarde, paralisou o município.
E não fui só eu que me preparei para enfrentar aquela máquina de fazer gols.
Tua mãe e as amigas trataram logo de enrolar os cabelos, plissar suas saias e arejar suas sombrinhas. Os homens vincaram suas calças de linho, engraxaram seus sapatos, esticaram os suspensórios e escovaram os chapéus de feltro.
Uma nova bola de couro cru, vermelhinha que só, mostrando o pito, foi levada para o zelador do campo do Paysandú, o Geroldo Appel, meu primo, que não economizou no sebo de boi, deixando-a untada e protegida.
O sebo aplicado nas costuras impedia, em parte, que a água de um campo encharcado invadisse as ranhuras e se depositassem entre o couro e a bexiga. O que aumentava consideravelmente o seu peso.
E olha que as bolas eram feitas pelo pai do Hélio Olinger, que vendia a maioria dos acessórios que os jogadores usavam. O que era uma garantia de qualidade.
Joelheiras eram outra preocupação minha. Imagina o gol careca das traves do Paysandú?
Nem é bom pensar.
Não bastassem as minhas camisas, folgadas e sem proteção.
Ainda levaria um tempão pra gente conseguir comprar pelo reembolso postal aquelas camisas de goleiro acolchoadas nos braços e no peito.
Eu mandava a carta pro Rio e a Super Ball enviava pelo correio. Este procedimento levava pelo menos uns dois meses, entre o pedido e a entrega.
Teu tio, tu sabes, também foi goleiro, e dos bons. Depois que assumiu o arco do Paysandú, costumava desfilar elegantemente suas camisas encomendadas.
Tinha estilo, o Oswaldo.
O estádio Cônsul Carlos Renaux ficou lotado.
Os fluminenses passearam em campo. Acho que nos golearam muito mais pelo nosso deslumbramento do que pela grandeza do futebol deles.
Tinha jogador do Paysandú que pedia desculpas quando fazia uma falta e agradecia quando era driblado.
Exagero?
Não. Os autógrafos pediram depois, na sede, onde o churrasco e muita cerveja confraternizaram as duas equipes e apaixonados torcedores.
Peguei muitas bolas, mas não consegui evitar o elástico marcador.
Agora, tem uma defesa que ficou pra história.
O placar já estava 4 a 1, quando o centroavante do Canto do Rio desferiu um chute violentíssimo da entrada da área. A bola chocou-se contra o meu peito, sem que eu tivesse a oportunidade de fechar os braços e encaixá-la. O impacto me fez cambalear e a bola voltou com a mesma velocidade para a nossa intermediária.
O aplauso do público continha um momento de estupefação, e eu de paralisia e contida satisfação pela defesa.
Mesmo que no susto.
Os cinco a um marcaram uma tarde de futebol inesquecível para todos nós, jogadores e torcedores alviverdes.
Por muito tempo tivemos o que comentar nas rodinhas da fábrica, entre os teares e os rolos de fio.


Foto 1 - Paysandú e Canto do Rio, em frente à antiga séde do time brusquense, 5 de janeiro de 1943.
Foto 2- Paysandú de 1943
Em pé: Alfredo Rebello, Herbert Appel, Waldemar Appel, João Rosim, Nelson Olinger, Érico Appel, Haroldo Ristow, Anselmo Mayer, Arthur Appel;
Agachados: Max Ristow, Waldemar Klann, Oswaldo Zinck;
Sentados: Alfredo Deichmann, Waldemar Koehler e José Custódio.
*Herbert Appel, meu pai, meu ídolo, meu amigo, faleceu no dia 12 de dez de 2000 aos 79 anos de idade.


Excursão do Canto do Rio a SC 27/12/1942 – Avaí 1 x 6 Canto do Rio (Niterói-RJ) Dom
2/1/1943 – Sel. Blumenau 2 x 7 Canto do Rio (Niterói-RJ) Sab
3/1/1943 – América (Joinville) 2 x 6 Canto do Rio (Niterói-RJ) Dom
(Há controvérsias, alguns dizem que o placar foi América 0x 9 Canto do Rio) 5/1/1943 – Paysandú (Brusque) 1 x 5 Canto do Rio (Niterói-RJ) 3ª
8/1/1943 – Comb. Vale do Itajaí 2 x 6 Canto do Rio (Niterói-RJ) 6ª

12 comentários:

Francisco Daniel disse...

Muito interessante essa história!

Adalberto Day disse...

Valdir
Sobre o Canto do Rio, eu desde criança ouvia falar dessa excursão a Santa Catarina, também passou por aqui e jogou contra o Olímpico, na entrega das faixas de campeão ao time Grená em 1950. O Placar foi de 2x0 para os cariocas. Herbert Appel Agora essa dos anos 40 foi demais, acabaram com o nosso futebol da época, só goleadas. Parabéns por nos apresentar esta bela postagem. E recordar de seu saudoso pai, é algo indiscitivél.
Abraços Adalberto Day Cientista Social e pesquisador da história.

Alexandre Porto disse...

O Canto do Rio, que não é carioca, mas niteroiense (ou fluminense como queiram) está na terceira divisão do estadual hoje.

Jogou na primeira de 41 a 64, mas sempre renegado pelos times cariocas. Chegou a ser campeão do torneio inicio de 53.

Do Cantusca saíram ainda adolescentes Gerson Nunes e Ipojucã.

Roberto Vieira disse...

Vai pro Blog no dia dos pais... Com sua permissão.

Valdir Appel disse...

Alexandre,
Provavelmente eu jamais vou ficar sabendo se é ele ou não. Ao lado do meu pai esta o Eli do Amparo que em 43 foi vendido ao Vasco.

Roberto,
E precisa?
Em Recife conversamos.

Osvaldo disse...

Valdir;

O livro devorei num instantinho, já o emprestei e estou revendo de novo.

Algumas das histórias, Gentil Cardoso, briga do Adilso contra o Flu no Maraca, o gol contra do Valdir e outras eu revivi minha adolescência porque vivi isso.

Quanto ao Canto do Rio, nunca vi jogar porque acabou no no inicio de 60 ou mesmo final de 50, mas fui três vezes ao seu Estádio em Niteroi ver uma vez o Vasco num amistoso que não recordo o adversário, a Académica de Coimbra contra uma seleção do antigo Estado do Rio, e um terceiro jogo que não recordo os participantes.

Gostei imenso da história do Santo Oswaldo, porque era meu xará. Era seu tio, irmão de seu pai ?.

Um abraço, amigo valdir.
Osvaldo

Alexandre Porto disse...

Não consigo reconhecer, mas o Ely, que é de Paracambi, saiu do Cantusca para o Vasco.

Eu tenho esse dado escrito pelas mãos de meu pai, então com 15 anos, em uma foto em 1945, no Caio Martins, quando o Vasco ganhou o Cantusca por 5X0.

Lucidio disse...

Valdir:



Obrigado! Ah, quanta saudade... Se este post tivesse dez anos menos, quem sabe, era capaz de dar a escalação do Canto Rio daquele tempo...



A lembrança do seu pai, faz-me lembrar mais fortemente do meu. Goleiro, filho goleiro; médico, filho médico. A gente não esquece nunca!



Um abração do



Lucídio

Antonio Estevan disse...

Valdir,

No texto tem assim: "Herbert Appel, meu pai, meu ídolo, meu amigo".

Tbm tive muita sorte em ter tido um pais nesses moldes.

Não tenho uma só lembrança negativa do meu pai. NENHUMA!!!!!!!!!

Amanhã é dia de saudade.

A minha saudade é saudosa. A da minha mãe é sofrida.

Prefiro a minha, pois ele está sempre presente nas minhas conversas, principalmente em coisas alegres e engraçadas que vivemos.

Abraçã.

Antº Estevam

Alexandre Porto disse...

Valdir,
será que a sua memória poderia me confirmar que o Cláudio Coutinho foi levado para o Vasco em 1971 pelo Admildo Chirol, sendo então a dupla responsável pelo lançamento do Roberto?

Em 78, em postos invertidos, Roberto tb foi de certa forma lançado por eles na seleção.

Alexandre Porto disse...

http://www.youtube.com/watch?v=UgWC6Nh_cz4

a festa em homenagem ao time de 74

alguém sabe quem falou logo após o Travaglini?

Valdir Appel disse...

Alexandre,
O Coutinho foi para o Vasco no final de 70, se não me falha a memoria, e o Chirol chegou em 71.
Sobre o Travaglini não tenho a minima idéia.