sábado, 28 de abril de 2012

Sepp Mayer

Sepp Mayer

Naquela mesa tá faltando ele
e a saudade dele tá doendo em mim
Composição: Sérgio Bittencourt

Nos períodos da manhã e da tarde realizei treinos no Bonsucesso, acompanhado pelo meu pai - Herbert.
Após o jantar, caminhamos até o Maracanã. Eu morava “na boca do gol”, na São Francisco de Xavier, bem na direção do portão 18 do maior estádio do mundo.
Subimos a rampa do Mário Filho e assumimos uma posição privilegiada nas arquibancadas, pertinho daquela linha imaginária que costuma dividir as torcidas rivais nos dias de clássico. Linha desnecessária porque era noite de uma torcida única, exceção para meu pai e eu, dois torcedores sem bandeira, ávidos por um grande jogo de futebol.
No gramado, os times saúdam os torcedores e os craques se cumprimentam antes do pontapé inicial do amistoso internacional promovido pelo Fluminense contra o Bayern de München, base da seleção alemã, Campeã do Mundo em 1974.
É a estréia de Paulo César Caju na “máquina”, repatriado junto ao Olimpique de Marselha. É o “pó de arroz” se preparando para o bicampeonato após a conquista da Taça Guanabara.
O espetáculo atrái um público soberbo, muito acima do previsto, e a administração do estádio acaba liberando a entrada de milhares de pessoas sem ingresso.
Bola rolando.
Desde o começo o Fluminense é só pressão. Tem o domínio da meia-cancha, é agressivo, brilhante. Entusiasma até quem não torce por ele.
Apenas um “chucrute” não quer ser coadjuvante do show de bola aplicado pelos bailarinos do presidente Francisco Horta, é o goleiro alemão Sepp Mayer, destaque do Die Bayern, como é conhecido o timaço europeu.
Rivelino dá um elástico na entrada da área e toca a bola para Cléber que invade a área. Mayer sái fechando o ângulo. Cléber desloca o goleiro com um toque sutil, mas sem endereço e a bola caprichosamente encontra as canelas de Gerd Müller - centroavante do Bayern que voltara para marcar no escanteio - indo para o fundo da rede.
Gol contra do artilheiro da Copa de 74.
E é só o comecinho da partida.
Um time dá espetáculo, o outro se defende. Aliás, Mayer defende. A facilidade com que detém os disparos, sempre bem colocado, é de arrepiar.
Meu pai, que no passado também fora goleiro, vibra muito, aplaude e não contém o comentário ácido:
“Isto sim é que é goleiro, não estes merdas que a gente vê por aí”.
Sorri concordando, com uma pontinha de inveja. Ele nem se lembrou que o filho também era goleiro.
Segundo tempo, réplica do primeiro. O show de Mayer continua. Defesas incríveis, seguras. Feitas com tanta simplicidade que irrita os atacantes do Fluminense e delicia quem vê.
Cafuringa, que nunca fez gol em ninguém, invade a área na vertical, ameaça o chute uma, duas vezes, cortando sempre para a direita. Quando vai fazer o disparo final, Mayer se projeta aos seus pés, dá um tapa com a mão espalmada e arremessa a bola pela linha de fundo.
O alemão ergue-se rápido e desafia:
“Mann, hier nicht!”
Os astros Beckenbauer, o Kaiser Rumenigge, Kapelman assistem impotentes à exibição de bola de Rivelino, Marco Antonio, Mário Sérgio. O magro marcador construído na etapa inicial é pequeno e não espelha a superioridade do futebol jogado pelos astros das Laranjeiras.
O espetáculo termina. O público aplaude de pé, inclusive Herbert e eu.
A vida inteira e até o fim dela, meu pai não perdeu uma única oportunidade de descrever para os amigos as defesas daquele que para ele foi o maior goleiro do mundo.

Amistoso internacional. Dia 10 de junho de 1975 para um público pagante de 60.137 torcedores.
Fluminense 1 x 0 Bayern München
Local: Maracanã. Árbitro: Arnaldo César Coelho. Renda de Cr$ 1.162187,50. Gol: Müller contra, aos 7 do 1º tempo.
Fluminense: Félix, Toninho, Silveira, Assis, Marco Antonio, Zé Mário, Cléber, Cafuringa, Paulo César (Manfrini), Rivelino e Mário Sérgio.
Bayern: Maier, Durnberger,Schwarzenbeck, Beckenbauer, Weiss, Roth, Tortensson, Rumenigge, Zobel, Müller e Kapellmann.

(Glossário pra quem não sabe nada de futebol: Mário Filho = Maracanã; máquina, pó de arroz, tricolor das Laranjeiras = Fluminense; Die Bayern = Os Bárbaros; chucrute = alemão; Mann, hier nicht! = Cara, aqui não!; Kaiser = Imperador)

Valdir Appel
(Foto Mayer - Revista Placar)

8 comentários:

Adalberto Day disse...

Meu amigo Valdir Appel
Nosso eterno Chiquinho
Começou muito bem o seu blog, com o Seep Meyer, realmente um dos melhores goleiros do mundo. Agora o mais incrível disso tudo, foi que os jogadores do Fluminense não fizeram gol. O Flu venceu com um gol contra do seu maior centro Avante o Gerhd Muller.
Adalberto Day/cientista social e pesquisador da História em Blumenau

Anônimo disse...

Valdir, belo texto. Ainda faço um filme sobre futebol com você. Quando você chegar por aqui em Recife, quero conversar sobre esse assunto.

Umabraçamigo

Wilson Freire
Cineasta

Lucídio disse...

Valdir: Parabéns pelo Blog e pelo texto. Bacana o visual do blog. Quanto ao texto, não é novidade... Mas como mandei o recado, depois da publicação do livro: você foi um grande goleiro (pegava todas que iam pra dentro e não passavam, não é assim?), mas o velho Herbert foi bem mai elegante...

Anônimo disse...

Recebido via e-mail:

CHICO,GOSTEI MUITO!
SEMPRE QUANDO FALA DO SEU PAI,LEMBRO DO MEU.
MANDA MAIS,QUE Ñ SÓ EU MAS TODOS OS SEUS IRMÃOS VÃO ADORAR.
ABRS.FRED

Meu caro Valdir,
Tive a satisfação de entrar no seu blog. Tentei até me comunicar naquele espaço que fica à disposição dos internautas, mas nada feito. Sou ruim pra essas coisas. O jornalzinho O Rugido, que circula neste domingo 9, na Ilha do Retiro, traz uma nota, dando seu endereço de blogueiro. Falarei também no meu site. Mandarei O Rugido para você.
Um abraço, Lenivaldo

qe blog hein meu caro, é uma maneira pratica para os seus fãs assim como eu ficar mais proximo, agora, nao to conseguindo comentar, como é isso? tem que ter senha? como faço..
abraços
Genildo Oliveira

Caro Valdir,
Recebi seu e-mail ( como sempre recebo ) e dei uma passadinha, como de hábito no seu blog. Não entendi a modéstia quando vc se refere ao "Goleiraço" Horas, vc foi e sempre será um goleiraço, sim senhor, e que muito nos orgulha. (Sérgio de Pinho)

Prezado Valdir : Muito bom. Me deu até arrependimento de não ter ido ver esse jogo. Nunca fui goleiro mas sempre os admirei. Abraços . José Eduardo

Olá Valdir, me chamo Leonardo e sou filho do seu amigo Adilson(caveirinha) do Vasco. Ele me pediu para que eu te lembrasse de enviar os telefones e endereços para contato dos seus comanheiros. Muito obrigado! Seu blog está muito legal! Um abraço!

Valdir.
Parabéns, excelente.
Abraço forte e saudações tricolores,
Eduardo

Olá Valdir,
Tá otimo o blog, mas sugiro um fundo branco com letras pretas, pois o contrário dificulta bastante a leitura. Dica de quem já está nisso há muito tempo!
Um grande abraço,
Fernando.

Valdir,
Vi a matéria no blog e tentei remeter de imediato o
meu comentário, imaginando ser o primeiro.Bem, já havia um na minha frente.
Infelizmente não consegui, muito embora tenha tentado mais de 5 vezes, fazer com que o comentário fosse remetido. Não sei a razão. De qualquer forma, como sempre, os "causos" são muito interessantes. Abração, Antonio Estevam Neiva
Saudações vascaínas.

David J. Pereira disse...

Boas!

Devo dizer que gosto imenso deste blogue!

Podem adicionar os meus aos vossos links? Eu prometo que retribuo :p

http://davidjosepereira.blogspot.com/

Saudosos cumprimentos!

Valdir Appel disse...

Está adicionado David, abração.

Lucídio disse...

mValdir: o velho Herbert sabia o que estava dizendo... Seep Meyer só tinha Yashin pela frente. A gente tem que concordar, até porque para ser o tal em futebol precisa dos holofotes e das lantejoulas da mídia, o que não faltou a esses monstros sagrados.
Entre os dois e os "merdas" a que se refere seu pai, muito goleirão bom debaixo dos três paus marcaram época aqui entre nós, na Argentina, na Espanha, principalmente aqui neste vasto Brasil. Você está entre eles. Nem só de Marcos Carneiro de Mendonça, Barbosa, Castilho, Gilmar e Tafarel, vive a história do futebol brasileiro. Parabéns pela crônica.

EDEMAR ANNUSECK disse...

Grande Xico,

Bela matéria retratando realmente senão o maior mas um dos maiores goleiros da história do futebol mundial. Em 1974 dois dias antes da estréia da Alemanha Ocidental contra o Chile na Copas do Mundo participei da coletiva em que Josef Maier foi entrevistado. Depois transmiti a estréia e quase todos os jogos da Alemanha naquele mundial. Ele realmente era uma segurança diferente do que se vê nos dias de hoje na maioria dos goleiros. Aliás cabe uma pergunta: "Quem tem neste momento condições de ser o goleiro titular da Seleção Brasileira?".
Forte abraço e bom feriado
Edemar Annuseck
São Paulo - SP