sábado, 19 de janeiro de 2013

Pereirinha
No Clube Náutico Almirante Barroso, de Itajaí, Pereirinha tinha como treinador o gordo e simpático Alípio Rodrigues – competente, educado e conhecedor matreiro da profissão. Tinha, porém, um segredo, que o Pereirinha conhecia e guardava só para si: Alípio não sabia ler nem escrever (ocorrência comum, naquela época, não só no meio esportivo!).
Antes dos jogos, Pereirinha escrevia a escalação que o técnico ditava para ele e depois afixava na porta do vestiário para conhecimento das emissoras de rádio. Segundo Alípio, Pereirinha tinha uma letra mais bonita do que a dele.
Pereirinha morava em Brusque, e estava noivo. Combinou com os pais, sogros e a noiva para que fossem vê-lo jogar, no domingo, em Itajaí.
Sexta-feira, Pereirinha atrasou-se no treino, e Alípio decidiu barrá-lo. Pereirinha, inconformado, não tinha como desmarcar a vinda dos familiares – telefone era artigo de luxo, naqueles tempos! – e não queria decepcioná-los. Tinha que dar um jeito!
Domingo, como de praxe, o treinador confirmou a escalação do time, que Pereirinha anotou e colou na porta do vestiário, mantendo o seu nome entre os 11 que iniciariam a partida. O atacante segurou a camisa 9 nas mãos, e só a vestiu quando o time se dirigiu para o campo, misturando-se rapidamente aos demais jogadores.
O jogo começou e, com poucos minutos, Pereirinha fez um golaço! Só naquele momento, Alípio se deu conta da troca: o verdadeiro titular da camisa 9 estava no banco, quietinho... Na bronca, Alípio esperou Pereirinha na beira do gramado, no intervalo do jogo. Mas, antes que tivesse tempo de falar qualquer coisa, ouviu do atacante:
"Tchê, tu fica quieto e não me saca do time, senão eu conto pra todo mundo que tu não sabe ler e escrever!".
"Mas, bah! Quem pretende te sacar, Pereirinha? Tu estás jogando um bolão!".

(Darcy Leonel Pereira, o Pereirinha, morreu dia 6 de dezembro de 2001, aos 60 anos, vitima de câncer).

4 comentários:

Regina Carvalho disse...

Só pra deixar um abraço!

Adalberto Day disse...

Valdir
Você é mais que demais. EU vi o Pereirinha jogar algumas vezes pelo Renaux, e conhecia o Alipio. Eeese relatos são importantes para nossa história e nada denigre a imagem do Alipio por ser analfabeto. E se não fosse naquele dia o Pereirinha ficaria na reserva. Não sabia que ele morreu aos 60 anos, um grande jogador. Me fez lembrar que no album seguine o de 63, eu tenho ainda em meu álbun a figurinha do Pereirinha carimbada, que ganhei uma caneta. Isso é espetacular.
Linda essa história como as que voc~e posta no blog.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da História.

Osvaldo disse...

Caro Valdir;

Mais uma narrativa histórica que só enobrece quem as escreve.

O Pereirinha tinha tanto de bom como atleta como de "bom malandro".

É sempre um imenso prazer ler sua crónicas.

Um abraço,
Osvaldo

Ricardo disse...

Essa vai pro livro.
Valdir Appel, sempre mais brilhante!