segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O milésimo gol
A previsão
O gringo não agüentava mais as sacanagens do Moacir e do Buglê, e à medida em que se aproximava o jogo contra o Santos pelo campeonato brasileiro (na época, chamado de Roberto Gomes Pedrosa), o coro que agourava a marcação do milésimo gol do Pelé em cima do Vasco engrossava. Na concentração, nas viagens e após os jogos do Peixe, sempre alguém chegava com um jornal para mostrar a evolução dos gols de Pelé.
Na verdade, esta “previsão” da boleirada não tinha respaldo. O Santos enfrentaria ao longo do campeonato e em confrontos amistosos, equipes teoricamente frágeis, e já chegaria no jogo contra o Vasco com a fatura liquidada. Era o que imaginávamos.
Mas, o tempo foi passando, e com a proximidade de novembro, o goleiro argentino naturalizado brasileiro começou a ficar preocupado.
Pelé chegou à marca dos 999, num amistoso contra o Botafogo de João Pessoa, na Paraíba. Depois, jogou parte do segundo tempo substituindo o goleiro Agnaldo, que simulou uma providencial contusão, impedindo assim que novas oportunidades de gol surgissem. Palco pequeno, poucos holofotes...
O gol poderia ter acontecido contra o Bahia, no estádio da Fonte Nova, mas um carrinho milagroso de um zagueiro do tricolor de aço impediu que a marca histórica fosse alcançada na boa terra.
Curiosamente, a providencial intervenção do jogador foi contemplada com uma estrepitosa vaia da sua torcida, que estava a fim de fazer a festa do Rei em Salvador.
No mesmo dia, jogamos em São Paulo. No avião da ponte aérea, Moacir falou pro Andrada:
“Eu não falei que você levaria o milésimo? Tu achas que ele ia perder a oportunidade de fazê-lo no Maracanã? Tá tudo arranjado, Milongueiro!”.
Curtimos uma folga e nos reapresentamos em São Januário na terça-feira, quando realizamos leves preparativos rotineiros para o embate de quarta-feira.

A contusão
A colina já estava às escuras quando Andrada, inexplicavelmente, caiu no gramado sentindo dores no tornozelo.
Perplexidade total. Minha e dos demais colegas. Pensei: vai sobrar para mim esta encrenca.
Na concentração da Lagoa, à noite, na ponta de uma longa mesa de jantar, os jogadores iniciaram as provocações pra cima do Andrada.
Toda hora alguém chamava o massagista Chico, pra renovar o gelo colocado no tornozelo do goleiro. Beneti insinuava que ele estava pipocando.
Adilson ia mais longe:
“Hei, gringo! Tá com medo? Não tem problema: o Valdir joga, já entrou pra história mesmo com aquele gol contra. Este não vai fazer diferença!”.

O jogo
Quarta-feira à noite, nos vestiários do Maracanã, Andrada submeteu-se a um teste, supervisionado pelo doutor Arnaldo Santiago. Era evidente o seu nervosismo.
Falou mais alto o profissionalismo; ele decidiu jogar. E como jogou! O clima no maior estádio do mundo era de festa: quase 70 mil pagantes, devia ter uns 30 mil a mais, entre autoridades e caronas.
Os dois times entraram em campo lado a lado, liderados pelos seus capitães, empunhando a bandeira brasileira.
Perfilados, ouviram o hino nacional.
No banco de reservas, ficamos admirados ao ver o diretor Iraci Brandão disfarçar, embaixo dos braços, uma camisa branca do Vasco com o numero 1.000. Era mais um que torcia pelo milésimo acontecer naquela noite.
O jogo teve início e desde cedo ficou visível a falta de colaboração dos jogadores vascaínos: primeiro Beneti, abrindo o placar na primeira etapa; e principalmente o goleiro Andrada, que pegou tudo e fez a maior defesa que eu já presenciei no Maracanã. Pelé limpou a jogada pelo lado direito da grande área do Vasco. Andrada deu dois passos à frente, posicionando-se para defender um possível chute forte. O gênio meteu uma curva de fora para dentro, com o lado externo da chuteira, em direção ao ângulo superior direito da meta do arqueiro. Com um salto fantástico, Andrada saiu do solo para espalmar de mão trocada a bola que parecia inapelável.
No segundo tempo, o zagueiro René, para impedir o gol de Pelé, não teve dúvidas: antecipou-se ao atacante e fez contra (e de cabeça!) o gol de empate do Santos. Aqui não!
Jogo que segue.

O pênalti
O Vasco pressionou e o árbitro deixou de marcar um pênalti a nosso favor, gerando protestos de todo o time. Manoel Amaro mandou seguir a jogada e, no contra ataque, não titubeou em marcar uma penalidade máxima aos 32 minutos, extremamente duvidosa, de Fernando em Pelé.
Afinal, o pernambucano Manoel Amaro também estava louquinho para entrar para a historia e se imortalizar, às custas do Rei.
Bola na marca fatal. O público emudeceu.
Os jogadores do Santos se posicionaram no centro do gramado.
Pelé deu apenas três passos... e fuzilou, com perfeição, o arco do Andrada, que saltou como um felino para o canto esquerdo e passou roçando os dedos da luva na bola, que foi se aninhar no fundo do barbante, da baliza à esquerda da tribuna de honra do Maracanã. Seus punhos socaram o chão, inconformado por levar o gol que o colocaria para sempre na história do futebol mundial.
Logo ele, cujo maior desejo era entrar para o hall da fama como o melhor goleiro a vestir a camisa número 1 vascaína.
Pelé buscou a bola no fundo do arco e a beijou.
O jogo parou. O gramado foi invadido por uma legião de repórteres. Pelé dedicou seu gol às criancinhas, e foi carregado nos ombros dos companheiros. Chico vestiu a camisa do Vasco em Pelé que, com ela, deu a volta olímpica no gramado do Maracanã.
Após uma longa pausa para as comemorações, o jogo chegou ao final com poucas emoções. Aliás, tivéramos muitas para apenas uma noite.

Conseqüências
Assim, naquela quarta feira, entraram para a história: o milésimo gol de Pelé; e Andrada, que ganhou o título de O Arqueiro do Rei.
O atacante Acilino, do Vasco, mesmo derrotado, comemorou o seu aniversário. O Dia da Bandeira passou em branco. E poucos deram importância a Apollo 12, que (dizem!) pousou no Mar das Tempestades, quando mais dois americanos (Paul e Ringo, quem sabe?) pisaram o solo lunar.
O árbitro Manoel Amaro declarou que já podia encerrar a carreira porque apitara o jogo mais importante do Século XX.
Chico conseguiu uma das três bolas usadas no jogo (a do milésimo gol, Pelé guardou!) e uma camisa 10 do Santos dadas pelo Rei, devidamente autografadas.
Hoje, o próprio Pelé ignora onde foi parar a camisa 10 do Vasco com o numero 1.000.

O filho
Na comemoração dos 30 anos do milésimo gol, Pelé e Andrada reviveram no Maracanã aquele duelo. Pelé teve que repetir a cobrança do pênalti porque, na primeira, Andrada pegou.
Pelé se queixou:
“Pô, gringo! É para repetirmos o lance!”.
Andrada, muito sacana, emendou:
“Tá difícil, amigo... Agora, eu já sei o canto que você vai chutar!”.
Naquele mesmo dia, falei pro Andrada, no Rio:
“Gringo, tu devias agradecer todos os dias: não por ter levado o milésimo gol, mas porque tu quase defendeste aquele pênalti!”.
“Como assim, Valdir?”.
“Tchê, aquele gol passa toda hora na televisão... Imagina o teu filho, em casa, lamentando:
Carajo, papá! No saliste en la película... Saltaste para el otro lado, mientras la pelota se fué para el lado opuesto”.

Ficha técnicaSantos 2 x 1 VascoData: 19 de novembro de 1969Local: Estádio do MaracanãÁrbitro: Manoel Amaro de LimaGols: Santos - Pelé (pênalti) e Renê (contra); Vasco - BenettiSantos: Aguinaldo; Carlos Alberto Torres, Ramos Delgado, Djalma Dias (Joel Camargo) e Rildo; Clodoaldo, Lima, Manoel Maria e Edu; Pelé (Jair Bala) e Abel.Vasco: Andrada; Fidélis, Moacir, Fernando e Eberval; Bougleaux, Renê, Acelino (Raimundinho) e Adílson; Benetti e Danilo Menezes (Silvinho).
Publicado no livro Na Boca do Gol


20 comentários:

Airton Leitão disse...

Eu estava lá, Valdir. E tinha que ser mesmo contra o Vasco, pois Pelé certamente vestiu aquela camisa 1000 com bastante prazer. Afinal, ele também é vascaíno.

Sidney disse...

Sempre fui um grande fã seu.Sou vascaino e não esqueço de suas defesas no gol do meu time.Nesta epoca estudava no colegio Veiga de Almeida e de vez epor outra voce aparecia por lá(era na Tijuca) e o pessoal te chamava de Chiquinho,uma vez tomei coragem e bati um papo contigo.Fiquei muito feliz e contei pra toda rua.Agora vendo o teu site me deparei com fotos que nunca tinha visto tuas e de outros jogadores do Vasco que tambem admirava muito.Valeu mesmo e que tenhas muita saúde é o que eu te desejo.Do teu amigo Sidney aqui do Rio de Janeiro.

Adalberto Day disse...

Valdir
Você é demais....nossa...eu lembro tudo e mais um pouco. Sobre O milésimo gol de Pelé
O que o Andrada passou por gozação antes durante e depois do jogo, é para ficar na história como o “Arqueiro do Rei” e tinha que ser um argentino, e Pelé um Vascaíno.
Foi tudo previamente calculado para que fosse contra o Vascão, e isso é maravilhoso. Azar foi dos Flamenguistas que não sofreram o 1000 do Romário.
Andrada tentou dar uma de migue, e até seria bom, pois ai quem sabe seria você “Chiquinho” o arqueiro do Rei com muito orgulho.
E o gringo! Tá com medo?
Acho que estava mesmo, perguntei a ele outro dia na festa do lançamento do teu livro na Boca do Gol...
O Pênalti duvidoso foi marcado, o batedor oficial era o Carlos Alberto, mas quem bateu “ELE” e fez o milésimo...dos quais 5 foram no dia 30 de agosto de 1961 contra o Olímpico de Blumenau na baixada.
Valeu Valdir sensacional
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

Silvio Kohler disse...

Grande Valdir!
Ainda menino na minha Massaranduba e pelas ondas do rádio, acompanhei a emoção do gol 1000 do rei. Embora de familia Corinthiana e Americana, a magia daqueles momentos, nunca se apagaram de minhas lembranças. Você viveu sim, a época de ouro de nosso futebol e por isso, é um privilegiado por Deus. Alex Alemão te deixou um abraço.

Eduardo Monteiro disse...

Grande Valdir.

Ótima essa, parabéns.

Abraços,
Eduardo

José Eduardo disse...

Parabéns pelo Blog, está muito bom .
Abraços
José Eduardo
VR

Wilson Freire disse...

grande valdir,

fazia tempo que nao recebia mais notícias novas do blog. E o seu novo livro, já tá na gráfica? Quem lhe acorrentou? heheeh

umabraçamigo
wilson freire

Edenilson Leandro disse...

Grande, Valdir. Claro que já tinha lido esta no livro, e reler hoje, no dia D, é uma honra. Crônica deliciosa. Parabéns. Aliás, junto à coluna do Maceió, na edição de hoje do Jornal A Notícia, tem a sequencia do lance. Abraço.

Julio Leal disse...

Obrigado, Valdir, pela mensagem sobre o milésimo dol do Rei.
Escrito de forma brilhante, relato por quem estava no palco naquele mágico dia.

O Arqueiro do Rei, Andrada, era meu ídolo, a quem procurava copiar, além de um dos amiores goleiros da história do Vasco, tinha brilho próprio, lançava cores de camisa, e fez escola com aquela reposição que só vim a conhecer com ele, e hoje muitos goleiros brasileiros usam com tanta perfeição.

Um abraço, continue imortalizando o futebol brasileiro pelas suas letras tão precisas e sábias,
Julio Leal

Mauro disse...

Essa cronica, a melhor ja' escrita sobre o milesimo gol, nao podia deixar de ser reproduzida no quadragesimo aniversario dele.

Na epoca eu nao gostei do milesimo gol ser sobre o Vasco e nao quis ir ao jogo por pressentir que isso aconteceria. Fiquei ouvindo pelo radio, arrependido de perder a ocasiao historica.

E o nosso quarto-zagueiro Fernando tem razao quando ate' hoje nao se cansa de repetir: NAO FOI PENALTI.

Um abracao,

Mauro

Anônimo disse...

Emocionante, agora esse gol 1000 ja acontecera, ali foi só midia o que acha valdir? um abraço e levar um milesimo de pelé seria uma faca de dois gumes! um abraço, Genildo Oliveira/Mossoro Rn

Alexandre Porto disse...

Pô Valdir, eu entrei no seu blog só para perguntar onde vc estava naquele dia; e dou de cara com essa crônica ... assim é sacanagem ...

Tinha 6 anos e ouvi pelo rádio;

Não perdoei Pelé até a vingança no quadrangular final de 74;

Quem quiser ler o que escrevi sobre o jogo (linkei a sua crônica), clique em:

http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=2&post=2345

Cesar Gevaerd disse...

Bem que podia ser vc. ai seria legal....

Cesar

Celso Unzelte disse...

Valdir,

Pelo menos dessa você escapou, hem, companheiro?



Abs.,

Celso

Carlinhos Gomes disse...

Waldir, amigo, há quanto tempo não tenho tido chance de "corrigi-lo"... Hoje, porém, achei uma: A foto do Jair na entrada da social do Vasco da Gama, pela rua General Almério de Moura (no meu tempo de garoto, era rua Abílio), está encimada com o nome do saudoso "cracaço", quando jogava por lá (até 1946), com um erro que muitos incorreram e incorrem até hoje: não existe (melhor, não existia) a preposição "da". Era simplesmente Jair Rosa Pinto.
Um abraço.
Carlinhos.

Roberto Vieira disse...

Uma dúvida, Mestre: E se você defendesse a cobrança do Rei? Como seria a crônica?

Valdir Appel disse...

Roberto,
Provavelmente a crônica não existiria. Afinal estamos falando da noite em que o milésimo gol aconteceu. Pra falar a verdade, se eu fosse o Andrada, nem sairia na foto. EHEHEHE!
Abraço.

Í.ta** disse...

parabéns pelo blog, valdir.

parabéns pelo livro.
conheço-o. li-o.

conheço a regina carvalho também :)

está linkado.

grande abraço!

Anônimo disse...

Caro amigo Valdir.
Como amigo do Fernando, que jogou com você no Vasco e já tendo trocado alguns e-mails contigo, eu tenho uma foto do Fernando com o Andrada e o Pelé num jornal de 2007.
Os mesmos craques reunidos trinta e oito anos após aquele novembro de 1969 quando o Negão levou um tranco do Fernando e o juiz Manoel Amaro de Lima (falecido em 2009) deu pênalti.
Esta foto é no Maracanã e o Fernando me enviou o jornal.
Ela está junto com outras no nosso site do bairro da Água Rasa, onde o Fernando nasceu.
Se você quiser eu te mando ela numa resolução maior e bem melhor do que a que está no site.
nosso site: www.boleirosdaaugarasa.com
Esta foto está em: abrindo o site clique em "Os Times", depois em "Os Craques" e finalmente "Fernandinho".
Na página p3/14 ela é a primeira foto.
Um grande abraço e parabéns pelo blog, cada vez melhor.
Waldevir.
E-mail: waldevir@gmail.com

Valdir Appel disse...

Olá Waldevir, mande a foto pra publicar aqui no pedaço.
Grande abraço tambem no Fernando