segunda-feira, 15 de março de 2010

O presente do Mauro


16 de março de 1969.
Sexta-feira, dia do meu aniversário, o trajeto da escola pra casa foi longo. Nos últimos dias, eu só pensava nos presentes que iria ganhar.
Bom, a camisa do Vasco eu sabia que papai ia dar. Agora, será que ele atenderia o meu segundo pedido? Domingo tem jogo no Maracanã e eu tô doido pra ir. Será que ele me leva?
À tarde eu tinha cursinho de inglês e tava louco para encontrar o goleiro do Vasco. Ele também estudava por lá, um horário antes do meu. Esbarrava com ele na saída e, de vez em quando, eu ensaiava um:
“Oi, eu sou o Mauro, torço pelo Vasco”. Mas, cadê coragem?
Naquela sexta, ele não apareceu. Eu ia pedir uma vitória do Vasco de presente, no domingo, contra o Bangu.
Ele devia estar concentrado.
-Parabéns, Mauro, 12 anos. Você tá ficando velho, hein cara?
-Pois é, pai, já pensou no meu presente? Me levar ao Maracanã no domingo? Tem clássico, o Vasco joga contra o Bangu.
-Feito! Vamos com bandeira e tudo mais.
-Legal, pai! Pai, você sabe que o goleiro do Vasco também estuda inglês no Ibeu? Eu entro na aula logo depois dele. Pô, pai! O cara é grandão, e fico sem graça de falar com ele.
-Bobagem, meu filho. Vai ver o cara é gente boa e você nem conversa com ele.
-Falô, pai. Vamos ao Maracanã no domingo. Vou pedir pra mamãe passar minha camisa e ajeitar minha bandeira. Quero ficar bem no meio da massa.
Naquele domingo, o Maracanã recebeu um ótimo publico, uns 50 mil espectadores. A maioria absoluta de vascaínos. Um pequeno grupo de banguenses agitava à esquerda da tribuna de honra.
Fiquei ali, bem no meio da galera vascaína, tomando Mate Leão e comendo Chica Bom.
O Vasco começou bem, fez um a zero e perdeu um pênalti incrível. A bola chutada pelo Buglê foi parar na arquibancada.
Menos mal que já estava um a zero.
O primeiro tempo foi chegando ao fim.
Aos 45 minutos o imponderável acontece e me emudece. Emudece a todos no estádio. O goleiro do Vasco faz uma defesa sensacional. Ao tentar repor a bola em jogo, arremessa-a contra o seu próprio arco. Marcando um incrível gol contra.
Meus olhos não acreditam no que vêem. Meu pai está perplexo.
-Que coisa inacreditável! - Ele mal consegue balbuciar.
Seguem segundos que parecem uma eternidade.
Eu levanto e bato palmas para o goleiro, o público me acompanha.
Sinto o que ele deve estar sentindo. Desolação, medo do futuro.
Os times descem para os vestiários.
O intervalo parece nunca acabar.
Os comentários não cessam.
Que estupidez, dizem uns. Absurdo, dizem outros. O que teria acontecido ao Valdir?
- Será que ele vai voltar para o segundo tempo?
Fiz figa.
Quando ele subiu o túnel, retornando para o segundo tempo, pensei: “Estes serão os 45 minutos mais longos da sua carreira. Um novo erro poderá custar a sua aposentadoria precoce no Vasco, e no futebol”.
Valdir fez um ótimo segundo tempo e o placar não mudou, 1 x 1.
Voltei pra casa enrolado na minha bandeira, silencioso, triste.
Prometi a mim mesmo que segunda-feira iria falar com o goleiro na escola. Dar um alô e dizer que estava tudo bem, que ele iria superar aquele momento.
Custei a dormir, a segunda não chegava.
Fiquei atento no portão, esperando a saída do Valdir. Para minha tristeza, ele não foi ao instituto naquela tarde.
Nunca mais o encontrei. Soube depois que ele fora jogar no Sport do Recife.
Assim, nunca pude dizer a ele que, apesar de ter estragado o meu aniversário, eu tinha certeza de que brilharia no meu Vasco, e ainda me daria muitas alegrias.
*Para Mauro Prais e família.

16 comentários:

Í.ta** disse...

que belíssima história, valdir.
e feliz aniversário, pois então :)

grande abraço
rubro-negro.
rsrs...

Saulo Adami disse...

Bom dia, Valdir!

Muito bom acordar cedo e encontrar um texto inspirado para ler e recordar o que há de bom por aí: a amizade, a paixão por um esporte, a admiração por um ídolo... Sou suspeito a falar porque estes elementos me levaram até Hollywood, duas vezes, para conhecer e interagir com meus ídolos do cinema e da televisão.

Imagino a alegria e a emoção do Praiss com este presentaço! São coisas assim que fazem "valer o dia" da gente. E logo cedo, então...

Grande abraço!

Saulo Adami
Escritor

Roberto Vieira disse...

Texto espetacular... assim você não sai lá do Blog!

Adalberto Day disse...

Valdir
Primeiro parabéns ao Mauro Praiss pelo seu aniversário(tem gente que vai ler e pensar que é seu aniversário). Muitas felicidades e longos anos para nos presentear com suas belas imagens e textos. Essa primeira foto de sua defesa no Maracanã, é sensacional.
Esse jogo foi marcante, mas culpado foi o Buglê heheheheh que perdeu um pênalti, parece o Dodo.
Valdir não esquecerei jamais este jogo, e ainda agora com essas fatos desse dia.
Foi muito bom que você retornou para o segundo tempo e jogou bem. Eu ouvi este jogo em um rádio portátil que tenho ainda.
Só lembrando o aniversário do “Chiquinho” Valdir Appel, é dia 01 de maio.
Abraços
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

Alexandre Porto disse...

Com 12 anos a gente tem essa alma. Será que algum garoto encontrou o Dodô no curso de inglês ontem?

Valdir vc ficou no Sport 6 meses?

Mauro Prais disse...

Agradeco a todos os votos de feliz aniversario. Com um presente desses, nao ha' como nao ser feliz.

Que emocao voce me fez sentir agora, Valdir. Me sinto afortunado por ter tido a oportunidade de te conhecer e poder te contar o meu lado do drama que se desenrolou ha' 41 anos atras. Muito obrigado pelo privilegio de servir de inspiracao para a criacao do personagem dessa historia. E' como aparece escrito depois do final dos filmes: A historia e o personagem sao baseados em fatos reais. De fato, os acrescimos e modificacoes criados pelo seu talento como escritor embelezaram a historia e lhe deram valor literario.

Se com 12 anos a gente ja' tivesse aprendido a compreender os proprios sentimentos, eu teria compreendido naquele momento estarrecedor que o goleiro grandao que eu por timidez nao conseguia cumprimentar na escadaria do IBEU havia acabado de crescer ainda mais.

Um grande abraco,

Mauro

Ricardo Antônio disse...

Valdir, o texto é ótimo! E o comentário do Mauro Prais idem!
Parabéns aos dois! Grande abraço, Ricardo Antônio. Campos/RJ

Eduardo disse...

Caro Valdir,
Antes de mais nada deixo meu registro aqui de encamento desta historia do Mauro Prais, um amigo de infancia, desde aqueles saudosos e inocentes tempos de infacia.
Frequentamos muito a geral do Maracanã onde íamos a jogos de qualquer natureza pelo simples amor ao futebol.
Na verdade, Mauro há de se lembrar, talvez houvesse um pacto não declarado de acompanharmo-nos um ao outro - e as vezes tb na companhia de nosso amigo tricolor Henrique Chveidel - nos jogos de meu Flamengo e do Vasco do Mauro, movido pelo pouco dinheiro que, garotos, dispunhamos na época para financiar aquelas aventuras que hoje residem saudosas em nossas lembranças.
Quaisquer jogos, em sua gde maioria, de Vasco, Flamengo ou Fluminense contra os times pequenos do antigo estado da Guanabara, estavamos lá os dois ou tres "aventureiros" nas vazias "Gerais" do Maracanã.
Também no ano de 1969 estudava inglês naquele cursinho da rua Morais e Silva e lembro daquele sujeito alto pra caramba, comendo um cachorro-quente naquela carrocinha que ali fazia ponto. Logo soube pelos colegas que era o Valdir, goleiro do Vasco e, garoto, ao chegar em casa esperei ela noite para comentar com meu pai que estive bem ao lado daquele goleiro do Vasco, do "frango" no jogo contra o Bangu.
Naquela hora pouco me importava o fato do jogo em si, mas que estava ao lado de um jogador de futebol e que estudavamos no mesmo curso.

Os anos se passaram, retomei meu contato com o Mauro e dentre nossas muitas msgs de memorias, muito recentemente trocamos ideias sobre aquele Vasco x Bangu.
Isto porque há dois anos mudei-me para SC, para trabalhar em Itajaí e morar em Balneário Camboriú.
Logo conheci e interessei-me pela coluna do jornalista Roberto Alves, a qual leio sempre que posso.
Numa destas leituras o Roberto falou do Valdir Appel, já não lembro exatamente pq, mas relembrava o fato daquele jogo, já tão distante no passado encerrando com um " O Valdir hoje reside e tem seus negócios em Brusque", sua cidade de origem.
Agradavelmente surpreso com a informação já que jamais poderia imaginar a hoje tamanha proximidade física de um "personagem" que marcou aqueles tempos, não hesitei em escrever ao Mauro, que logo me atualizou das novidades como o contato que ele pode iniciar e manter com voce.
Hoje, vivendo e trabalhando nesta bela região, dentre as opções de lazer que tenho, uma das mais agradáveis, não importa a qualidade técnica dos jogos, é ir aos pequenos estádios do Marcílio Dias e do Brusque acompanhar os jogos dos times destes clubes, por quem, podem todos aqui, acreditar torço pra valer, talvez por já estar identificado com a região.
Claro que não com a mesma, velha e paixão pelo meu Flamengo, mas com muita diversão e fidelidade.
O Mauro é testemunha disto tudo!
Um gde abraço.
Paulo Tarnapolsky

Valdir Appel disse...

Ora, ora Eduardo. Então você está aqui ao alcance de um alô e não se comnuica?
Tô aguardando o teu e-mail, para continuarmos esta longa história:
appelval@terra.com.br

Airton Leitão disse...

Há um ano já disse aqui que eu estava no Maracanã naquele dia fatídico para Valdir e até descrevi o lance todo. ocorrido bem à minha frente. Mas quero registrar aqui que fui um daqueles milhares de torcedores que aplaudiram Valdir na saída para o intervalo.
Sou feliz por encontrá-lo aqui na condição de blogueiro como eu,ele com tantas histórias para contar.
Um grande abraço, Valdir.

Alexandre Porto disse...

Por sinal, conta pra gente Valdir, como foi o reencontro com o Aranha no Vasco 1 ano depois? Ele tinha fama de gozador.

Francisco José disse...

Bom tarde,Valdir!
Tenho Luis Otávio como um grande e fraterno amigo-fomos criadores da Torcida Jovem do Meier e foi a origem, que hoje é a Força Jovem do Vasco (vi a história do jogo do Voltaço).
Nesse jogo, contra o Bangu, eu estava no Maraca e realmente o 2º tempo foi díficil.
Aconteceu e quem não tem história para contar.
Saudade das suas defesas.
Um grande abraço

Francisco José disse...

Boa tarde, Valdir
Sou grande amigo de Luis Otávio(fomos criadores da Torcida Jovem do Meier e posteriomente Força Jovem) e vi o comentário do Voltaço.
Estava no Maraca nesse dia.
Nós todos temos história para contar.
Saudades de suas defesas.
Um grande abraço

Chico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
edgard horacio disse...

o jornal do dia seguinte
http://www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital/pdf.php?dia=17&mes=3&ano=1969&edicao=1&secao=1