domingo, 28 de março de 2010

Marlon Manga
Por Roberto Vieira
Na final do Campeonato Brasileiro de 1975 entre Internacional e Cruzeiro no Beira-Rio, o arqueiro Manga e o lateral Nelinho travaram um duelo inesquecível. Nelinho mandava bombas indefensáveis e Manga defendia manquitolando, como se sofresse de uma doença terminal. A torcida no estádio e pela televisão chorava pelo esforço extraordinário do goleiro pernambucano. As bolas tinham rumo certo porém, inevitavelmente, encontravam aqueles dedos alquebrados, reumáticos, semimortos.
Entretanto, quem conhecia o velho Manga, sabia ser tudo jogo de cena, pantomima que Aílton Corrêa Arruda, o verdadeiro nome do craque, havia aprendido quando trabalhou num circo-teatro em Recife.
A primeira vez que os dotes artísticos de Manga ficaram evidentes foi na final do Torneio Início de Pernambuco em 1958. Clássico das Multidões. O Santa Cruz havia se consagrado Supercampeão do estado em uma final contra o Sport. Sport que lutava pelo tricampeonato. Manga foi considerado culpado pela derrota rubro-negra. Aquela calúnia apoquentava seu juízo e Manga passou a semana torcendo para o torneio - realizado na Ilha do Retiro – proporcionar-lhe a tão sonhada vingança.
Quis o destino que o Santa Cruz eliminasse o Náutico e o ASAS. Coube ao Sport mandar pra casa mais cedo o Íbis e o Ferroviário. Pronto. O cenário estava pronto para a estréia de Marlon Manga, nome de picadeiro do goleiro que idolatrava Marlon Brando.
Com arbitragem do uruguaio Ramon Charquero, o Sport alinhou Manga; Bria e Osmar; Zé Maria, Mirim e Índio; Mainha, Pacoti, Traçaia, Walter Morel e Eliezer. O Santa Cruz formou com Mauro; Breno e Diogo; Zequinha, Clóvis e Roberto; Didi, Hildebrando, Paraíba, Mituca e Newton Adrião.
O jogo foi sensacional. Traçaia abriu o escore e Paraíba empatou. Traçaia colocou o Sport novamente em vantagem e com 2 a 1 no marcador surgiu o Marlon Manga. Pois o Santa empatou em gol contra de Mirim. Paraíba na corrida entrou no gol para confirmar o tento e chocou-se com Manga. Paraíba fraturou a clavícula. Manga ficou desmaiado no chão.
Paraíba não retornou ao jogo. E depois de alguns minutos de silêncio na torcida do Leão, Manga se levanta com a ajuda do árbitro Ramon Charquero e diz que vai continuar jogando. Manga que manquitola com a mesma expressividade teatral que demonstraria no Beira-Rio quase vinte anos depois.
O Santa Cruz imagina que Manga está ferido e chuta de longe. Manga defende e cai no chão em espasmos de dor. Mituca manda bala. Manga espalma com um grito. Clóvis toca no canto e Manga num esforço supremo desvia para escanteio. O público chora nas arquibancadas. O tricolor está desnorteado.
Foi então que Eliezer bate uma falta. No ângulo de Mauro. Sport 3 a 2. O placar não se modifica. A sirene da Ilha do Retiro explode no final da peleja. Manga vai trambecando para os braços da multidão.
Pouca gente nota um sorriso discreto no craque.
"Só Deus sabe como terminei!"
O sorriso de um artista do picadeiro...

Nota:
O texto que segue eu publiquei no blog, tempos atrás. Percebam que 20 anos depois, Manga ainda não tinha perdido o jeito e fazia do gol o seu picadeiro.
Por Valdir Appel
O campeonato paranaense de 1978 poderia ser decidido nos pênaltis e Manga apostou com Evangelino da Costa Neves, presidente do Coritiba, seu clube, 100 dólares para cada pênalti que ele defendesse contra o arqui-rival Atlético.
E, realmente, a decisão foi para as cobranças de penalidades. Enquanto os técnicos decidiam quem iria bater os pênaltis, Manga sentou-se ao lado da baliza e pediu ao massagista aplicação de gelo num dos joelhos, que aparentemente estava machucado. Após enfaixá-lo, foi para o gol. Talvez, seduzidos pelo joelho envolto num pano, os jogadores do Furacão insistiram em cobrar daquele lado e erraram três cobranças. Duas Manga defendeu e uma foi para fora.
No dia seguinte, o presidente entregou 200 dólares ao goleiro que reclamou:
“São trezentos, presidente!”
“Como trezentos, se você defendeu dois?”
“Pressidente mira aca! Manguita não defendio porque la pelota se fuera para fora. São trezentas platitas.”

3 comentários:

Osvaldo disse...

Valdir;

O Manga tinha realmente os dedos das mãos todos truncados e esquisitos. Mais pareciam mãos com dedos de quiabo comprido. Conheci o Manga quando ele estava no Botafogo e morava em Copacabana e tinha mãos impressionantes, grandes e desengonsadas...
Só nunca entendi como um "calmeirão" como o Manga, alto e atlético,levou três gols de Eusébio & Co. no Mundial de Inglaterra!...

Í.ta** disse...

goleiros, goleiros.
sempre marcantes!

tão bons teus textos, valdir.

grande abraço!

Adalberto Day disse...

Valdir
Mais uma bela postagem. O Manga realmente foi muito bom goleiro, era boleiro, truncador, fazia das uas, mas um goleiro que jamais será esquecido principalmnte pela torcida do Botafogo. Tinha sim segundo relatos, uma mão esquisita, mas própria de muitos goleiros, quando jogavam sem luvas. Manga foi um desses goleiros que nunca serão esquecidos até pelas torcidas adversárias, mas como Barbosa...teve seu momento, sei lá, pelo menos esquisito naqueles gols de Portugal do Euzebio em 1966...até hoje não entendi muito mesmo vendo o lance pela TV. Mas valeu grande Manga, você realmente merece ser lembrado para sempre.
Abraços
Adalberto Day cientista social e pesquisador em Blumenau