segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Os filhos do seu Antunes.
A Praça Saens Peña, no Rio de Janeiro, sempre foi o meu reduto preferido. Um galeto na brasa, um cafezinho no Palheta e um cinema pra escolher, na praça que é o paraíso dos amantes da 7ª arte.
Na mesma praça encontrei o seu Antunes, ali em frente à loja do Amaro. Era o seu ponto estratégico. Amaro era uma lenda viva: ex-jogador, remanescente do glorioso time americano, campeão carioca de 1960.
A simpatia do seu Antunes pelo América se justificava. Seus filhos Edu e Antunes jogaram no time do presidente Wolney Braune, e fizeram história no alvirrubro de Campos Sales. Já o Galinho jogava no time rubro-negro do seu coração.
A loja de material esportivo exibia em suas paredes flâmulas e recortes de jornais, fotos dos clubes que o Amaro defendeu, entre eles o Corinthians, a Portuguesa de Desportos, o Juventus de Turim, e a seleção brasileira em 1961. O destaque, emoldurado entre tantas preciosidades, era a faixa de campeão carioca.
Feitas as apresentações, seu Antunes, sem muito explicar, quis logo saber a minha opinião sobre os craques da família.
Fui convincente, todos foram craques. Edu, Antunes e o caçula de Quintino, brilharam intensamente. Os outros irmãos, ofuscados pelo talento destes três geniais jogadores, tomaram rumos diferentes e também vitoriosos.
Com Edu, eu praticamente dei os meus primeiros passos, ou vôos, no América, em 1965. Éramos garotos no meio das feras. Muitas já no ocaso da carreira, ensinando e preparando os mais jovens para a dureza da profissão.
Os goleiros titulares, Mauro e Ari, inspiravam respeito e me davam estímulo. Necessitava lapidar minha vocação para o arco, forjada na tradição de família de grandes goleiros, em técnica apurada. Portanto, não podia perder a oportunidade que o Diabo* me proporcionava.
Joguei apenas duas partidas pelos aspirantes. Uma no Maracanã lotado, no dia 7 de setembro de 1965, quando os meus colegas de farda foram liberados pelo comandante da PE para ir ao estádio me prestigiar.
O América venceu, 1 x 0 do Botafogo.
Os três meses que duraram conforme o meu contrato por empréstimo, do Paysandú ao clube americano, foram tumultuados e tensos. Raras vezes obtinha permissão para sair do quartel, sempre em prontidão, após o golpe militar de 64. Assim os treinos eram escassos e as chances de jogar, mínimas.
A segunda partida aconteceu nas Laranjeiras. Enfrentamos e fomos derrotados pelo Vasco por 2 a 1. Tive uma atuação brilhante que acabou sendo o passaporte para a minha contratação pela equipe cruzmaltina no ano seguinte.
Antunes, magro como papel, artilheiro e habilidoso, formou durante muito tempo um ataque mortífero de pequenos gigantes: Joãozinho, Edu, Antunes e Eduardo.
Eduardo, com certeza, teria se tornado o ponta esquerda número um do Brasil, não fora a morte prematura, logo após sua transferência para o Corinthians. Ele e seu colega Lidu partiram entre as ferragens de um trágico acidente de carro.
Edu é referencia e destaque, e idolatrado até os dias de hoje pelos torcedores do mequinha.
A pergunta do seu Antunes soava como um pedido de pai, ansioso por referendar o filho Edu:
“Quem é melhor? Edu ou Zico?”
Respondi que o Edu era melhor.
Era a resposta que ele adorava ouvir. Pra mim os dois eram fora de série.
O pai, então contente e com os olhos brilhando, se voltou para os ouvintes ao redor:
“Viram”? Ele conhece, ele também é jogador. Edu não é considerado melhor do que o Zico, porque iniciou no América. Tivesse iniciado no Flamengo, com certeza teria sido considerado melhor do que o Galinho”.
(Rio, 1976)

Galinho – Zico, mas quem não sabe?
Na mesma praça.....sem muito explicar - A praça e Gesùbanbino - (Chico Buarque). *Diabo, símbolo do América.

5 comentários:

Osvaldo disse...

Caro Valdir;

Já aqui comentei à algum tempo atrás e volto a repetir;
Edu, foi tecnicamente um dos futebolistas mais evoluidos do Brasil e o colocaria entre os cinco melhores de todos os tempos bem à frente do irmão Zico.
O que faltou ao Edu para ser o melhor dos melhores foram 20cm na sua estatura...
Como eu sonhei vê-lo com a camisa do Vasco!...
Um abraço, amigo Valdir.
Osvaldo

Roberto Vieira disse...

Quem jogava mais? E existe classificação para a genialidade? Depois de um certo nível é questão de gosto... como nas grandes paixões. Em tempo: Puto de um texto, Valdir!

Mauro disse...

Concordo com Seu Antunes. Nao apenas por achar que o Edu era o melhor dos irmaos, como tambem por achar que se ele tivessee tido a maquina da midia a idolatra-lo, como aconteceu com o irmao mais novo, ele teria tido seu lugar na Selecao. Acrescento que em 1969 Edu foi o artilheiro da Taca de Prata, mas nem por isso deixou de ser ignorado na hora das convocacoes, fosse pelo Joao Saldanha ou pelo Zagalo. Talvez por ser do America ou por causa dos - nao diria 20, mas pelo menos 10 - centimetros a menos na altura. Um comentarista, nao me lembro qual, mencionou que o azar do Edu foi ter sido contemporaneo de tantos pontas-de-lanca talentosos, entre eles o Pele'. Isso se falou tambem do Dirceu Lopes, Ademir da Guia, e outros injusticados.

E lembro ao Osvaldo do comentario acima que o Edu vestiu a camisa do Vasco em 1975, com algum brilhantismo. Fez uma otima dupla com o Roberto, mas as contusoes o deixaram de fora de quase a metade das partidas daquele ano. E em 1984 ele foi tecnico do Vasco e montou um time excepcional que quase conquistou o campeonato brasileiro, e teve seus meritos reconhecidos ao ser chamado pela CBF para ser o tecnico da selecao, pena que por pouco tempo.

Me lembro do Antunes nos aspirantes do Fluminense, no inicio da carreira, e como titular em algumas partidas do campeonato de 1964, que o Fluminense venceu em melhor-de-tres contra o Bangu. Mas o Fluminense o deixou sair para o America - deviam achar que nao precisavam dele porque tinham o Ubiraci (Agora estou sendo sarcastico, esclareco para quem nao viu o Ubiraci jogar).

A Praca tambem foi meu reduto, Valdir. Os cinemas, as lanchonetes como o Palheta (com suas mesas de sinuca no sobrado) e o Bobs, a livraria Eldorado e outras, as Lojas Americanas... Me lembro da Amaro Sports e tambem da Apolo Sports, que pertencia ao Washington Rodrigues. Grandes lembrancas em mais um excelente texto.

Um abraco,

Mauro

Airton Leitão disse...

Aqui pra nós. Zico foi o que foi jogando principalmente no Flamengo e não há contestação. No entanto, Edu foi chamado de craque jogando no então modesto América. É aí que se vê que ele era mesmo um baita jogador.
E meu Vasco teve o privilégio de tê-lo vetindo a camisa da Cruz de Malta.

Adalberto Day disse...

Valdir
Não sei o que falta mais. Essa é de matar, acabar com os corações enfraquecidos.
Os irmãos Antunes foram desses jogadores acima da média. Comparar um com outro é complicado, principalmente Edu e Zico. Ambos foram talentosos. Edu poderia sim ter glórias idênticas ao mano Zico, se tivesse jogado no início da carreira no Flamengo, Vasco ou Fluminense, ou até Botafogo. No América jogou o fino da bola, mas era o Mequinha, fazer o que, apenas o segundo time de quase todos os cariocas. Quero aqui releembrar alguns fatos: em 1974 o Flamengo foi campeão Carioca com a ajuda do Edu, e explico. O Vasco estava vencendo o a América até depois dos 42 minutos do segundo tempo, e se preparava para decidir por um empate com o Flamengo a final. Mas o Edu estragou tudo para nós Vascaínos, fez dois gols e o jogo terminou empatado, com o resultado o Flamengo jogou pelo empate e foi campeão no 0x0, com o Zico com a bola até acabar o jogo em sua posse. No ano seguinte esse extraordinário cidadão e jogador foi jogar no grande Vascão, para nossa alegria, porém pouco pode fazer pois estava já veterano, ainda com algumas contusões. Saiu do Vasco e foi jogar ao lado de Zico algumas partidas no Flamengo onde encerrou a carreira. Também é bom lembrar que o Galinho Zico, vestiu também a camisa do Vasco, na despedida do Roberto Dinamite.
Parabéns Valdir
Adalberto Day Cientista social e pesquisador da história em Blumenau