sábado, 16 de agosto de 2014


COLUNA DO CARLOS HENRIQUE: O GOLEIRO
Por CARLOS HENRIQUE, GM

Existe uma mística no futebol que diz: "Todo grande time começa por um grande goleiro"! Uma equipe que espera conquistar vitórias precisa ter um arqueiro que lhe passe confiança e segurança nos momentos mais tensos de uma partida. Talvez por isso a sua camisa receba o número 1 nas costas. Representaria o primeiro, na escala de responsabilidade.
Ser goleiro é passar de herói para vilão num piscar de olhos. O camisa 1 tem sempre que evitar o inevitável. O goleiro sempre acha que vai defender o mais indefensável dos chutes. Em uma partida de futebol, um esporte coletivo, o goleiro atua quase de forma individual. Aquele jogador que fica o jogo inteiro dentro de uma área limitada, e debaixo dos três paus, muitas vezes é considerado a "alma" do time.
Albert Camus (foto), prêmio Nobel de Literatura em 1957, foi goleiro do Racing Universitário de Argel, no início dos anos 30, e as crônicas desportivas da época fazem referência à sua bravura e ao seu espírito de liderança em campo. Só não seguiu a carreira esportiva porque teve tuberculose, e foi obrigado a parar. Disse Camus: "Nada me ensinou mais na vida do que o fato de ter sido goleiro"!
A escola argentina de goleiros era famosa pelos seus ilustres representantes. Aqueles que tiveram a oportunidade de ver jogar um Raul Carrizo, um Gatti, um Andrada, um Cejas, e um Fillol tiveram o privilégio de conhecer os verdadeiros donos da camisa 1. Eram Possuidores de uma técnica elegante, eles saiam do gol como artistas, e chegavam a antever o pensamento dos atacantes. Fizeram história no futebol.
O Brasil passou muitos anos sem créditos no que se referia a goleiros, em relação ao futebol mundial. Nem mesmo Gilmar, bi-campeão mundial (58 e 62), conseguiu o reconhecimento devido pela crônica esportiva internacional. Os conhecidos, os mais famosos eram os atacantes, os artilheiros, aqueles que decidiam as partidas. Ao goleiro, principal defensor, apenas as honras repartidas com o resto do time.
A prova maior disso aconteceu na copa do mundo da África do Sul, quando a seleção brasileira, pela primeira vez na sua história levou os 3 goleiros que atuavam no exterior. Desde 1930 até 2006, apenas 3 goleiros que jogavam no exterior foram para uma copa do mundo. Em 2010 o técnico Dunga revolucionou, quando convocou os 3 goleiros que atuavam fora do Brasil.
Isso se deveu a uma mudança na filosofia dos treinamentos para os goleiros. Sem dúvida houve uma evolução na preparação de goleiros de futebol profissional no Brasil. Diversos profissionais destacaram-se a partir da década de 80, com o apoio de médicos, nutricionistas, psicólogos, fisiologistas, fisioterapeutas e professores de educação física. No futebol, cada vez mais são exigidos conhecimentos científicos. Apesar de todo avanço científico, ainda existe uma carência no futebol brasileiro de profissionais voltados à preparação de goleiros, tanto no aspecto técnico quanto tático, bem como uma resistência em dar credibilidade aos professores de Educação Física que não foram goleiros profissionais, por parte de alguns dirigentes, treinadores (ex-jogadores) e alguns segmentos da mídia desportiva, acreditando muito mais na competência de ex-goleiros.
Valdir Appel, ex-goleiro do Vasco da Gama, e freqüentador assíduo do blog do Roberto Vieira foi um dos muitos goleiros brasileiros dos anos 60 e 70 que precisaram fazer verdadeiros milagres para defender o gol de suas equipes, pois na época o sistema de treinamento dos goleiros era muito diferente (precário) em relação aos tempos atuais.
Valdir agora anda mesmo é fazendo gol, e de letra. Já escreveu dois livros: "Na Boca do Gol" e "O Goleiro Acorrentado", esse segundo lançado recentemente em Brusque-SC.
Com o passar do tempo foram surgindo personagens pitorescos, folclóricos até, mas sempre procurando defender com galhardia a posição mais ingrata do futebol. Foram vários os goleiros que fizeram questão de usar um número diferente do 1 nas suas camisas. Mas esse será o assunto a ser publicada na próxima semana.
Independente da cor de sua camisa, ou do número dela, o goleiro sempre terá que exercer a sua difícil tarefa com habilidade e precisão.

"O goleiro de um time tem de ser o especialista do especialista. Um goleiro reserva nunca entra em campo para melhorar o ataque, reforçar a marcação ou cobrir os laterais".
"Um atacante, um meia-cancha, e até mesmo um zagueiro podem falhar. Só o goleiro tem de ser infalível"!

Palavras de Nelson Rodrigues.
Trecho do livro "Goleiros", de Paulo Guilherme.

(Aproveito a coluna do Carlos Henrique e publico a minha crônica sobre o assunto):

Goalkeeper

A prática de separar os times da pelada no par ou ímpar, não é de hoje. Geralmente, os dois piores jogadores vão para o gol. Por isso, sempre defendi a tese de que o goleiro, no passado, surgia da incompetência do postulante a atacante que, por falta de habilidade, recuava para ser beque e acabava no gol por ser melhor com as mãos do que com os pés. Poucos garotos surgiam dispostos a jogar como goleiro, com talento e aptidão para a posição.
Nos anos 1960, causava admiração entre os torcedores e os goleiros, na minha pequena cidade, a informação de que o goleiro Gilmar, do Santos Futebol Clube e da Seleção Brasileira, jogava sem joelheiras.
Eu me lembro, quando garoto, que o primeiro item na minha lista de presentes natalinos era exatamente um par de joelheiras. Este era o acessório mais cobiçado pelos goleiros da época. Para os jogadores de linha, o objeto de desejo era um par de chuteiras de tarraxas, que substituíssem as tradicionais chuteiras com travas de couro.
Os campos secos e duros só eram irrigados pela chuva. No gol, não nascia grama e a joelheira protegia os joelhos expostos.
O cuspe para os dias secos e o breu para os dias de chuva, escarrados e passados nas mãos nuas, substituíam as luvas que eu não conhecia, e funcionavam como cola para garantir defesas com segurança. Hoje, meus dedos tortos são testemunhas de que um bom par de luvas substituiria com vantagens os improvisos. A chuva dobrava o peso da camisa, do calção e das meias, e a bola de couro, que era costurada a mão, deslizava, aumentava a velocidade, dificultando a defesa. As bolas, encaixadas pelos braços do goleiro, muitas vezes se chocavam inevitavelmente no corpo, marcando com os seus 18 gomos a pele por baixo da camisa.
As contusões, o massagista tratava com água benta, jogada para refrescar a vítima estendida no gramado, e com um óleo fedorento aplicado sobre a parte atingida.
O teste para verificar se um tornozelo atingido estava bom, era mandar o jogador bater o pé no chão. Claro que, para o pé quebrado, esta ação dispensava os Raios-X.
Numa analogia ao Gelol, sempre tinha algum torcedor gozador que gritava para o massagista: “Passa cuspe, que passa!”.
Os treinamentos especiais para goleiros consistiam de várias voltas ao redor do gramado do campo de jogo, e exercícios calistênicos, muitos saltos e quedas, em exaustivas sessões de treinos, com bolas arremessadas pelo treinador – com as mãos. O treinador era multifuncional, servindo inclusive de preparador físico.
Os atacantes eram posicionados na entrada da área e executavam uma longa seqüência de chutes de média e curta distância, cruzamentos da linha de fundo e das laterais – para ensaiar as saídas de meta do goleiro. O goleiro saía para segurar as bolas, molhadas ou não. Mesmo porque a técnica de soca-las ninguém conhecia.
Finalmente, uns 200 abdominais encerravam o dia de trabalho. A palavra alongamento sequer era conhecida.
E no quadro negro dos vestiários, uma frase de Neném Prancha dava o toque final: “Goleiro, para ser bom, tem que dormir com a bola. Se for casado, com as duas".
O goleiro é um narcisista, um solitário que se veste diferente, e o único que pode jogar com as mãos. É mais lembrado pelo que fez de errado do que pelas belas defesas e conquistas, mas é o único que pode se realizar em todos os momentos da partida, numa interceptação de escanteio, numa reposição de bola perfeita, numa defesa de mão trocada, enquanto o artilheiro vive do gol, o seu único momento orgástico de uma partida de futebol.

4 comentários:

Í.ta** disse...

muito legais estes textos, valdir!

também fiz um, há dois anos, no dia do goleiro.

quando for novamente tal dia, ano que vem, postarei no blog :)

grande abraço daqui!

Roberto Vieira disse...

O goleiro por si só é mais enciclopédia que o Nilton Santos. Longa vida aos arqueiros - sem eles não existiria o futebol. E viva os Mestre Valdir e Carlos Henrique!

Carlos Atilio Gamba disse...

Show de bola o texto

Parabêns Valdir

abrcs

Adalberto Day disse...

Valdir
O Carlos Henrique retrata em sua bela crônica uma real situação de ontem e de hoje, ou seja: todo bom time começa por um bom goleiro. Dá mais confiança a Zaga e ao time inteiro.
Realmente o goleiro em uma única partida pode ser herói e vilão. Acontece de vez em quanto. Enquanto que o artilheiro que não colocou o pé na bola o jogo todo, aos 45 do segundo faz o gol da vitória, e a fama recai pra ele.
Como bem relata o Carlos Henrique, o Valdir resolveu também fazer gols, dentro de pouco tempo alcança a marca do Rogério Ceni...rs....Mas estes gols são de letra mesmo, e dos notáveis.
Valdir
O Goalkeepe
Quem não participou de uma dessas de par ou impar, e escolher o melhor goleiro quando garoto? era nostalgia...
O seu relato também é perfeito, normalmente os dois piores jogavam no gol.
“Passa cuspe, que passa!”.
Parabéns aos dois, e que sempre nos brinde com estes contos e causos maravilhosos de nosso futebol bretão.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau