sábado, 9 de agosto de 2014

O telefonema

Todo clube de futebol que se preza tem algum personagem folclórico.
Provavelmente, muitos deles nem cheguem ao conhecimento do público.
Mas permanecem na memória dos funcionários, dos dirigentes e dos colegas de bola, e são citados com freqüência nos papos da boleirada antiga, após as peladas de fim de semana.
Um destes personagens é o incomparável Paulo Dias, ex-meio-campista do Vasco da Gama.
Suburbano, carioca da gema, cheio de gingas e cacoetes - nos modos e na fala - arrastava o seu carioquês no meio da rapaziada, provocando risadas com suas frases de efeito.
Somente outros cariocas da elenco – como Brito, Ananias, Acilino e Jedir – eram capazes de entende-lo.
A maioria dos jogadores, oriunda de todos os cantos do país, necessitava de interprete:
‘É, meu camarada... a maré não tá pra peixe. É bom levar o teu morcego porque São Pedro vai mandar ver!’.(Tradução: clima ruim, levar o guarda chuva, muita água).
‘É, merrrmão, hoje o côro vai cumê!’.(Traduzindo: jogo difícil contra outra grande equipe).
(Tradução alternativa: indo para a balada).
Certa vez, em Porto Alegre, concentrado em um hotel, às vésperas de um jogo contra o Grêmio, Fontana – que dividia o apartamento com o Paulo Dias – combinou com os demais jogadores passar um trote no exxperto da turma.
Um colega, disfarçando a voz e adotando um sotaque de gaúcho autêntico, ligou para o apartamento.
Fontana atendeu.
-Quem quer falar com ele? Um momento.
-Paulo tem um gaúcho na linha. Diz que é empresário e quer falar com você.
Desonfiado, Paulo atendeu.
-Daí tchê! Meu nome é Fridel. O Inter tá precisando de um guri que apóie bem como tu.
-Mermão! Cê não tá enganado não? O bom é o Danilo Menezes.
-Mas bah, tchê! Tu dá de dez no gringo. Te vi jogar no maior do mundo. Tu é muito tri!mexxmo, merrmão?
Paulo conversava com o gaúcho e comentava com a mão em concha sobre o fone:
-Fonta, vou morder uma grana preta! Tem um branca-de-neve (homem loiro), dos Pampas, que quer me contratar!”.
Marcaram um encontro.
Depois do jogo, o técnico Zizinho liberou os jogadores até às 23 horas.
O único que desprezou a folga foi Paulo Dias, que postou-se no saguão do hotel onde ficou um par de horas esperando pelo tal empresário de olhos azuis, que nunca apareceu!
Neste dia o mó mané foi ele.

Foto 1-Danilo Menezes, Jorge Andrade, Luizinho, Brito e Valdir, aprontando todas.
Foto2- Paulo Dias, Garrincha e Almir em Cordeiro/RJ, em 1967. Garrincha foi vascaíno por um dia.

Foto 3- Vasco 1967: Valdir, Sergio, Brito, Lourival, Oldair e Paulo Dias; Zezinho, Erandy, Nei, Danilo Menezes e Acilino.

5 comentários:

Ricardo Antônio disse...

Valdir, ótimo texto! Figuraça o Paulo Dias! rsrs. Esses personagens folclóricos alegram um grupo. Ah, já postei uma das fotos. Depois passa lá nos álbuns para conferir. Grande abraço! Ricardo Antônio (Campos-RJ)

Antonio Estevan disse...

Valdir,

Muito bom o texto.

Interessante que vc teve a capacidade de quase a gente conseguir ouvir o sotaque carioca do exxxxxxxxperto do Paulo Dias.

Embora o seu blog seja sobre coisas hilárias e pitorescas que viu e viveu no futebol, quem sabe um dia vc escreve sobre a " DÉCADA PERDIDA", os terríveis anos 60 para a nação vascaína.

Tinha dinheiro, não tinha dinheiro, tinha craques, não tinha craques, afrustação da final de 68, as brigas internas, os grupos que haviam e surgiam, as gozações dos adversários, a paixão da torcida aumentou ou diminuiu, etc, etc, etc.

Abração.

Antº Estevam

Adalberto Day disse...

Valdir
Você cada dia melhor em seus “Causos” e contos sobre as suas vivencias no futebol. Que nem diz o Gaúcho Tri legal meu...as gírias do Paulo Dias. Ele era eterno reserva e quando viu a oportunidade de jogar no RS, ficou esperançoso. Acho que ele não jogaria nem aqui no Amazonas. Muito ruim. Foi se meter com o Brito e Fontana, deu no que deu.
Valeu Valdir...continue a nos brindar com esses causos maravilhosos...essa foto do Garrincha é muito rara e importante. Bem colocado pelo Estevan sobre a década de 60 perdida do Vascão.
Adalberto Day cientista social de Blumenau

Roberto Vieira disse...

Grande causo! Lembraste um amigo meu que vive inventando gíria... tipo 'o cara era tão bonzinho que merecia um gargarejo de superbond! Valeu, Valdir!

Lenivaldo Aragão disse...

Amigo:

Parabéns. A história de Paulo Dias está ótima.

Um abraço

Lenivaldo