terça-feira, 5 de novembro de 2013

19 de novembro de 1969

O milésimo gol
A previsão
O gringo não agüentava mais as sacanagens do Moacir e do Buglê, e à medida em que se aproximava o jogo contra o Santos pelo campeonato brasileiro (na época, chamado de Roberto Gomes Pedrosa), o coro que agourava a marcação do milésimo gol do Pelé em cima do Vasco engrossava. Na concentração, nas viagens e após os jogos do Peixe, sempre alguém chegava com um jornal para mostrar a evolução dos gols de Pelé.
Na verdade, esta “previsão” da boleirada não tinha respaldo. O Santos enfrentaria ao longo do campeonato e em confrontos amistosos, equipes teoricamente frágeis, e já chegaria no jogo contra o Vasco com a fatura liquidada. Era o que imaginávamos.
Mas, o tempo foi passando, e com a proximidade de novembro, o goleiro argentino naturalizado brasileiro começou a ficar preocupado.
Pelé chegou à marca dos 999, num amistoso contra o Botafogo de João Pessoa, na Paraíba. Depois, jogou parte do segundo tempo substituindo o goleiro Agnaldo, que simulou uma providencial contusão, impedindo assim que novas oportunidades de gol surgissem. Palco pequeno, poucos holofotes...
O gol poderia ter acontecido contra o Bahia, no estádio da Fonte Nova, mas um carrinho milagroso de um zagueiro do tricolor de aço impediu que a marca histórica fosse alcançada na boa terra.
Curiosamente, a providencial intervenção do jogador foi contemplada com uma estrepitosa vaia da sua torcida, que estava a fim de fazer a festa do Rei em Salvador.
No mesmo dia, jogamos em São Paulo. No avião da ponte aérea, Moacir falou pro Andrada:
“Eu não falei que você levaria o milésimo? Tu achas que ele ia perder a oportunidade de fazê-lo no Maracanã? Tá tudo arranjado, Milongueiro!”.
Curtimos uma folga e nos reapresentamos em São Januário na terça-feira, quando realizamos leves preparativos rotineiros para o embate de quarta-feira.

A contusão
A colina já estava às escuras quando Andrada, inexplicavelmente, caiu no gramado sentindo dores no tornozelo.
Perplexidade total. Minha e dos demais colegas. Pensei: vai sobrar para mim esta encrenca.
Na concentração da Lagoa, à noite, na ponta de uma longa mesa de jantar, os jogadores iniciaram as provocações pra cima do Andrada.
Toda hora alguém chamava o massagista Chico, pra renovar o gelo colocado no tornozelo do goleiro. Beneti insinuava que ele estava pipocando.
Adilson ia mais longe:
“Hei, gringo! Tá com medo? Não tem problema: o Valdir joga, já entrou pra história mesmo com aquele gol contra. Este não vai fazer diferença!”.

O jogo
Quarta-feira à noite, nos vestiários do Maracanã, Andrada submeteu-se a um teste, supervisionado pelo doutor Arnaldo Santiago. Era evidente o seu nervosismo.
Falou mais alto o profissionalismo; ele decidiu jogar. E como jogou! O clima no maior estádio do mundo era de festa: quase 70 mil pagantes, devia ter uns 30 mil a mais, entre autoridades e caronas.
Os dois times entraram em campo lado a lado, liderados pelos seus capitães, empunhando a bandeira brasileira.
Perfilados, ouviram o hino nacional.
No banco de reservas, ficamos admirados ao ver o diretor Iraci Brandão disfarçar, embaixo dos braços, uma camisa branca do Vasco com o numero 1.000. Era mais um que torcia pelo milésimo acontecer naquela noite.
O jogo teve início e desde cedo ficou visível a falta de colaboração dos jogadores vascaínos: primeiro Beneti, abrindo o placar na primeira etapa; e principalmente o goleiro Andrada, que pegou tudo e fez a maior defesa que eu já presenciei no Maracanã. Pelé limpou a jogada pelo lado direito da grande área do Vasco. Andrada deu dois passos à frente, posicionando-se para defender um possível chute forte. O gênio meteu uma curva de fora para dentro, com o lado externo da chuteira, em direção ao ângulo superior direito da meta do arqueiro. Com um salto fantástico, Andrada saiu do solo para espalmar de mão trocada a bola que parecia inapelável.
No segundo tempo, o zagueiro René, para impedir o gol de Pelé, não teve dúvidas: antecipou-se ao atacante e fez contra (e de cabeça!) o gol de empate do Santos. Aqui não!
Jogo que segue.

O pênalti
O Vasco pressionou e o árbitro deixou de marcar um pênalti a nosso favor, gerando protestos de todo o time. Manoel Amaro mandou seguir a jogada e, no contra ataque, não titubeou em marcar uma penalidade máxima aos 32 minutos, extremamente duvidosa, de Fernando em Pelé.
Afinal, o pernambucano Manoel Amaro também estava louquinho para entrar para a historia e se imortalizar, às custas do Rei.
Bola na marca fatal. O público emudeceu.
Os jogadores do Santos se posicionaram no centro do gramado.
Pelé deu apenas três passos... e fuzilou, com perfeição, o arco do Andrada, que saltou como um felino para o canto esquerdo e passou roçando os dedos da luva na bola, que foi se aninhar no fundo do barbante, da baliza à esquerda da tribuna de honra do Maracanã. Seus punhos socaram o chão, inconformado por levar o gol que o colocaria para sempre na história do futebol mundial.
Logo ele, cujo maior desejo era entrar para o hall da fama como o melhor goleiro a vestir a camisa número 1 vascaína.
Pelé buscou a bola no fundo do arco e a beijou.
O jogo parou. O gramado foi invadido por uma legião de repórteres. Pelé dedicou seu gol às criancinhas, e foi carregado nos ombros dos companheiros. Chico vestiu a camisa do Vasco em Pelé que, com ela, deu a volta olímpica no gramado do Maracanã.
Após uma longa pausa para as comemorações, o jogo chegou ao final com poucas emoções. Aliás, tivéramos muitas para apenas uma noite.

Conseqüências
Assim, naquela quarta feira, entraram para a história: o milésimo gol de Pelé; e Andrada, que ganhou o título de O Arqueiro do Rei.
O atacante Acilino, do Vasco, mesmo derrotado, comemorou o seu aniversário. O Dia da Bandeira passou em branco. E poucos deram importância a Apollo 12, que (dizem!) pousou no Mar das Tempestades, quando mais dois americanos (Paul e Ringo, quem sabe?) pisaram o solo lunar.
O árbitro Manoel Amaro declarou que já podia encerrar a carreira porque apitara o jogo mais importante do Século XX.
Chico conseguiu uma das três bolas usadas no jogo (a do milésimo gol, Pelé guardou!) e uma camisa 10 do Santos dadas pelo Rei, devidamente autografadas.
Hoje, o próprio Pelé ignora onde foi parar a camisa 10 do Vasco com o numero 1.000.

O filho
Na comemoração dos 30 anos do milésimo gol, Pelé e Andrada reviveram no Maracanã aquele duelo. Pelé teve que repetir a cobrança do pênalti porque, na primeira, Andrada pegou.
Pelé se queixou:
“Pô, gringo! É para repetirmos o lance!”.
Andrada, muito sacana, emendou:
“Tá difícil, amigo... Agora, eu já sei o canto que você vai chutar!”.
Naquele mesmo dia, falei pro Andrada, no Rio:
“Gringo, tu devias agradecer todos os dias: não por ter levado o milésimo gol, mas porque tu quase defendeste aquele pênalti!”.
“Como assim, Valdir?”.
“Tchê, aquele gol passa toda hora na televisão... Imagina o teu filho, em casa, lamentando:
Carajo, papá! No saliste en la película... Saltaste para el otro lado, mientras la pelota se fué para el lado opuesto”.

5 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
O "Gringo", grande Andrada o "Arqueiro do Rei" com muita satisfação hoje. O maior goleiro da época, contra o maior jogador, nada mais justo. O Andrada estava até cotado para a copa do mundo de 70 - chegou a se naturalizar por isso. Um detalhe aqui em Blumenau, a quem jure que os 5 gols atribuído a Pelé contra o Olímpico em 1961, um foi do Formiga, então quero dizer com isso, que o milésimo foi preparado para este dia e é simbólico, o correto jamais saberemos.
Em seu relato sobre o jogo na Paraíba, já demonstrava que não queriam que Pelé anotasse o gol naquele dia ou seja o milésimo, foi até para o Gol, caso contrário o goleiro deixaria passar mais um. No Maracanã, a casa estaria cheia e tudo preparado. Este era o palco ideal para esse acontecimento, até porque o Homem estava descendo a lua pela segunda vez, nada mais romântico e sugestivo.
Tudo conspirava para que Pelé fizesse o milésimo naquela noite, diretores do Vasco, Juiz, jogadores do Vasco, e toda a torcida do Flamengo....bem feito para eles....não acreditar neste fato é a mesma coisa que não acreditar que naquele dia ou noite o homem estava descendo na lua com a Apollo 12.
É Valdir o grande Andrada sofreu muito na época, mas hoje é ainda mais lembrado por isso...e quase que foi você né? como seria bom para nosso futebol catarinense....
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história

Mauro disse...

Valeu, Valdir, sempre vale a pena repetir as otimas historias sobre o milesimo gol. E por isso repito, com outras palavras, o que escrevi nesse blog nesta data no ano passado: O penalti do Fernando sobre o Pele' foi ainda menos penalti do que o suposto penalti sobre o Ronaldo no Corinthians x Cruzeiro de sabado passado.

Desejo um feliz aniversario ao Acilino, que nas noticias dos jornais e escalacoes sempre aparecia como Acelino.

Um abraco,

Mauro

anderson santos disse...

PARABÉNS VALDIR MUITO INTERESSANTE ESSE SEU BLOG, PESQUISANDO SOBRE O MEU QUERIDO BONSUCESSO, CONSEGUI ACHAR ESTE.
VI QUE NO LIVRO, GOLEIRO ACORRENTADO, TEM UMA BANDEIRINHA DO BONSUCESSO BEM ALI NO CENTRO DA IMAGEM. TE PERGUNTO, SE O RUBRO-ANIL TEM PARTICIPAÇÃO NESTE LIVRO? E SE TEM COMO FAÇO PARA REGISTRAR ALGUMAS HISTÓRIAS? SE TIVER COMO ENTRAR EM CONTATO COM VOCÊ, MEU E-MAIL É andersanttos@gmail.com
MUITO BOM O BLOG, E VI QUE TEM UM LEITOR DE PESO, GRANDE IATA ANDERSON (QUASE CHARA), QUE TENHO O PRAZER DE ESCUTA-LO, TODOS OS DOMINGOS NA SUPER RADIO TUPI, ABRAÇOS.....!!!!

Anônimo disse...

Ola' Valdir,

No Programa do Jo na semana passada, quando o Pele' foi entrevistado, chamaram a atencao para um detalhe pouco notado no milesimo gol: Na hora em que a bola entra no gol, um jogador do Vasco salta com os dois punhos erguidos, como se estivesse comemorando. Nao creio que tenha sido essa a motivacao do gesto, mas foi interpretada assim no programa. Voce saberia identificar quem foi aquele jogador? Na hora eu nao consegui e nao tive chance de rever o video.

Um abraco,

Mauro

Mauro Prais disse...

Ola' Valdir,

Bem que eu desconfiei que tinha alguma coisa diferente. O pior e' que o proprio Pele' caiu na pegadinha. Disse ate' que ia procurar saber quem foi o jogador que comemorou para enviar um agradecimento a ele.

Valeu pelo esclarecimento. Um grande abraco,

Mauro

On Tue, Nov 22, 2011 at 4:37 AM, Valdir Appel wrote:
Mauro, assista outras gravações do milésimo no you tube, você verá que o jogador do Vasco, quando a bola entra, coloca as mãos na cabeça inconformado.
Comparando imagens, me parece montagem a imagem no Jô.
Abraço,
Valdir