sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Preparativos para a semana do milésimo gol

A incrível noite do Rei, HISTÓRIAS DA BOLA

Pelé recebe bola na intermediária, livra-se de quatro e marca gol de placa em Brasília.


O Estádio Mané Garrincha ainda chamava-se "Silveirão" – homenagem ao então governador Hélio Prates da Silveira –, e milhares de torcedores quebraram os portões ou pularam o muro. Irritado pela lentidão nas bilheterias, o povão queria ver o "Rei" em campo, pelo Santos, no dia 20 de março de 1974, contra o Ceub, pelo Campeonato Nacional. Na véspera, o técnico do extinto time candango, Cláudio Garcia, dissera à imprensa que Pelé não era mais o mesmo e só seria marcado por quem estivesse no lance. Pensando assim, Cláudio nem fizera treinos específicos de "segura o homem" durante a semana.
Antes de a bola rolar, o Ceub homenageou o "Rei". Em seguida, o lateral Rildo, que fora seu companheiro no Santos e na seleção brasileira, o apresentou aos ceubenses. "Naquele papo, o Pelé nos avisou que ficara aborrecido com as críticas do Cláudio e iria respondê-lo. Imaginando o que viria, brincamos com ele, pedindo para deixar as ameaças de lado", conta Péricles Carvalho, o Pezão, hoje comentarista esportivo. Naquela noite, ele estava na reserva, lesionado no joelho direito.
O goleiro Valdir Appel também ouviu queixas, mas do ponta-esquerda santista Edu ao lateral ceubense Rildo: "Seu treinador falou o que não devia. O Negão, sozinho, vai trucidá-los. Ele tá uma fera", lembra Valdir, do papo.
Com 22 anos e esbanjando energia, o xerifão da zaga do Ceub, Pedro Pradera, o Pedrão, fez a sua parte. Fungou no cangote do "Rei", arrepiou, tentou intimidá-lo. Mas não era por ali. Sobrou para o volante Alencar e o meia Renê. Cansado do estafante trabalho que fazia, Renê pediu ao colega para trocarem de função. "Eu precisava respirar um pouco. Tava bravo", justifica o proprietário de um mercadinho, em Taguatinga.
No instante em que o meia e o volante combinavam o que fariam, Alencar vacilava, Pelé recebia um passe, livrava-se de Pedrão e lançava Nenê, livre, pela esquerda do seu ataque: Santos 1 x 0, aos 20 minutos do primeiro tempo. Era a primeira resposta do "Camisa 10" a Cláudio Garcia, ex-meia do Fluminense.
Lateral entrega
O passe de Pelé para o gol de Nenê gerou um fato interessante. O árbitro, Arnaldo Cezar Coelho e um auxiliar entreolharam-se, inseguros. Só confirmaram o tento quando Rildo foi ao fundo da rede, consertá-la. "A bola furou o barbante e parou quase na bandeirinha de escanteio. Foi um chute forte e cruzado, no meu canto esquerdo", lembra Valdir Appel, o goleiro do Ceub. Ele não se esquece também da bronca dada no seu lateral-esquerdo, que havia jogado ainda no Botafogo de Garrincha. "Logo tu, Rildo?", conta Valdir, hoje colunista esportivo na catarinense Jonville.
"Pra suas negas"
O público estava impaciente, querendo ver um gol de Pelé. Por duas vezes, o "Rei" ficara cara-a-cara com o goleiro Valdir, mas este chegou primeiro na bola. "Evitei dois gols saindo embaixo, no chão, para impedir o chute", recorda o ex-goleiro, que fora titular no Vasco.
Quando Pelé tocava na bola, a galera se agitava. Em seis lances, ele viu o zagueiro Pedro Pradera chegando. Malandro, evitava o corpo a corpo e lançava um companheiro. Antes de um desses lances, o Ceub fez falta na entrada da área. Pelé discutiu com Rildo e ameaçou: "Já que o seu técnico me esculhambou, vou acabar com este seu timinho".
Pra mostrar quem mandava na área, durante aquela catimba, Pedrão chegou nos ouvidos do "Rei", berrando: "Baixe a bola, rapaz. Ninguém aqui está com medo, não. Você pode ser bom pra suas negas". A frase ganhou várias versões, virou folclore. Enfim, a turma do deixa-disso calou o bate-boca e Pelé saiu encarando Pedrão e Rildo, como se seus olhos lhes dessem um aviso fatal.
O lance que encantou a torcida
O Ceub atacava e seus zagueiros subiram até o meio do campo. Pedro Pradera ficou no circulo central e Emerson quase na lateral esquerda. Quando o Santos recuperou a bola, o lateral-direito Hermes esticou um passe para Pelé, que estava também na altura da linha divisória, perto de Emerson. O "Rei" voltou ao seu campo para receber a bola. Emerson tentou dar o combate, mas o camisa 10 girou o corpo para a esquerda e deixou a bola passar, para dominá-la quase rente à linha lateral, no campo do Ceub, onde livrou-se de Rildo.
Como um raio, Pelé subiu em diagonal para a área brasiliense, sem que ninguém o alcançasse. Enquanto ele atacava, a torcida se levantava. "Eu também parti em uma diagonal, tentando chegar junto do Pelé. O Valdir não esperou a conclusão do lance e também saiu pra cima dele, que deveria ter chutado com a perna direita. De fora da pequena área, do lado direito do seu ataque, o Pelé deu um toque genial na bola, com a perna esquerda, e a danada passou entre eu e o Valdir, que trombamos. Ficamos caídos, vendo-o vibrar", relata Pedrão, hoje professor de Educação Física.
Pedrão perdeu aquele lance, mas, no dia seguinte, Rildo levou-lhe uma camisa autografada e um par de chuteiras Puma, o máximo da época, com um recado de Pelé: "Diga ao garoto que ele tem um grande futuro".
Pradera mostra onde aconteceu
  O ex-goleiro Valdir acrescenta mais um detalhe ao lance: "O Pelé tirou-me         da bola com uma finta de corpo, mandando-a por cima do meu corpo e para o canto esquerdo. O Pedrão, que vinha na cobertura, errou o alvo e acertou a minha canela. Caído e sentindo dores, gritei: "Pedrão, você tem que pegar a         canela do Pelé, e não a minha!", brinca. Já Emerson revela que a volta feita pelo "Rei" no começo do lance fatal, o enganando, não era previsível. "O normal seria ele dominar a bola. Depois, não deu mais para alcançá-lo", garante. 

Uma lição diferente do Atleta do Século
O zagueiro Emerson Braga, hoje gerente comercial de uma grande empresa, conta que a semana do jogo contra o Santos foi de muita expectativa. "Jogar contra Pelé motivava", jura. Ele só não esperava que, durante a partida, o "Rei" pudesse interromper um lance com boas perspectivas de sucesso para socorrer um adversário. "O Alencar tinha o problema de um dos seus braços cair (ombro deslocado). Pois o Pelé desprezou uma jogada para atendê-lo", lembra Emerson, que viu também Léo chutar, da intermediária, aos 23 minutos do segundo tempo, e fazer o terceiro gol santista – Gilberto, aos 32, de pênalti, cometido por Oberdan, fez o do Ceub.
Além do gol de placa, Pelé ainda brindou os torcedores brasilienses com um outro lance mágico. Péricles é quem narra: "Próximo da linha lateral esquerda da defesa do Ceub, na mesma rota por onde passou na jogada do gol de placa, Pelé recebeu uma bola e, pressentindo que o Dario (ponta esquerda) chegaria nele, crioum magistralmente. Deu um totó na bola, jogando-a por entre as pernas do Dario. Foi um lance lindíssimo. A galera delirou", relata o Pezão.

7 comentários:

Osvaldo disse...

Valdir;

Que maravilha de narração.
Por momentos até eu me senti dentro do campo tentando parar Pelé.

Obrigado por tão belas histórias.

Um abraço, amigo Valdir.
Osvaldo

Adalberto Day disse...

Valdir
Mais uma bela lembrança quando estamos próximo do dia 19 de novembro, pois esta data em 1969 fez o tão esperado 1000 gol. E foi contra nosso vascão, na verdade tudo preparado para que fosse neste dia e no maracanã. ó quem não gostou na época foi o nosso grande goleiro Andrada, ficou fulo da vida, ao ser dado aquele penalti arranjado....(será) para mim sim. Mas foi bom que foi contra o Vasco, apesar do Andrada ser imotalizado com o nome de "arquiro do Rei" e ficar chateado na época, hoje fala com emoção sobre isso e é uma forma de nunca ser esqucido, pelo menos foi isso que Andrada me comentou em 2006. Agora Pelé é Pelé, e no Brasil jogou três vezes com a camisa do Vascão, e nessa contagem constam três gols, na computação dos 1000 gols, portanto parabéns ao nosso Pelé, que no Brasil foi a equipe depois do Santos que mais vestiu a camisa.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

Roberto Vieira disse...

Golaço de Pelé? golaço de Appel!!

Iata Anderson disse...

Amigo Valdir

Muito interessante essa (mais uma) história do rei. Com absoluta certeza enriqueceu seu ótimo blog e a literatura esportiva.
Como esses lances, milhares de histórias poderiam ser contadas, mas falta tempo para isso. Gostaria muito de escrever
um livro sobre a vida do Pelé, dentro de campo. Vou ver se consigo.

Grande abraço
Iata Anderson

Antonio Estevam Neiva disse...

Valdir,

O nome do estádio não era PELEZÃO?
É o seguinte, eu acho, tinha o Pelezão, que ficava por trás do Park Shopping- na avenida que segue para o Núcleo Bandeirante, antiga "Cidade Livre", e foi demolido há uns 2/3 anos para a construção de um condomínio de luxo, onde tenho dois primos morando.
Depois, eu acho, construiram o Mané Garrincha, que fica no eixo monumental, no sentido Congresso/Rodoviária, no lado esquerdo após a torre de televisão.
São apenas detalhes, que em nada diminuem o texto super interessante.
O episódio com o zagueiro lembra o que dizem ELE teve com o Fontana.
Rapá, já procurei, procurei, procurei, pesquisei em tudo, e não acho imagens do campeonato carioca de 1970.
Me dê uma sugestão onde achar algo.
Outra coisa, que tal um texto falando sobre a década perdida do Vasco, que não ganhou quase nada de 1959 a 1969.
Abração.
Saudações vascaínas.

PS: o Vascão é quem vai decidir o Brasileirão desse ano. Explico: vai jogar contra o CURINTHIANS- com U mesmo, e contra o Cruzeiro.
Ou seja, Fluminense, Cruzeiro e o Timinho estão dependendo do Vasco.
Eu adoro quando o Vasco bota areia ou gosto ruim na comida alheia.rsrsrsrsrsrsrsrsrsr

Valdir Appel disse...

Catia,
Fico feliz quando minhas historinhas resgatam pessoas especiais como o teu pai. Eu o admirava muito.Abraço,

Valdir Appel disse...

Catia,
Fico feliz quando minhas historinhas resgatam pessoas especiais como o teu pai. Eu o admirava muito.Abraço,