sexta-feira, 3 de outubro de 2014

 
Gentil Cardoso, Valdir, Franz, Brito, Oldair, Luizinho e Zézinho. Ginásio cruzmaltino., 1967
Gualicho*
Por Valdir Appel

Em 1967, Mané Garrincha já não era o mesmo.
Sem clube, sem oportunidade, desacreditado.
Mas, um pedido comovente dos jogadores vascaínos, liderados por Brito, nosso capitão, convenceu os dirigentes e o técnico do clube, a dar uma nova oportunidade ao genial ponta direita.
Terça-feira.
Mané chegou com seu andar torto.
Trajando camisa aberta no peito, bermuda e chinelo de dedo.
Nos vestiários, vestiu seu agasalho de plástico escuro.
A chuva lá fora nos tirou o gramado, e o treino foi transferido para o ginásio.
O espaço menor aproximou o grupo.
As ordens de Gentil Cardoso eram passadas ao pé do ouvido.
O cone com o desenho da cruz e malta não teve o costumeiro uso.
O megafone ficou, largado, oscilando junto ao corpo do técnico.
Lado a lado corríamos.
Manquitolando, Mané Garrincha faz par com Brito.
As bochechas enormes, as pálpebras caídas, os ombros pesados, denunciavam o seu pesadelo.
O plástico de seu esquente, derretia o excesso da noite mal dormida, na sua rotina noturna - madrugada de doses de traçado, ao som da voz rouca de sua amada Elza, nas boates de Copacabana.
O inicio dos trabalhos no clube eram cegos para a necessidade de descanso do craque.
Muito cedo, para fazê-lo entrar em forma.
E naquela manhã não seria diferente. O espaço menor não diminuía o tempo de esforço.
Mais voltas para compensar os limites do ginásio, e quebrar o pouco da resistência que sobrava ao Anjo Torto.
Naquela manhã, corríamos em silêncio.
Um pouco pelo tempo fechado e escuro, que nos manteve contidos.
As brincadeiras sem graça foram substituídas pelo sopro de cada um para o atleta cansado.
Sopro de respeito, de reconhecimento e de vida, injetado com vigor, para reerguer o mito Gualicho*.
Após as insuportáveis e intermináveis voltas, a ordem de parar, nos jogou ao chão.
Em circulo.
Para a seção de ginástica, e suas longas sequências de exercícios localizados.
Mané puxou com dificuldade uma perna para abraça-la. Depois a outra.
Estava ao lado do pássaro ferido, e não pude disfarçar a lágrima que desceu pela minha face.
Mané já não esperava a volta do adversário para dribla-lo de novo.
A vida já o driblara.
Só que ele ainda não sabia.

*Gualicho- Apelido do Garrincha antes da fama. Gualicho, cavalo argentino ganhador de Grandes Prêmios no Brasil, nos anos 50.

6 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Que maravilha, ler sobre Garrincha.
Garrincha o maior ponteiro direito de todos os tempos. Quantas saudades.
Esse apelido eu desconhecia ou então não lembrava.*Gualicho- cavalo argentino ganhador de Grandes Prêmios no Brasil, nos anos 50.
Mas Garrincha é Garrincha o grande jogador. E nem que tenha sido uma vez , vestiu a camisa do meu Vascão. E em 1969 do Olímpico de Blumenau também.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da História em Blumenau

Edgar Mattos disse...

Testemunhar o ocaso de um gênio como Garrincha deve ter sido muito constrangedor. Mas, valeu o depoimento tão melancólico quanto verdadeiro.

Roberto Vieira disse...

A lágrima também me visitou, Mestre...

Antonio Estevam disse...

Valdir,

Melancólica parte da vida do Garrincha.
Ele chegou a jogar em Bacabal/MA e Imperatriz/MA.
Tive oportunidade de vê-lo no Pelezão em BSB/DF, jogando pelo Flamengo, num amistoso com o Grêmio.
Vc já leu o livro do Rui Castro sobre a vida do Mané?
Se não leu dê um jeito de ler. É ótimo.]
Pbns.
Saudações vascaínas.

Ricardo Engel disse...

Caro Valdir,
Suas crônicas são sempre mais geniais, para orgulho e admiração de seus amigos!
Mais uma 'grande defesa' de um goleiro (des)acorrentado!
Belíssimo texto, parabéns!
Ricardo

Dario da Silva disse...

Abraços Amigo Valdir.
É muito triste, ver estas imagens após enchente do Estádio Augusto Bauer. Este local que já foi palco de grandes jogos de futebol. Jornadas esportivas que eu tive o privilégio de viver. Um deles; Carlos Renaux 5 Botafogo 5, com Garricha, Nilton Santos, Teixeirinha, Petrusky e outros craques da época.
Bons tempos aqueles, mas também tinha enchente.