domingo, 14 de setembro de 2014

Meu tio
Nos arredores de Brusque, todos sabem que os irmãos, Herbert, China, Osvaldo e Heinz, jogaram muita bola. Exceto minha tia Gerda e o meu tio Gerhard.
Também pudera. Gerhard sempre foi o irmão mais esperto da família, e compreendeu desde cedo que este negócio de jogar bola não dava camisa pra ninguém.
Tô falando de 50 anos atrás.
De empregado a empresário bem sucedido, foi um já, e assim meu tio passou a dividir o seu tempo disponível entre três paixões: a indústria de toalhas Appel, a família e o Paysandú.
Poucos foram os dias da sua existência em que não varou os portões do clube alviverde depois de um estafante dia na empresa e antes do regresso ao lar.
Compunha, com o primo Arthur e os amigos Orlando, Polaco e Bruno Maluche, um grupo que dava a alma, o suor e o dinheiro para manter a estrutura do “mais querido”* em pé. Contratavam jogadores e treinadores, promoviam rifas, e organizavam festas para levantar os recursos necessários para movimentar o clube.
Gerhard era também um gozador emérito e os mais incautos caíam frequentemente nas suas histórias.
-E aí, seu Gerhard?
-Nunca mais vi o João por aqui. Tens notícias dele?
-Tu não soube?
-Oquê?
-Tá internado no hospital de Azambuja.
-Não brinca!
-Teve um mal súbito.
E assim, mais um crédulo rapaz se dirigia ao hospital para ter notícias do amigo.
Amigo este gozando merecidas férias na praia.

O local preferido do Gerhard no clube não era bem a imponente sede social, e sim o espaço reservado para o dominó, bolão e a bocha, localizado embaixo da arquibancada. Ali jogava seu dominó e praticava também o bolão, reunia amigos, torcedores e empresários para confraternizar.
Certa noite, pediu desculpas a um empresário paulista porque teria que abandonar o happy hour mais cedo. Explicou que alguém estava comendo suas galinhas na fazenda e ele queria dar uma incerta para pegar o autor em flagrante.
O cara perguntou:
-O senhor desconfia de alguém, seu Gerhard?
-Sim! Do galo.

Meu tio e minha tia Adelgundes retornaram de um longo tour pela Europa e África.
No Paysandú, os amigos de papo e de copo René e Mário Santos o aguardavam, ansiosos, para ouvir os detalhes da viagem contados, entre goles de Brahma e nacos de linguiça como tira gosto, pelo viajado Gerhard.
-O que mais te impressionou na viagem, Gerhard? Perguntou Mário.
-A zebra. Fiquei tão encantado com o animal que comprei uma, a despachei para o Brasil e já esta devidamente instalada na minha fazenda.
-Mas Gerhard, como você conseguiu? E os papéis, a liberação....????
-Pra sorte, o Wili estava na excursão. Fiscal do Ibama, sabe como é, facilita nos trâmites. Respondeu meu tio.
Incrédulos e curiosos, René e Mário fizeram questão de marcar uma visita à fazenda para conhecer a zebra.
No dia seguinte, bem cedo, meu tio foi até a fazenda e orientou o caseiro para a possível visita dos amigos.
Naquela tarde, Mário e René apearam no local.
O caseiro explicou que os dois teriam que percorrer os morros em busca do animal listrado, que não tinha um lugar certo para ficar.
Anoitecia quando os dois amigos, trôpegos e cansados, desistiram de procurá-lo.
Por mais que alguns amigos tentassem explicar que aquela história era outra sacanagem do Gerhard, o crédulo Mário ainda levou tempo querendo voltar para encontrar a zebra, mas o René ficou pelo menos uns dois meses sem ir ao clube para evitar as gozações.

Foto 1-Séde do Paysandú, anos 50 (foto de: Érico Zendrom).
Foto 2-Confraternização dos dirigentes paysanduanos. Gerhard é o terceiro em pé, da esquerda para a direita.
*Paysandú

4 comentários:

Antonio Estevan disse...

Valdir,

Deu "zebra" e o cara não achou o equino.
Abração.
Antº Estevam

PS: e o "garoto" Viola, como vai?

Adalberto Day disse...

Valdir
Eu já nem sei mais o que escrever, me enche os olhos de ler suas histórias do cotidiano do Futebol.
Só temos que lhe agradecer por nos trazer esses fatos, que assim não ficarão escondios ou esquecisos.
Parabéns
Adalberto Day cientista social e pesquisador em Blumenau

Roberto Vieira disse...

A do Galo comendo as galinhas entra pro repertório... fantástico!

lucidio@jsinet.com.br disse...

Uma cliente amiga voltando de uma ida a São Paulo, há uns três anos, trouxe-me de presente uma toalha de banho Appel. Tenho ela guardada como lembrança. Valdir: o time do Vasco entrando em campo. Que jogo é esse? O estádio? E o menino ao seu lado, que é ele?