quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Salada de frutas, cafezinho e uma contusão. Parte 2



Salada de frutas, cafezinho e uma contusão.
(Os bastidores de uma decisão: Roberto Gomes Pedroza de 1968*)

(2º jogo: Vasco x Internacional RS)
Domingo, contra o Internacional, era tudo ou nada. Teríamos que ganhar o jogo e torcer pro Santos ganhar do Palmeiras. Estes resultados combinados nos dariam a chance de tentar a vitória e o título contra o Santos.
A semana foi complicada. Paulinho de Almeida se mostrava irritado com a perda do jogo pro Palmeiras e o número de jogadores contundidos.
Na última hora, fui escalado no lugar do Pedro Paulo. Alteração não muito bem explicada, diga-se de passagem.
Já estávamos colocando o material de jogo no vestiário do Maracanã quando Fontana, deitado na mesa de massagens, surpreendeu a todos:
“Vocês já me perguntaram se eu tenho condições de jogar?”
Na véspera e até a chegada ao Maracanã, não havia dúvidas quanto à presença dele no time. Daí a surpresa. Falou que sentia dores no joelho e foi vetado pelo médico.
Imediatamente, Paulinho mandou Moacir para o aquecimento.
Naquela altura já sabíamos que o Santos vencia o Palmeiras em São Paulo por 2 a 0. O jogo na capital paulista começara bem antes. Portanto uma vitória contra o colorado gaúcho nos levaria à decisão contra o Santos na última partida. O presidente Reinaldo Reis foi ao vestiário e ofereceu um bicho de Ncr$ 1.500,00 em caso de vitória.
O jogo contra o Internacional foi duríssimo, pegado. Chegamos aos 3 a 0 de forma surpreendente e a torcida ensaiou olé. A provocação mexeu com os brios gaúchos.
O Vasco tocava a bola para passar o tempo de forma errada: ao invés de segurar a bola na frente, tocava da frente pra trás. Nado para Danilo, Danilo pra Moacir, Moacir pra mim.
O Inter, incomodado, tratou de encurralar a gente e passou a agredir.
Diminuiu com Claudiomiro e encostou no marcador com um golaço de Tovar do meio da rua - tô voando até hoje – e quase chegou ao empate.
Paulinho de Almeida, possesso na boca do túnel, deu graças a Deus quando o jogo acabou.
O bicho foi pago nos vestiários como prometido e Paulinho liberou a rapaziada pro “bagaço”.
A reapresentação em São Januário ficou para as 10 horas de segunda feira.
Fontana surpreendeu ao se apresentar em São Januário com a sua valise de mão, dizendo-se apto e pronto para enfrentar o Santos. Paulinho, que não era de fazer doce com ninguém, mandou ver:
“Senhor Fontana, o senhor não está relacionado para o jogo. Eu não acredito que o seu joelho tenha melhorado de ontem para hoje. Vai jogar o Moacir”.
Fontana saiu cuspindo fogo. Comentou com os setoristas do clube que o técnico estava protegendo Moacir. Um jogador inexperiente.
“Isso é jogo pra mim”!
Após a revisão médica e treino para aqueles que não jogaram, iniciamos a concentração no Hotel das Paineiras.

(Continua)


Ficha do jogo:
Vasco 3 x 2 Internacional RS
Local: Maracanã – Renda Ncr$ 73.453,75 – Público 30.554 e 10.421 menores
Gols: Valfrido aos 23 do 1º tempo. Final: Danilo Menezes aos 27 e Nado aos 33;
Claudiomiro aos 35 e Tovar aos 42 minutos.
Vasco: Valdir, Ferreira, Brito, Moacir e Eberval; Alcir e Benetti (Buglê); Nado, Valfrido, Bianchini e Danilo Menezes (Adilson).
Internacional: Gainete, Lauricio, Scala, Pontes e Jorge Andrade; Élton (Tovar) e Dorinho; Valdomiro, Bráulio, Claudiomiro e Canhoto (Balzareti).
Juiz: Arnaldo César Coelho auxiliado por Emídio Mesquita e Oscar Scolfaro





2 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Lembro bem desse jogo também. Um jogo que parecia fácil ao Vasco, acabou quase cedendo o empate. Esse goleiro Gainete, Catarinense de Florianopólis. também jogou no Vasco nos anos 60. Interessante que os dois goleiros desse jogo eram de Santa Catarina, você pelo Vasco e o Gainete pelo Inter.
Um abraço
Adalberto Day cientista social e pesquisador da História em Blumenau - www.adalbertoday.blogspot.com

Mauro disse...

Valdir,

A história do nosso Vasco é repleta de vitórias construídas na base da raça e amor à camisa. Incluo nessa lista essa vitória contra o Inter, quee teria sido uma das mais empolgantes de todos os tempos se o time não tivesse parado cedo demais para esperar o apito final. Me lembro que nesse jogo a torcida do Vasco fechou o anel das arquibancadas, coisa que eu via pela primeira vez na vida - chegava a ser estranho ver aquele mar de bandeiras cruzmaltinas no lado oposto, atras do gol da Quinta da Boa Vista, como dizia o Waldir Amaral. No terceiro gol, o do Nado, o Maracanã parecia vir abaixo, não só pelo resultado surpreendente, como tambem pela forma como o gol aconteceu. Você deve se lembrar do coro que a gente cantava nessas horas: Olê, olá, o nosso Vasco tá botando pra quebrar. Eram outros tempos. Na versão atualizada, inverteram o olá com o olê... No final, a vitória que parecia garantida esteve por um fio e trouxe a galera de volta à realidade de que dificilmente tiraríamos o título do Santos.

Entendo que a ética talvez não lhe permita fazer conjeturas sobre o motivo da barração do Pedro Paulo e a conseqüente elevação sua à condição de titular. A explicação pode não ter sido tornada pública, mas acho que a torcida (eu inclusive) não teve dificuldade em adivinhar, já que o até então titular não vinha mais exibindo a mesma segurança, principalmente nas bolas cruzadas. Mas pode ser que, além do critério puramente técnico, o Paulinho tivesse a intenção de preservar o rapaz, haja visto as falhas clamorosas cometidas na partida anterior contra o Palmeiras.

Fico-lhe grato por me ajudar a reviver essas belas lembranças de infância.