terça-feira, 20 de março de 2012

Yashin, O Aranha Negra

Yashin
Um dia, resolvi acabar com o culto ao eterno traje cinza utilizado pelos goleiros vascaínos. Tradição que vinha desde os tempos do Barbosa. Mandei confeccionar uma camisa preta e bordar a cruz de malta no peito. Comprei meias e calções da mesma cor. Este uniforme era inspirado no lendário goleiro soviético Lev Yashin, que eu idolatrava e quem eu estava prestes a enfrentar. Antes do Carnaval de 1969, embarcamos para Caracas, na Venezuela, para realizar dois amistosos. Os sambistas e passistas Alcir e Brito, viajaram preocupados. Não queriam, de forma nenhuma, perder o desfile das escolas de samba na Presidente Vargas. Geralmente, saíam na Portela e na Mangueira.
O técnico Pinga levou a força máxima. As partidas serviriam para definir o time que iniciaria o campeonato carioca O primeiro jogo seria contra o Dínamo, de Moscou. A equipe soviética tinha em seu elenco grandes nomes da seleção soviética e a sua grande estrela era o goleiro Yashin. Considerado o melhor camisa 1 de todos os tempos. Impressionava pelo porte físico. Com 1,88 metro de altura e longos braços, trajando negro, o apelido Aranha Negra era perfeito. Estava com 39 anos e em grande forma. Encerraria a carreira dois anos depois. Na imprensa local, circulavam boatos de que havia um plano para seqüestrar o extraordinário goleiro, que recebeu proteção 24 horas das autoridades venezuelanas. O hotel que hospedou a nossa delegação, colocou à disposição belas recepcionistas, que fizeram questão de nos mostrar as atrações noturnas de Caracas. Fomos a luxuosíssimas discotecas que exigiam dos freqüentadores o uso de paletó e gravata. O novo uniforme do clube combinava uma calça cinza clara com um paletó azul marinho sobre a camisa branca, e uma bela gravata de seda de listras vermelhas e pretas. Bastava tirar do peito o boton da cruz de malta para que as portas se abrissem para homens elegantemente trajados. E a frouxa marcação da comissão técnica permitiu que circulássemos por várias casas, até por volta da meia-noite. Para o jogo, as equipes entraram perfiladas e os jogadores foram apresentados um a um à torcida local, que lotou o estádio para ver, principalmente, Yashin, já que na Venezuela o futebol era um esporte menor. Num país de forte influência da cultura americana, o basquete, o baseball e o futebol americano estavam furos à frente, na preferência do torcedor. Para se ter uma idéia desta apatia pelo soccer, o gramado do estádio municipal apresentava sulcos e visíveis demarcações utilizadas no baseball e no futebol americano, e ficavam evidentes as adaptações para a prática do nosso futebol. Feitas as apresentações, eu me dirigi com uma flâmula do Vasco na mão até o goleiro russo. Estava nervoso e emocionado. Estava frente a frente com o meu ícone e, não sabendo como cumprimentá-lo, arrisquei algumas palavras em inglês: “Hi! It is a great honor to know you. I would like to want you a good game”. Para minha surpresa, o goleiro respondeu em bom português: “O prazer é todo meu. Gosto muito do futebol brasileiro e do Vasco, mas torço pelo Flamengo. Boa sorte!”. Eu esquecera que o soviético, quatro anos antes, curtira as praias cariocas e dera aulas aos goleiros do Flamengo, adquirindo algum conhecimento da língua portuguesa. Afora o mico, fiz uma excelente partida, à altura do mestre, apesar da derrota por 2 a 0. Depois do jogo, Carlos Alberto Parreira, preparador físico e treinador de goleiros, sugeriu irmos juntos ao vestiário soviético, onde batemos um papo com o Aranha Negra e de lá saímos, orgulhosos, com o seu autógrafo na flâmula do Dínamo.

(Lev Yashin é o único goleiro a receber a Bola de Ouro como o melhor jogador da Europa, nasceu no dia 22 de outubro de 1929 em Mosco, na Rússia, e faleceu no dia 20 de março de 1990)

6 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Bela matéria, sobre o legendário Lev Yashin – o Aranha Negra, mas então é por isso que você usava a camisa Preta? Olha só “O Aranha Alemão Preto”.
Parabéns continuem assim com seus sempre exclentes texto, temos sim que fazer este trabalho para que fique registrado na História.
Adalberto Day cientista social e pesquisador em Blumenau

Anônimo disse...

Valdir,

Também sou da geração que aprendeu a admirar e respeitar o grande goleiro russo. Aliás, na época a Rússia tinha uma grande seleção.

Um grande abraço

Celso Pazinato

Anônimo disse...

Valdir,

Excelente o "causo".

Pena o Aranha Negra ter manchado a sua gloriosa
história futebolística com a predileção pela
"urubuzada".rsrsrsrsr

Antº Estevam

Anônimo disse...

O CHICO VC ERA BEM MELHOR QUE ESSE GOLEIRINHO.
TUDO BEM COM VC ?
ABRAÇÃO
PAULO MARCO$ KARRÁ

Mauro disse...

Valdir,

Convenhamos, o Aranha Negra nao teve uma noite das mais trabalhosas enfrentando aquele ataque do Vasco que ainda curtia uma ressaca da memoravel noitada em Caracas. Ou voce por acaso se recorda de alguma defesa dificil que ele tenha precisado fazer? :)))

Mas de fato a fama dele era enorme, e ainda permanece. Ele continua sendo o eterno melhor goleiro do mundo. So' tive a chance de ve-lo atuar uma vez, naquele empate entre Brasil e URSS no Maracana ao qual voce se referiu no texto sobre o Manga.

Sobre a camisa cinza do Barbosa, eu li uma vez que ele a usava por achar que era a cor que menos atraia a atencao do atacante, que entao teria mais dificuldade de chutar fora do alcance do goleiro. Por outro lado, ja' ouvi goleiros dizerem que uma camisa de cor berrante funciona como um alvo no inconsciente no atacante, que assim tenderia a chutar em cima do goleiro. A camisa preta esta' no meio termo... Sera' que o Yashin teria um motivo especial para se vestir de preto? Voce com a palavra.

quilombonnq disse...

REVOLUÇÃO QUILOMBOLIVARIANA! negro e futebol

Viva! Chàvez! Viva Che!Viva! Simon Bolívar! Viva! Zumbi!
Movimento Chàvista Brasileiro- Ações Afirmativas Afro –Ameríndia *Quilombismo *
A comunidade negra afros-decendentes brasileira
é solidaria e apóia o povo palestino Viva a Palestina!manifesto Quilombolivariano é a unificação e redenção dos ideais do grande líder zumbi do Quilombo dos Palmares a 1º Republica feita por negros e índios iguais, sentimento este do grande líder libertador e construí dor Simon Bolívar que em sua luta de liberdade e justiça das Américas se tornou um mártir vivo dentro desses ideais e princípios vamos lutar pelos nossos direitos e resgatar a história dos nossos heróis mártires como Che Guevara, o Gigante Osvaldão líder da Guerrilha do Araguaia. São dezenas de histórias que o Imperialismo e Ditadura esconderam. Há mais de 160 anos houve o Massacre de Porongos os lanceiros negros da Farroupilha o que aconteceu com as mulheres da praça de 1º de maio? O que aconteceu com diversos povos indígenas da nossa América Latina, o que aconteceu com tantos homens e mulheres que foram martirizados, por desejarem liberdade e justiça? Existem muitas barreiras uma ocultas e outras declaradamente que nos excluem dos conhecimentos gerais infelizmente o negro brasileiro não conhece a riqueza cultural social de um irmão Colombiano, Uruguaio, Venezuelano, Argentino, Porto-Riquenho ou Cubano. Há uma presença física e espiritual em nossa história os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma,Rafael Correa, Fernando Lugo não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendente busquem e tomem a autonomia para seus iguais, são esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. Neste 1º de maio de diversas capitais e centenas de cidades e milhares de pessoas em sua maioria jovem afro-ameríndio descendente e simpatizante leram o manifesto Revolução Quilombolivariana e bradaram Viva a,Viva Simon Bolívar Viva Zumbi, Viva Che, Viva Martin Luther King, Viva Osvaldão, Viva Mandela, Viva Chávez, Viva Evo Ayma, Viva a União dos Povos Latinos afro-ameríndios, Viva 1º de maio, Viva os Trabalhadores e Trabalhadoras dos Brasil e de todos os povos irmanados.
O.N.N.QUILOMBO –FUNDAÇÃO 20/11/1970
quilombonnq@bol.com.br