terça-feira, 21 de outubro de 2014

O clássico que não acabou.A semana do clássico ABC x América foi bastante tensa. A imprensa se esforçou bastante para promover o espetáculo. Polemizou, provocou, botando lenha e chamando o torcedor para lotar o Castelão.
Como se fosse necessário.
Qualquer jogo entre alvinegros e rubros já é o bastante para motivar o torcedor potiguar, imagine uma decisão de título estadual.
O América jogava pelo empate. Ganhou dois turnos contra apenas um do ABC. A Federação Norte Riograndense de Futebol trouxe um árbitro FIFA – José Faville Neto – de São Paulo, para garantir a neutralidade no apito.
Em campo, o que se viu foi um jogo equilibradíssimo, com a torcida abecedista priorizando vaias ao jogador Alberi do América.
Alberi, grande ídolo da “frasqueira”, se transferiu do ABC para o América naquele ano.
Aos 29 minutos do segundo tempo, o atacante Anderson do ABC foi expulso por revidar uma falta violenta do ponta esquerda Ivanildo “Arara” do América.
Anderson já estava deixando o gramado quando Zeca, meio campista do América, debochou:
“Joga nada!”
Foi o bastante para Anderson sair em perseguição ao Zeca e o sinal para o capitão do seu time, Pedro Pradera, dar voz de comando:
“Porraaaada!!!”
Pradera, um “armário” de quase dois metros, iniciou uma série de vôos rasantes, derrubando quem se aventurasse pelo seu caminho. Na verdade, ninguém se aventurava, era ele quem achava.
Foram atropelados e estraçalhados pelos pés e punhos do zagueirão: Olímpio, Zeca e Aloísio.
Joel e Argeu, os mais parrudos do América, também davam cascudos aqui e acolá em quem vestisse preto e branco.
Ninguém ficou de fora. Alguns utilizaram os punhos, outros as chuteiras. Os goleiros batiam com luvas. Sem pelica.
A policia entrou em campo ameaçando os brigões com cachorros e cassetetes sem muita cooperação dos times.
O centroavante Alberi iniciou uma desembestada carreira para o vestiário, perseguido por Pradera fungando no seu cangote. Quando Pradera estava prestes a dar o bote, escorregou e caiu espalhafatosamente. O suficiente para que o próprio Alberi, polícia e cachorros mergulhassem sobre ele, cobrindo-o de porradas.
Neutralizado o Golias, a coisa serenou.
O árbitro, que a tudo assistira tranqüilo ao lado do gramado, chamou os auxiliares com quem confabulou e deu por encerrada a partida, com a expulsão de todos os jogadores, médicos, massagistas, preparadores físicos e treinadores.
Só não citou na súmula a torcida que lotou o estádio.
Nos tribunais o América teve ganho de causa e pôde comemorar o título. As imagens da TV Universitária de Natal mostraram que Anderson havia iniciado o tumulto.
No dia seguinte, Pedro Pradera sentado em sua sala, colocava gelo em alguns hematomas. Ouvindo o seu rádio à pilha sintonizado no programa Mesa Redonda da Rádio Cabugi.
Um dos participantes foi bastante claro:
“Este Pradera é um animal truculento que merecia estar preso”.
Sorte do comentarista que a emissora tinha uma saída de emergência que possibilitou a sua fuga. Pedrão invadiu os estúdios da Cabugi, quase colocando uma porta abaixo na procura do seu desafeto.
O que marcou de forma negativa a pacata Natal e o seu futebol foi a exibição - no Fantástico daquele domingo - de imagens violentas, selvagens, de uma batalha campal sem precedentes.
O Globo Esporte durante muito tempo incluiu nas chamadas do seu programa diário o festival circense de luta livre que americanos e abecedistas protagonizaram.

18/09/1977 - AMÉRICA 0 X 0 ABC –
América: Cícero, Ivan Silva, Joel Santana, Argeu, Olímpio, Zeca, Alberi, Garcia, Ronaldinho, Aloísio, Soares (depois Ivanildo). Técnico Laerte Dória.

ABC: Hélio Show, Orlando, Pradera, Domício, Vuca, Baltazar, Noé Soares, Danilo Menezes, Noé Silva, Ânderson, Noé Soares.
Técnico Maranhão.
(Fonte: Cardoso, Everaldo Lopes (2006) Da Bola de Pito ao Apito Final - Memória do Futebol Potiguar. Ed. do Autor).


Arturzinho (prep. físico), Nei, Cícero, Marinho, Joel Santana, Argeu, Petrarca, Valdir, Cosme, Macarrão (massagista), Laerte Dória (treinador); Aluísio, Joel Ribeiro, Santa Cruz, Ivan da Silva, Ivan Xavier, Alberi, Zeca, Batista, Soares e Olímpio (Revista Placar).

13 comentários:

Adriano disse...

oi Valdir, estive neste jogo e lembro que Pradera não escorregou, ele passou por trás de Alberi (bola de prata da Placar em 1972)correndo atrás de um americano e o Alberi esticou a perna para trás dando uma incrível queda no Pedro Pradera, seria uma excelente vídeocassetada. O Aloísio Guerreiro alguns anos depois estava no Santos e o Joel Santana hoje, como treinador, coleciona títulos. E lembro também que todos brigaram até os cachorros da polícia se estranharam e os jornalistas de rádio trocaram tapas. Foi incrível.

Mauro disse...

Essa confusao foi do nivel da decisao do campeonato carioca de 1966 entre Bangu x Flamengo.

Valdir, voce matreiramente omitiu a sua participacao na refrega. Se todos brigaram, e voce estava presente, deve ter dado a sua contribuicao. Estamos curiosos. :)

Cada time tinha dois com passagem marcante pelo Vasco: pelo America, Valdir e Joel; pelo ABC, Danilo Menezes e o tecnico, o saudoso Maranhao.

valdir disse...

Mauro,
Eu já contei anteriormente que eu era um desafeto do Laerte Dória. Contratado pelo presidente do América no final do campeonato, graças a minha boa passagem pelo clube dois anos antes - sem o aval do Doria - só conquistei o lugar no camp brasileiro. Este jogo eu assisti da arquibancada. Sorte minha, teria sido a minha primeira e unica expulsão em um jogo de futebol. Abraço, Valdir

Valdir disse...

Adriano,
Bem lembrado. Só mais um detalhe. O Pradera correu atrás foi do Alberi mesmo. A queda e o escorregão do Pradera é que foi provocada pelo Alberi casualmente. Pode ter certeza de que o Alberi estava muito mais preocupado com a sua saude. Meu amigo Pradera - mormom - não levava a Bíblia pro campo.

Adalberto Day disse...

Valdir
Nada sabia a respeito desse jogo, mas passei aqui para te prestigiar pelas belas matérias que a nós você nos proporciona.
Valeu Chiquinho
Adalberto Day de Blumenau

Roberto Vieira disse...

Valdir, já solicitaste o Belfort Duarte?

Anônimo disse...

Poxa como é gostoso poder saber mais do futebol aqui da terrinha, ainda mais de alguém que ja jogou por aqui, valeu Valdir, narração fantastica, mas de uma coisa eu tinha certeza na epoca, a arbitragem já fazia estragos sempre favorecendo os times da capital, abraços, Genildo Oliveira /Mossoró Rn

João Izaias disse...

Eu assistí este jogo, E o clima mostrava que o alvo era Alberí, todos queriam provoca-lo, o próprio jogador anos mais tarde me afirmou que o intuito era esse. Lembro de Anderson correndo atras de Zeca e do goleiro Batista (Reserva), sendo agredido, depois de um escorrego. Pradera e/ou Padrera achando que só ele era macho,levou um chute de Alberí e foi a nocaute, daí Alberí e Alusio aproveitaram para fazer a festa, levou muitas porradas, sem falar na chegada da policia que não perdou por ele ter cortado o cordão de isolamento no meio de campo. Isso Eu ví. E meu conterraneo Soares com toda aquela sua tranquilidade, que lhe é peculiar.

Anônimo disse...

Esse Pedro Pradera, era um engolidor de cordas, no jogo no maracanã Flamengo 3x0 ABC deu uma voadora nos peito de Zico, não jogava nada. Aqui ele levou uma surra de Alberí e Aluisio, no outro dia la em Morro Branco deu muito trabalho ao massagista do ABC, que gastou muito gelo em seu ematomas. Procurou briga no Nordeste lascou-se.Era um bonachão. Ao futebol não apresentou nada.

Marcio Amaral disse...

O anônimo que publicou asneiras sobre Pradera certamente não conhece ou esteve presente naquela época. Padrera junto de Claudio Oliveira formou umas das zagas mais completas da história do mais querido do RN, Cláudio Oliveira era um zagueiro clássico, e que tinha excelente impulsão, Pradera completava a dupla com um futebol ríspido, mas que era e é até hoje admirado pela torcida alvinegra, tanto que recebeu homenagens do clube por sua importância para a história do ABC. Quanto a briga, foi um dos duelos mais importantes da história do futebol do RN, confirmo o descrito pelo grande arqueiro Valdir, estava presente e realmente o pau comeu...

Valdir Appel disse...

Marcio, o Pradera foi um jogador polemico, porque confundiam sua garra e amor a camisa, com violencia. Joguei com ele no Ceub (formou zaga com o pequeno notavel Claudio Oliveira).É uma pessoa maavilhosa e um lider nato.Abraço

Anônimo disse...

O engraçado é que até dois cachorros que entraram com a polícia militar se estranharam e brigaram também. Todo mundo brigou: jogadores, banco, comissão técnica, jornalistas, gandulas e até os cachorros.

Ass: Adriano

Ricardo disse...

Mais uma rica contribuição para a história do futebol. Grande Valdir! Parabéns!