domingo, 3 de agosto de 2014

Tem coisas que só acontecem ao Botafogo


Tem coisas que só acontecem ao Botafogo

A vitória sobre o Goytacaz nos trouxe alívio, tranqüilidade e confiança. O técnico Nelsinho restabeleceu o conjunto vencedor do Voltaço, da primeira fase, ao liberar o time para jogar, sem muita preocupação com a marcação. Restavam agora dois jogos para o término do segundo turno.
Nossa missão era espinhosa. Para continuarmos vivos na competição, necessitávamos buscar um pontinho no Maracanã contra o Botafogo. Ao time de General Severiano, uma vitória simples, garantia por antecipação a conquista da Taça José Wânder Rodrigues Mendes.
Este confronto jogo de fundo, de uma rodada dupla, foi realizado numa quarta-feira à noite.
Na preliminar, o Flamengo venceu o Olaria por 3 a 0.
A vitória rubro-negra mantinha os grandes na briga pelo título, desde que o Voltaço não permitisse uma vitória alvinegra.

-E ai Luiz Otávio vamos ao Maraca hoje à noite?
-Quem joga, Rogério? Meu Vascão, ta de folga.
-É o Fogão, cara. Meu time! Vamos colocar faixa em cima do Voltaço.
-Tudo bem, eu vou. Só pra ver o goleiro do Voltaço jogar. Jogou em SãoJanu, um tempão. Depois defendeu o Ceub, lá em Brasíla. Eu costumava ficar atrás do gol vendo ele treinar. Dava bronca na gurizada que ficasse encostada na trave. Ta pegando muito, tu vai ver só!


O maior estádio do mundo recebeu um grande público. Fazia tempo que o Botafogo não comemorava absolutamente nada. A arquibancada estava embandeirada pelos alvinegros.
Se o empate nos deixava satisfeitos, para o Fogão significava o adiamento da conquista e a obrigatoriedade de buscar em Campos o ponto que lhe daria o titulo.
Derrotamos o Botafogo, no primeiro turno, e empatamos em jogo amistoso. Estávamos atravessados na garganta do “Glorioso”.
Nossa torcida, deslocou-se em grande numero de Volta Redonda, e foi reforçada por rubro-negros, tricolores e vascaínos, interessados num tropeço do Bota. Secadores do alvinegro é o que não faltavam.

-Sente o clima, Luiz. Vai ser mamão com açúcar.
-Vai um Chica Bom?Um mate-leão?Hoje eu pago tudo...é só alegria.
-E eu pago pra ver, Rogério.

O jogo estava bem equilibrado, mas, o meu zagueiro Fernando estava chegando junto demais nos adversários e reclamando acintosamente da arbitragem do Armando Marques. Após um carrinho violento no atacante Nilson Dias, levantou-se para reclamar novamente.
Pela arrancada estilo Pantera Cor de Rosa do Armando, em direção ao nosso zagueiro, temi pela sua expulsão.
Corri então em direção ao colega e me interpus entre ele e Armando. Meti o dedo na cara do Fernando:
-Qual é a tua cara, queres nos prejudicar? Deixa o homem apitar que ele esta certo!
A minha atitude deve ter sensibilizado o juiz, que aplicou apenas uma severa advertência ao zagueirão.

-Ta vendo Luiz, até a defesa deles esta discutindo. Vai ser mole!
-Tá! Então tá!
-Pontes de Paiva! Que defesa! O chute do Ademir Vicente foi na forquilha. Como que pega um chute desses. De mão trocada!
-Tô dizendo!!


Logo em seguida, Mauro cometeu pênalti em Mario Sérgio, levando de presente um cartão amarelinho. O próprio Mario Sérgio ajeitou-se para a cobrança.

-Olha lá, Luiz! É pênalti! É só meter o primeiro que fica frouxo.
Pô! Logo o Mario Sérgio pra cobrar? Não tem outro não?

No meio do gol fiquei imaginando o que se passava na cabeça do meu oponente. A lógica, se é que ela existe numa cobrança de penalidade máxima, induz o goleiro a acreditar que canhoto cobre no canto esquerdo do goleiro.
Raciocinei então que o Mario Sergio chutaria no direito porque devia estar pensando:
“O Valdir nunca me viu cobrar pênalti, então vai para o canto esquerdo”.
Balancei o corpo para a esquerda sai bem antes da cobrança para o lado direito e peguei firme no canto baixo.
Armando Marques, não deu ouvidos às reclamações, e ainda orientou:
-Vai!Vai! Repõe a bola em jogo.

-Filho da mãe! Só pega contra a gente.
-Não te falei Rogério. Este cara vai fechar o gol e vocês vão bater palmas.
-Só por que tu qué, Luiz!

A partir daí, nosso time se acalmou em campo e passou a jogar de igual para igual.
Armando Marques na duvida favorecia a gente. O 0x0 frustrou as mais de 50 mil botafoguenses presentes ao Maracanã que tiveram que esperar até domingo para ver o seu time campeão do segundo turno.

-Vai ter boca ruim assim lá em "caxaprego”, ô Luiz!
-Não te falei? Enrola esta bandeira e vai a Campos torcer pelo pontinho que falta.
-É, meu amigo! Tem coisas que só acontecem com o meu Bota.

O técnico Paulo Amaral do Botafogo surpreendeu ao invadir o nosso vestiário, para cumprimentar a todos, fazendo questão de dizer que o resultado fora justo. O famoso careca - meu técnico na sua passagem pelo Vasco - deu-me um caloroso abraço.
Melhor mesmo foi receber do nosso presidente Isnaldo, quatro gratificações pelo feito.
Prêmios pagos pelo Vasco, Flamengo, Fluminense e do próprio Volta Redonda.
No dia seguinte perguntaram em entrevista ao nosso ponta-esquerda, Paulo César “Espanta Neném” se ele havia recebido um incentivo extra para ganhar do Botafogo.
-Falaro aí que vão pagar! Tô esperando pra ver.
Levou uma dura dos dirigentes quando chegou a Volta Redonda. Nunca ninguém admite o homem da mala.
- Mas que los hay, hay!
Encerramos nossa participação em casa com um 1x1 frente ao Olaria e classificamos para o turno final.
O Botafogo colocou faixa em Campos.

Botafogo 0 x 0 Volta Redonda. Local: Maracanã Juiz: Armando Marques Renda: Cr$ 486 735,00 Público: 38 656 Cartão amarelo: Mauro, An¬gelo e Paulo
Botafogo: Ubirajara, Miranda, Osmar, Nilson Andrade, China (Dodô), Carbone, Ademir, Cremílson, Nilson Dias. Marco Aurélio (Ricardo) e Mário Sér¬gio.
Volta Redonda: Valdir, Aluísio Fer¬nando, Fred, Angelo, Paulo, Mauro (Acelino), Jorge Cuíca, Jaílson, Paulo Roberto e Paulo César (Jarbas)
Nota: Os personagens dessa crônica são os jornalistas Luiz Otávio Coutinho, assessor de Comunicação Social da Universidade Federal de Itajubá e o seu primo, oficial reformado da Marinha, Rogério Caetano da Silva.

10 comentários:

Í.ta** disse...

ótima crônica, valdir!

e essa frase, das coisas que só acontecem ao botafogo, é demais mesmo! êta time folclórico!

grande abraço!

Í.ta** disse...

ah, verei a regininha nesta semana, em floripa. já tens o livro que eu e meu pai escrevemos? senão, posso levar um ti, deixar com ela. consegues pegar com ela?

valeu!

Regina Carvalho disse...

Valdir:
estás sabendo que o Sylvio Back - que é botafoguense - fez um longa justamente com este título?
Vais estar aqui no lançamento,amanhã?
Então nóis se vê!
bj

Adalberto Day disse...

Valdir
Falar do Glorioso (teu time, mas Vasco de coração), é sempre muito bom. É falar de estrelas. Eu te confesso que ouvi este jogo pelo rádio, pois interessava meu Vascão.
É Chiquinho, tu eras o goleiro disfarçado de Valdir como sempre e fosse estragar a alegria do teu Botafogo. Brincadeiras a parte meu nobre “Chiquinho”

O Slogan “tem coisas que acontecem só ao Botafogo” serve para todos os times. Mas para o Botafogo Glorioso, pegou.
Mais uma bela crônica que você nos brinda, meu caro amigo Valdir Appel o “Chiquinho
Adalberto Day cientista social e pesquisador em Blumenau”

Mauro disse...

Gostei muito dessa cronica descrevendo a sua grande atuacao que o nosso amigo Luiz Otavio teve o privilegio de assistir, com direito a copia do ingresso para comprovar. Bela reliquia.

Um abraco,

Mauro

Roberto Vieira disse...

Sensacional!!!

Iata disse...

AMIGO VALDIR. ENTÃO ERA VOCÊ O GOLEIRO.EU ESTAVA NO MARACANÃ, NAQUELE JOGO, NO MEIO DO CAMPO, LÁ EM CIMA. ERA UM DOS "SECADORES" DO BOTAFOGO. NA VERDADE FUI MESMO VER O FLAMENGO. DEPOIS FIQUEI NO "ARCO-IRIS", CLARO. VC FEZ A SUA PARTE. O BLOG ESTÁ MUITO BOM, COMO SEMPRE.
GRANDE ABRAÇO. IATA ANDERSON

Antonio Estevam disse...

Valdir,

Quando vc falou do abraço do Paulo Amaral lembrei na hora de como ele corre?anda quando da volta olímpica pela conquista da copa de 58.
Se vc nunca reparou, busca no Youtube que tem.
É muito engraçado.
Na verdade nem é correndo, nem andando, nem pulando. É algo inédito.
Pbns pelo texto.
Antº Estevam

PS: e o "garoto" Viola, continua no Brusque?

Causos da Bola disse...

Grande Valdir,
Eu morava em Volta Redonda nessa época e me lembro muito bem desse jogo. Você realmente fechou o gol.
Muito legal a lembrança daquela partida.
Abração,
Victor Kingma

Luiz Otávio Coutinho disse...

Caro Valdir:

Gostei muito da homenagem que você me prestou e, principalmente, do seu texto que captou fielmente a história que contei sobre o jogo que assisti em companhia do meu primo botafoguense, Rogério. Incrível como depois de tantos anos as imagens de suas defesas naquela noite ainda estão gravadas na minha retina.
Vi que o Iata comentou também sobre o jogo no blog. Não sei se vai se lembrar, mas ele foi meu companheiro na Rádio MEC. Eu era repórter de geral em início de carreira. Peguei algumas caronas com ele direto da Rádio para os jogos no Maracanã.