sexta-feira, 18 de julho de 2014

Vai dar Zebra, 2

O árbitro
Talvez seja pura lenda. Circulava entre os boleiros do meu tempo, a história de um jogo na Bolívia, nos anos 1950, entre o Vasco da Gama e um time de La Paz. Preocupados em evitar uma goleada histórica do timaço vascaíno, os dirigentes andinos resolveram buscar na arbitragem uma forcinha para equilibrar o jogo. Os times brasileiros geralmente aplicavam sonoras goleadas nos times locais.
Velha raposa, Gentil Cardoso, treinador do Vasco, previamente informado das intenções do seu adversário, matreiramente desembarcou na Bolívia não como técnico, mas se fazendo passar por árbitro de futebol. Hospedou-se num hotel longe dos seus comandados e fez circular a notícia de que estava na cidade um famoso árbitro argentino. Os dirigentes locais entraram em contato com Gentil, que foi contratado para apitar o jogo.
A partida seguiu bem disputada até a metade do segundo tempo, o Vasco vencia por um módico 1 a 0, e o público estava empolgado com o seu time, que encarava com garra os brasileiros. Aos 20 minutos, um atacante do Vasco trombou com um zagueiro boliviano, e caiu na área. Gentil, incontinente, assoprou o seu apito e disparou em direção a grande área, com o dedo indicador apontando a marca do pênalti.
Em questão de segundos, estava rodeado de jogadores e dirigentes locais, que saíram do banco de reservas esbravejando e contestando a marcação do árbitro hermano. Era uma gritaria só:
“Usted no es hombre para marcar un pênalti contra nosotros, en nuestra casa!”.
“Usted no vá salir vivo de acá!”.
Calmamente, Gentil acalmou os agressores:
“Ustedes no entenderán nada! Y ese dedito acá no vale nada? La falta es para allá!”.
Gentil mostrou o dedo polegar indicando a direção contrária, marcando falta do atacante do Vasco.

O pênalti
O treino do Bangu seguia motivado, com os titulares e reservas se empregando a fundo. O goleiro Ubirajara Mota treinava nos aspirantes para ser mais empenhado, e fechava o arco com defesas espetaculares.
O técnico Gentil Cardoso que não suportava perder, inclusive treinos, marcou uma penalidade máxima para o time principal. O ponta-esquerda Aladim ajeitou a bola na marca da cal, e bateu de canhota no canto esquerdo do goleiro Bira, que saiu preciso para defender a cobrança.
Gentil parou imediatamente o treino, irritado. Chamou os atacantes e o cobrador Aladim para a entrada da área, colocou a bola na marca do pênalti novamente, e se posicionou para mostrar como queria a cobrança.
Bateu de novo e Ubirajara defendeu.
Gentil, sem perder a pose, virou-se para o Aladim e disse:
“Viu? Foi assim que você bateu!”.

8 comentários:

Osvaldo disse...

Caro Valdir;

Nunca tinha escutado essa do Gentil virar árbitro e conversei, como já disse anteriormente, algumas vezes com ele porque eramos vizinhos, mas não dúvido que não tenha acontecido... até porque ele nos contava um montão de histórias vivdas por ele.

Obrigado, amigo Valdir, por nos relembrar momentos inesqueciveis do nosso Vasco e esta da virada em cima do Bota em 67 quase a peguei como uma homenagem a quem lá esteve no Maraca nesse dia, como eu estive.

Um abraço, Valdir
Osvaldo

Valdir Appel disse...

Osvaldo,
Eu sabia que você gostaria de rever esta virada. Outros vascainos vão gostar, sem duvida.
Estevi no gol da 4x3 contra o Fla. No jogo contra o Bota, o goleiro era o Edson Borracha.
Abraçoamigo,

Iata Anderson disse...

Valeu, Valdir

Duas viradas sobre o MAIS QUERIDO. Naquele tempo o Vasco vencia a gente mas a história mudou.
Para compensar mande o gol do Pet, no Tri de 2001, ahahahahahahaha
Você não tem o e-mail do Brito ?. Ele iria adorar seu blog. Acho que é o cara que mais aparece nele.
Parabéns, muito bom.

Grande abraço
Iata

Valdir Appel disse...

Sei não Iata, temos que consultar a exxxxtatishhca.
Abraço

Adalberto Day disse...

Valdir
Sensacional essa do Gentil, mais uma vez...
O Homem foi folclórico e dos bons. Mas aquilo que mais gostei, foram as viradas do meu Vasco. Ver esses arquivos nos enche de alegria.
Parabéns Valdir por nos proporcionar esses momentos inesquecíveis.
Um abraço Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau

Roberto Vieira disse...

Grande Valdir, do Gentil eu acredito em tudo...

Mauro disse...

Acho que essa historia na Bolivia nao passa de folclore criado em torno dessa figura impar que foi o Gentil. Me baseio no fato de que a unica vez que o Vasco esteve na Bolivia foi na excursao de fevereiro de 1967. Voce foi nessa, Valdir?

Esse video da virada contra o Botafogo nao deixa de ser uma maravilha, mesmo estando em tao mau estado. Da' para emocionar a quem esteve la'. A imaginacao e a memoria fazem o resto. A imagem do Fontana comemorando o gol nunca saiu da minha memoria, eu estava ali na arquibancada atras do gol. Porem nao me lembrava dos jogadores carregando o Gentil, nao sei se cheguei a ver a cena.

Paola Miranda disse...

Bom, se é verdade, eu não sei! Mas, escuto essa história sobre meu biza Gentil Cardoso, desde pequena!
Obrigada por ele estar sendo relembrado!
Paola Cardozo Miranda
paolacardozo@gmail.com