domingo, 20 de julho de 2014

Festa no interior

Algumas coisas em Natal contribuíam para a minha fixação pelo lugar. Os costumes, a simplicidade, a cordialidade, o vocabulário e o sotaque tão diferentes do meu.
‘Catarina’ chia e canta ao mesmo tempo.
Peça um cachorro quente a um potiguar. Ele te servirá pão com carne moída. Hot-dog é pão com salsicha.
Não dá pra usar nordestino como co-piloto:
“Posso virar à direita?”.
“Pode...não!”.
Depois do ‘pode’, você já virou, e quando ele disser ‘não’, você já bateu com o carro.
O Alecrim precisava faturar algum dinheiro extra porque as finanças do clube estavam em baixa e arrumou um jogo amistoso na cidade de Currais Novos, interior do Rio Grande do Norte.
Fomos de ônibus, chegamos por volta do meio-dia.
Ficamos hospedados num pequeno hotel, onde almoçamos.
Pouco antes de seguirmos para o estádio, o diretor de futebol Joilson Santana pediu que colocássemos o uniforme e seguíssemos prontos para o jogo.
Estranhei, mas não me preocupei. Na terrinha, sempre havia alguma novidade me surpreendendo.
O ônibus se deslocou lento por uma estrada poeirenta. Da minha janela, apreciava a vegetação única do nordeste, quando a visão de um campo de pelada do interior me chamou a atenção. Rodeado de coqueiros, o campo não tinha grama e nas laterais muretas serviam como apoio para os cotovelos dos torcedores, substituindo o tradicional alambrado.
“Até que tem bastante gente aí, heim, Joilson?”.
“Claro, Valdir! Vieram pra te ver jogar”.
Viram-me entrar em campo, onde fiquei apenas alguns minutos - dei lugar ao goleiro reserva -, colher pedrinhas no duro chão batido e distribuir autógrafos para os torcedores que faziam questão de assistir ao jogo do meu lado, praticamente dentro do gol.
(1974)

Alecrim, 1974. Valdir, Chico, Batista, Ticão, Gonçalves e Carlindo; Tiquinho, Marco Pintado, Américo, Teles e Betinho

4 comentários:

Adalberto Day disse...

Valdir
Parece um Alecrim na foto...né nosso alemão.
Belas histórias que você nos conta, do cotidiano do dia a dia da bola - não só do presente mais relembrar a sua carreira, e junto de muita gente importante do nosso futebol bretão.
Valeu Valdir.
Adalberto Day de Blumenau

Anônimo disse...

Belo Post Valdir, e sendo aqui da terrinha melhor ainda, falar em Interior, aqui no primeiro turno só deu Interior, deu Assú em cima do Santa Cruz, um abraço e pobre Alecrim nos dias de hoje, lutou para não cair até a ultima rodada aqui no Rn, um abraço, Genildo Oliveira/Mossoro RN

Roberto Vieira disse...

Arruda, Aflitos e Ilha eram assim... um pouco de grama, uma cerquinha em volta e muita, muita imaginação dos torcedores... Parabéns pelo texto!

Mauricio Neves disse...

Acho que o futebol era mais autêntico com esses campos do que com essas Arenas Kyoceras de hoje... Abraço, e boa sorte com o projeto do livro!