sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O fotógrafo
Érico Zendron registrou, por mais de uma década, belíssimas imagens do futebol brusquense, com o foco da sua câmara Rolleyflex voltado principalmente para os clássicos entre Paysandú e Carlos Renaux.

Protegido apenas pelo seu chapéu Panamá branco, e mostrando estilo com suas calças e camisas leves de linho, seguras por finos suspensórios, Érico transitava livremente pelos gramados dos estádios da rua Pedro Werner e Augusto Bauer. Eternizando em fotos preto e branco, incríveis jogadas, grandes defesas, e as explosões de alegria nas arquibancadas, proporcionadas pelas torcidas alviverdes e tricolores.
Érico também deu seus chutes no Carlos Renaux, em 1948, e no Paysandú, em 1949, depois de ter jogado no Independente, time amador de Brusque. Ponta esquerda habilidoso, encerrou prematuramente sua carreira no Novo Hamburgo, do Rio Grande do Sul. A saudade de casa, da família e dos amigos foi mais forte. No retorno, seu pai Antônio deu-lhe um ultimato:
“Esquece este negócio de jogar bola. Isto só nos dá prejuízo!”.
A bronca do seu Antônio tinha um justificado motivo: quando Érico jogava pelo Renaux, os paysanduanos não compravam calçados na loja do pai; e quando ele se bandeou para o Paysandú, os atleticanos não compravam mais.
Érico, apesar de ser carrenô de coração, era acima de tudo um esportista e simpatizante do mais querido. Assim, não foi muito difícil para ele trocar o uniforme de jogo das tardes de domingo, pela sua câmera fotográfica.
Dono de um acervo inestimável, perdeu grande parte nas enchentes que sempre causaram danos irreparáveis a nossa cidade, levando em suas águas sujas documentos e fotos, e a sua preciosa Rollerflex.
Depois da ultima cheia, achou que tomara as providências necessárias para evitar que o seu arquivo se perdesse. Caprichosamente, armazenou em sacos plásticos dezenas de negativos, e os acomodou no forro do telhado de sua residência. Ledo engano: não foram as águas que provocaram novos prejuízos, e sim a umidade traiçoeira que se encarregou de colar uns nos outros.
Em 1963, uma Minolta 1000 era sua nova companheira, onde acumulava imagens de vários jogos, antes de mandar revelar o filme de 36 poses.
Assim, as fotos que marcaram a despedida de Teixeirinha vestindo a camisa do Carlos Renaux e a minha estréia no tricolor, na histórica vitória sobre o bicampeão catarinense Metropol por 4 a 1, estavam no mesmo filme que Zendron pretendia concluir no jogo seguinte contra o Marcilho Dias em Itajaí.
Julinho fez um gol e eu defendi um pênalti cobrado pelo zagueiro Ivo Meyer no primeiro tempo. Na etapa final suportamos a pressão do adversário e da torcida. A poucos minutos do fim o time itajaiense iniciou um tumulto que provocou a invasão de campo pela torcida. Fomos ameaçados, hostilizados e agredidos. Zendron não perdia um lance. A policia interveio e, ao invés de nos proteger, nos acuou e deixou bem claro que para sairmos vivos do estádio, seria interessante a gente amolecer a partida.
Na empurra-empurra, tomaram a Minolta das mãos do Érico, que só foi recuperá-la na delegacia. Sem o filme, é claro.
Tivemos que abrir as pernas e entregar o jogo já nos acréscimos, perdendo por 2 a 1. Mesmo assim, só conseguimos deixar o estádio às 8 horas da noite.
Desolado, Érico Zendron jamais voltaria a pisar um campo de futebol com a sua câmera fotográfica, encerrando com ele um período mágico do futebol brusquense de muitas conquistas estaduais e regionais, aposentando as lentes através das quais viu as defesas do Herbert e do Oswaldo, os malabarismos do Pereirinha, a classe do Pilolo e do Ivo, as cabeçadas do Julinho, os gols do Petruscky e do Teixeirinha, as marcantes passagens de um Mané Garrincha com o seu Botafogo, e o Flamengo do Dida e Babá pelos gramados da nossa cidade.

Glossário: Carrenô – Carlos Renaux; mais querido – Clube Esportivo Paysandú
Fotos de Érico Zenrom.

3 comentários:

Anônimo disse...

Valdir
Sensacional,os registros do Érico Zendron por si próprio já falam. Uma raridade, espetacular as imagens que foram batidas pela sua câmara Rolleyflex. Tenho uma dessa maravilha guradada em meus arquivos de objetos e fotos.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

Roberto Vieira disse...

Sou fã desses dois craque: Valdir e Érico!! Deveriam ter nascido em Pernambuco!!!!

Alexandre disse...

Chiquinho, cada foto dessas valeria um texto e legenda com nomes, datas, etc.

Você tem essas informações, pelo menos de algumas dessas fotos?